Cuesta Basáltica Botucatuense e a Carta de Risco de Erosão

Vamos estudar e refletir, o ser humano ignorante é fácil de enganar

por Patrícia Shimabuku*

Regiões de relevos peculiares como as Cuestas Basálticas quando não são considerados suas características geológicas e geotécnicas, problemas como escorregamento, rastejo, quedas de blocos, processos erosivos (como voçorocas) são os percursos da dinâmica superficial mais observados. Problemas estes que geram diversos tipos de instabilidades nos taludes de corte e de aterro, nas encostas naturais e em outros locais, tanto no solo como em rocha, pois estas regiões são classificadas com alta criticidades em relação aos processos erosivos, como descrevem os autores Fernandes & Cerri no seu artigo “Elaboração da Carta Geotécnica de Suscetibilidade de um trecho da Rodovia Marechal Rondon – SP-300, SP-Brasil”, publicado na Revista de Geociências da Unesp em 2011.

Os passivos ambientais mencionados acima são causados essencialmente pela falta do necessário conhecimento do meio físico, principalmente referente à gênese dos processos da dinâmica superficial. Este desconhecimento leva a projetos construtivos inadequados, construções ineficientes, cujas consequências são as aplicações de altos recursos financeiros na tentativa de minimizar ou solucionar os passivos causados, comentam Fernandes & Cerri.

Para o melhor entendimento do relevo da nossa cidade e de um documento crucial , a CARTA DE RISCO DE EROSÃO DA ÁREA URBANA DE BOTUCATU, consultamos o Professor Álvaro Rodrigues dos Santos (geólogo formado pela USP, pesquisador V Sênior pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e ex-Diretor da Divisão de Geologia Aplicada, Consultor em Geologia de Engenharia, Geotécnica e Meio Ambiente – Criador da técnica Cal-Jet de proteção de solos contra a erosão e Diretor-presidente da ARS Geologia Ltda.).

Professor Álvaro, “o município de Botucatu, como sabemos, está localizado sobre uma área que alguns chamam de “monumento geológico”, a Cuesta Basáltica. O que é esta Cuesta Basáltica? ”  “O município de Botucatu constitui uma verdadeira aula de Geologia. Do ponto de vista geológico o Estado de São Paulo divide-se em duas grandes porções separadas por um arco imaginário que no sentido Norte-Sul passa nas cercanias dos municípios de Itararé, Itapeva, Pilar do Sul, Sorocaba, Salto, Campinas e Mococa. A leste desse arco, ou seja, em direção ao litoral, há o domínio de rochas cristalinas (magmáticas e metamórficas), a oeste do arco estão os terrenos da grande Bacia Sedimentar do Paraná, com suas várias formações geológicas. Botucatu, desse ponto de vista geológico, está situada na Bacia Sedimentar sobre o Grupo São Bento, que é constituído pela Formação Serra Geral (extensos derrames basálticos com intercalações areníticas) e pelas formações Botucatu e Pirambóia (espessas camadas areníticas de origem eólica correspondentes a antigos desertos). Como os basaltos são mais resistentes à erosão do que os arenitos, esses foram mais intensamente lavrados pelos processos erosivos, do que resultou na região um grande degrau, que geomorfologicamente tomou o nome de Cuesta Basáltica. A área urbana do município de Botucatu está especialmente situada no que os geólogos chamam de reverso da Cuesta, ou seja, na parte alta que resistiu mais à erosão e que se inclina levemente para oeste. Sobre esse reverso depositaram-se também sedimentos areníticos correspondentes à Formação Marília, geologicamente mais recente. ”

Professor Álvaro, “o município conta com a “Carta de risco de erosão da área urbana de Botucatu, SP – IPT, Relatório 33 369 de 1995. Este importante documento, muito desconsiderado e esquecido pelos representantes públicos nas prateleiras das Secretarias Municipais versa sobre a suscetibilidade a erosão do solo de nossa cidade. O que aprender em relação a isso? ” Aprender o que todos nós que trabalhamos com as relações entre as atividades humanas e o meio físico geológico temos aprendido, com muita preocupação e muita tristeza, ou seja, que a qualidade média de nossos administradores públicos, seja em termos de competência técnica, seja em termos de reais compromissos com a sociedade, seja em termos cívicos, é, desgraçadamente, muito baixa. Esse fato realça a necessidade da sociedade se organizar e exigir dos administradores públicos a realização daquelas medidas que entendem indispensáveis para assegurar os níveis civilizatórios de qualidade de vida dos cidadãos. Nesse quadro geral de ineficiência das administrações públicas uma sociedade não organizada que não defenda seus interesses está fadada a pagar altíssimos preços. Em muitas situações, inclusive com a perda de vida de muitos de seus cidadãos.

A Carta de Risco do IPT é documento público e deve ser utilizada. Vamos estudar e refletir, o ser humano ignorante é fácil de enganar. Semana que vem tem mais.

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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