Existe solução para as enchentes urbanas e inundações?

A criação de um zoneamento urbano com análise técnica e crítica das áreas de inundações é crucial para elaboração de um Plano de Gerenciamento de Águas Urbanas

por Patrícia Shimabuku*

A urbanização não ordenada de um determinado território pode trazer consigo inúmeros efeitos indesejáveis, considerados prejudiciais à população e ao meio ambiente. Com o desenvolvimento urbano, ocorre a impermeabilização do solo através de telhados, ruas, calçadas, entre outros. Dessa forma, a parcela da água que infiltrava no solo (ciclo hidrológico) passa a escoar pelas vias públicas e condutos, aumentando o escoamento superficial. O volume que escoava lentamente, pela superfície do solo e ficava retido pela vegetação, com a urbanização, passa a escoar no canal, exigindo maior capacidade de escoamento das seções.

Por definição, “ENCHENTE” é a temporária elevação do nível d’água normal da drenagem, devido ao acréscimo de descarga e, “INUNDAÇÃO” é um tipo particular de enchente, na qual a elevação do nível d’água normal atinge tal magnitude, que as águas não se limitam à calha principal do rio, extravasando para as áreas marginais, habitualmente não ocupadas pelas águas. Segundo White, 1974 apud PROIN/Capes & Unesp/IGCE (1999) “As enchentes e as inundações não configuram situações de risco quando o homem não ocupou a planície de inundação”.

Enchente1

Carlos Tucci, em “Inundações Urbanas” descreve que as enchentes ampliadas pela urbanização, em geral, ocorrem em bacias hidrográficas de pequeno porte, de alguns quilômetros quadrados. Nas grandes bacias hidrográficas, existe o efeito da combinação da drenagem dos vários canais de macrodrenagem, que são influenciados pela distribuição temporal e espacial das precipitações máximas. A tendência da urbanização é de ocorrer no sentido de jusante para montante, na macrodrenagem urbana, devido às características de relevo. Quando um loteamento é projetado, os municípios exigem apenas que o projeto de esgotos pluviais seja eficiente no sentido de drenar a água do loteamento. Quando o Poder Público não controla essa urbanização, ou não amplia a capacidade da macrodrenagem, a ocorrência das enchentes aumenta, com perdas sociais e econômicas.

Normalmente, o impacto do aumento da vazão máxima sobre o restante da bacia hidrográfica não é avaliado pelo projetista ou exigido pelo município, comenta Tucci. A combinação do impacto dos diferentes loteamentos produz aumento da ocorrência de enchentes à jusante. Esse processo ocorre através da sobrecarga da drenagem secundária (condutos) sobre a macrodrenagem (córregos e canais) que atravessa as cidades. As áreas mais afetadas, devido à construção das novas habitações a montante, são as mais antigas, localizadas a jusante. As consequências dessa falta de planejamento e regulamentação são sentidas após as chuvas torrenciais. Depois que o espaço está todo ocupado, as soluções disponíveis são extremamente caras, tais como canalizações, diques com bombeamentos, reversões e barragens, entre outras. O Poder Público passa a investir uma parte significativa do seu orçamento para proteger uma parcela da cidade que sofre devido à imprevidência da ocupação do solo.

Para o entendimento sobre a importância da implementação de técnicas de drenagem sustentáveis em meio urbano, entrevistamos o Professor Álvaro Rodrigues dos Santos (geólogo formado pela USP, pesquisador V Sênior pelo IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas, ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT e ex-Diretor da Divisão de Geologia Aplicada, Consultor em Geologia de Engenharia, Geotécnica e Meio Ambiente – Criador da técnica Cal-Jet de proteção de solos contra a erosão e Diretor-presidente da ARS Geologia Ltda.).

Professor Álvaro, para começamos a racionalizar e compreender novos métodos de planejamento urbano e das águas de chuva, o que o método de infiltração das águas de chuva tem a nos ensinar? Recuperar a capacidade de recarga das águas subterrâneas, em nosso caso do Aquífero Guarani, deve ser considerada uma missão prioritária dos municípios e populações presentes nessa grande região do sul-sudeste brasileiro. Tanto no campo como nas cidades. E, felizmente, há todo um arsenal técnico à disposição de ações que tenham esse objetivo.  Essencialmente, é uma questão de alteração da atual cultura de livrar-se da água de chuva o mais rápido quanto possível, para uma nova cultura de reter e infiltrar o maior volume de águas de chuva quanto possível. Para as cidades, essas seriam algumas das técnicas e dispositivos mais indicados: calçadas e sarjetas drenantes, pátios e estacionamentos drenantes, valetas, trincheiras e poços drenantes, multiplicação dos bosques florestados por todo o espaço urbano, etc.

A criação de um zoneamento urbano com análise técnica e crítica das áreas de inundações é crucial para elaboração de um Plano de Gerenciamento de Águas Urbanas. O entendimento das dinâmicas hidrológicas das microbacias urbanas associados à geomorfologia da Cuesta Basáltica (e sua importância ecológica) são fatores a serem considerados na gestão das águas urbanas. “Livrar-s​e das águas das pluviais” não é a solução inteligente e responsável, a solução é fazer que estas águas infiltrem e recarreguem as reservas subterrâneas, garantindo o abastecimento de água. No entanto, esta gestão, além de garantir a infiltração, deverá garantir a qualidade desta água que será infiltrada. Por fim, como estão o Plano de Saneamento Básico e o Plano Diretor de Drenagem Urbana (PDDU) do nosso município? 

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

Deixe uma resposta

Sobre Flavio Fogueral