O ódio dos imbecis

O ódio visto e ouvido diante do AVC e morte de Marisa Letícia Lula da Silva é sintomático de doença do caráter que assola o Brasil

por Valdemar Pereira de Pinho*

A internet é o veículo preferido, embora não o único, dos que elegeram a disseminação do ódio como terapia para suas disfunções. Em uma entrevista ao jornal La Stampa, Humberto Eco perdeu a estribeira: “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis”. 

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

O ódio visto e ouvido diante do AVC e morte de Marisa Letícia Lula da Silva é sintomático de doença do caráter que assola o Brasil. Segundo o Dicionário Aurélio, o ódio é “paixão que impele a causar ou desejar mal a alguém”, sentimento cego que não se baseia em fatos, e que se apóia na “pós-verdade” que pulula na internet. “Pós-verdade” é o novo nome para crenças baseadas em mentiras e falácias, “circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos importância do que crenças pessoais”. E há muito tempo vemos artigos e posts irados baseados na “pós verdade”.

As manifestações diante da doença de um ser humano, e o júbilo diante da sua morte, além de revelar o caráter dos “odiadores”, têm sido uma forma de exibição e de busca por sensação de poder. Ao serem curtidos ou contestados, sentem que têm os holofotes sobre si pelo menos por alguns segundos, antes de voltar à penumbra. O que se viu quando Marisa estava internada foram duas imbecis avós com cartazes na porta do Sírio Libanes exigindo sua transferência para o SUS. Que é que ela faz lá, já que esse hospital deveria ser apenas para elas e as da sua “classe”? Tivemos imbecil promotor dizendo que separou a champanhe para brindar a sua morte. Covarde, apagou a postagem depois. Viu-se médicos se divertindo com o AVC e os exames postados e compartilhados em grupos de WhatsApp, e, pelo menos um deles sugerindo “tecnicamente” aos colegas como fazer pra matá-la no procedimento. E uma enxurrada de postagens do tipo “Deus faz justiça”, “já vai tarde”, “vamos orar para seu marido encontrá-la logo” e outras imbecilidades. Alguns escrevem textos vazios que “justificam” o ódio atacando Lula e Marisa com calúnias e com mentiras já desmentidas pelas testemunhas da Lava Jato. Não importa, viva a “pós verdade”!!!

Em um artigo de 28/01/2017, Dom Orvandil, bispo da Diocese Brasil Central da Igreja Anglicana, presidente da Ibrapaz, e professor universitário, classifica isso como histeria coletiva. “A histeria pode ser também social e coletiva. As pesquisas identificam isso, que a psicologia chama de ‘doença’, como vivência de grupos fechados quando as pessoas se desatinam fazendo ações não planejadas, impensadas e sem previa combinação, mas todos se comportando da mesma maneira, como se uma força poderosa as comandasse a agir no mesmo padrão e no mesmo sentido. Gestos, textos e discursos histéricos tomam as redes sociais com injúria, calúnia e difamação contra as pessoas que os mobilizados pela peste emocional julgam ‘os diferentes’, e decidem por sua eliminação. A peste ‘histeria coletiva’ modela atitudes violentas, estridentes e estranhas às pessoas aparentemente bem comportadas fora dessas junções tresloucadas.” Isso além de jornais, TV e dos blogs e sites bem pagos pra disseminar mentiras e ódio, que “informam” essas “pessoas de bem” a agir como imbecis.

* Valdemar Pereira de Pinho é professor aposentado da Unesp e membro do Partido dos Trabalhadores, em Botucatu.

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