OPINIÃO | Bacias hidrográficas urbanas (Bacias hidrográficas como estratégia de planejamento – Parte 3

Um clássico exemplo de não-projeto em Botucatu é o impacto que a área de várzea, onde se localiza a Rodoviária

por Patrícia Shimabuku*

Dando continuidade aos nossos estudos sobre a paisagem (bacia/sub/microbacia e APPs), agora vamos refletir sobre a bacia/sub/microbacia hidrográfica urbana. As informações a seguir, foram fundamentadas nas referências: “Um olhar sobre as microbacias hidrográficas urbanas: ocupação e consequências ambientais” & “Gestão por bacias hidrográficas: do debate teórico à gestão municipal”.

Ao contrário de uma bacia/sub/microbacia hidrográfica tipicamente “rural”, onde a rede hidrográfica fica sempre à mostra e bem definida pela topografia do terreno (ler texto: Bacia hidrográfica como unidade de planejamento), as urbanas, na maioria das vezes, apresentam os seus limites imperceptíveis, as ruas tomam o lugar dos afluentes e a água (muitas vezes) só aparece quando chove.

Os fatores hidrológicos que são diretamente afetados nas urbanas são: (1) o volume do escoamento superficial direto, (2) os parâmetros de tempo do escoamento superficial e (3) a vazão de pico das cheias dos cursos hídricos. Efeitos estes causados diretamente por alterações na cobertura do solo, modificações hidrodinâmicas nos sistemas de drenagem e as invasões das várzeas.

As alterações na cobertura do solo devido à urbanização contemporânea caracterizam-se pela sua remoção (num estágio inicial), os movimentos de terra, e posteriormente a substituição por áreas construídas, pavimentadas ou com outro tipo de cobertura substancialmente diferente do original. Já ruptura da cobertura do solo tende a deixá-lo exposto à ação das enxurradas, produzindo a erosão superficial e consequentemente o aumento do transporte sólido na bacia/sub/microbacia hidrográfica e sedimentação nos drenos principais, de menor declividade. As áreas construídas e pavimentadas aumentam gradativamente a impermeabilização dos solos da bacia/sub/microbacia hidrográfica, reduzindo sua capacidade natural de absorver (infiltração) as águas das chuvas, o que aumenta o escoamento superficial direto.

Já as principais modificações das características hidráulicas das calhas dos corpos hídricos decorrem das obras de canalização. Estas, em regra geral, envolvem retificações, ampliações de seções e revestimentos de leito ou, ainda, as substituições das depressões e dos pequenos leitos naturais por galerias. Os canais artificiais apresentam menor resistência ao escoamento e, consequentemente, maiores velocidades, o que resulta num efeito de redução dos tempos de concentração da bacia/sub/microbacia hidrográfica.

Um clássico exemplo de não-projeto em Botucatu é o impacto que a área de várzea, aonde se localiza a Rodoviária, sofre com as constantes enchentes e alagamentos após as chuvas torrenciais. As microbacias do Tanquinho, Água Fria, Vale do Sol, Cascata e Antártica convergem naturalmente para esta área (várzea), que desavisadamente, foi ocupada com o Terminal Rodoviário.

Para o uso e ocupação de qualquer bacia/sub/micro hidrográfica, quanto mais as muitas sensíveis, por seus aspectos de fragilidade (solos arenosos) deve-se atentar para as questões de percentuais de absorção, impactos nas áreas de várzea, preservação das APPs e soluções sustentáveis de drenagem para as aguas das chuvas. A solução para a rodoviária de Botucatu passa por entender, como se encontra a ocupação das microbacias hidrográficas contribuintes desta área de várzea. Caso não seja feito este olhar macro os problemas, só tendem a se agravar com a impermeabilização das áreas do entorno destas microbacias.

Neste contexto, observa-se que a tendência da urbanização contemporânea é de ocorrer no sentido de jusante para montante. Quando um loteamento é projetado, os municípios exigem, na maioria das vezes, apenas que o projeto de esgotos pluviais seja eficiente no sentido de drenar a água do loteamento, mas o impacto do aumento da vazão sobre o restante da bacia não é avaliado pelo projetista ou exigido pelo município. E aí, temos a sobrecarga dos dutos de drenagem e a impermeabilização do solo associados com a redução da vegetação, que reduzem a infiltração das águas das chuvas, aumentando a ocorrência de enchentes a jusante.

Com estas informações, reflexões e análises e leitura da paisagem urbana e natural de nosso município, nota-se que o primeiro desafio envolve a etapa de diagnóstico e seu entendimento (de modo macro para micro), uma analisa com profundidade do panorama atual do recorte territorial (bacia/sub/microbacia) quanto à qualidade, ao equilíbrio hidrológico e a distribuição das atividades antrópicas e de seus efeitos decorrentes. Lembrando que estas análises deverão estar correlacionadas com os planos de manejos das áreas de importância ambiental e instrumentos legais. Emerge então uma questão-chave: de que forma avaliar adequadamente bacia/sub/microbacia hidrográficas em consonância com o desenvolvimento ecológico econômico dentro de nossa escala municipal?

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

Deixe uma resposta