OPINIÃO | Elevados, pontilhões e pontes para o futuro de Botucatu

A mobilidade e acesso aos quatro cantos da terra dos bons ares sempre foi um problema

por Daniel de Carvalho*

Não é de hoje que se fala dos problemas em se ter um carro em nossa cidade. A mobilidade e acesso aos quatro cantos da terra dos bons ares sempre foi um problema não somente aqui mas em todo município com visão além do alcance, enxergando hoje o futuro que queremos e, assim, construir o amanhã. Está na história, e nela fica escrito todo ato visionário.

No século XIX, em 20 de abril de 1889, ainda no governo do Imperador Dom Pedro II, o botucatuense parou para admirar a inauguração do futuro chegando a vapor com a inauguração da ferrovia Sorocabana que cortaria a cidade e consequente construção do pontilhão que faria ferver o crescimento da Vila dos Lavradores. Engenhos, fábricas, máquinas e rica estrutura desenvolvimentista engajava o fortalecimento do bairro e todas residências e loteamentos nesta região que hoje é central. Dos pontos mais tradicionais do município, “o Bairro” é agora posto a ser uma Zona Especial de Patrimônio Cultural – ZEPAC segundo redação do novo Plano Diretor Participativo em votação na Câmara Municipal, tamanha importância histórica e cultural desta região, e necessidade de sua conservação, assim como todo Complexo Ferroviário, inclusa também em ZEPAC específica. Vendo hoje é tido que na época já se via o que viria com tamanha estrutura construída sobre a avenida que hoje é a mais fluente da cidade, que se compôs ligando Botucatu ao porto de Santos assim como ao interior. Na segunda metade do século XX, em 1974, mais uma vez a cidade e toda região voltaram seus olhos para o monumento erguido sobre aquela ferrovia e as instalações do clube “Ferroviária”.

O Governador do Estado, Laudo Natel, em Botucatu acompanhado do prefeito Plínio Paganni e do Arcebispo Dom Zioni quebraram a garrafa inaugural do Elevado Bento Natel, nomeado em homenagem ao são manuelino pai do governador. Eram tempos modernos, choviam investimentos externos na década de 70 de Ditadura Civil-Militar, a “década de ouro”, a injeção econômica acontecida nesta fruto do desenvolvimentismo e visava atender aos cidadãos que na época garantiriam a governabilidade dos generais e tropas que marchavam pelo país, uma época dourada marcada pela concentração de riquezas e privilégios atendendo a quem pudesse pagar por carro, combustível, todos recursos preferencialmente importados ou aparentemente americanos ou europeus, enquanto os assalariado e todo modelo social como o transporte ferroviário, mais econômico e já instalado, se sucateava no coração do botucatuense assim como da maioria da população que não se faria presente no palanque de inauguração da faraônica obra.

Visionários acreditavam que o principal seria garantir fluxo dos nobres veículos pela cidade assim como garantir a satisfação total da elite brasileira com benesses claras com contas gordas, estas sim a serem pagas por toda população. Vai século e entra século, temos agora outro aporte a ser feito no município. Tido como uma das cidades com mais veículos per condutores do Brasil, 1 por habitante habilitado, aos visionários de hoje veem como certo uma coisa urgente e necessária: precisam manter-se como visionários. A democracia hoje reina no brasil que não tem mais o imperador como regente, mas sim o povo, e a ele vem a atenção e todo trabalho desde o fim do comando militar.

Primeiro tivemos um Pontilhão imperial, depois o Elevado militar e agora uma ponte para o futuro a ser lançada com a execução do Viaduto a ligar a Zona Leste a Zona Norte da cidade, desafogando o gigantesco fluxo do centro para outra válvula de escape. Mas nisso, hoje temos vários fatores para analisar o investimento pois agora estamos, ou estaríamos, em uma democracia. A obra orçada inicialmente por R$ 12 milhões agrega em si vários pais, mas a principal mãe é a justiça visto que esta seria uma obra concedida através de emenda que custaria o deputado da região marchando ao lado do presidente Temer, enterrando as investigações por corrupção contra seu governo.

Outro fato importante são os vários estudos sobre mobilidade e urbanismo. Não basta termos um veículo por condutor, aparentemente a meta seria termos um veículo por habitante, incluindo crianças e idosos nessa matemática, mesmo após estudos e diversas análises sobre a viabilidade do transporte coletivo eficiente como ferramenta econômica, antipoluente e democrática. A política de mobilidade pode, por um lado, ter o olhar visionário do direito ao transporte e acesso a cidade que deveria ser protegido e incentivado, ou planejar como manter tapetes vermelhos aos que possuam veículos para cortar a cidade. Vai século, vem século e pouco se faz para que saiamos do império e tenhamos definitivamente um governo que atenda ao povo e seja realmente de interesse popular.

Veículos e combustíveis alvo de grave inflação enquanto a condução popular e pública segue à revelia, dada com “boa ação” à população que sai de casa antes e volta depois para assim cumprir seus compromissos nas fábricas e empresas sem garantir pagar suas contas no final do mês; estamos em meio a mudanças climáticas sérias com grande influência das construtoras que comprometem a natureza, e da emissão de poluentes destes veículos, necessários para aquele modelo de transporte do século passado. Agravante a tudo é o descaso com o princípio desta obra, o combate à corrupção foi envenenado por fotos com olhos em um futuro nem tão distante, as urnas de 2018, enquanto impostos sobem, endividamentos crescem, e contas a cada dia mais gordas só se pagam cortando na carne de todo trabalhador. Hoje podemos entender quem defende a volta do Império ou ver honestidade em quem zela pela volta da Ditadura.

Os imperadores seguem seus desmandos e a população segue sem ter como reagir, a corte continua seu jogo de bastidores e interesses além do benefício da população, e os opositores são crucificados como eram pelos generais ou senhores coloniais. Hoje é preciso, assim como antigamente, olhar para os pés, para o chão, para não ter os olhos furarmos com os narizes pontudos que nunca se curvam. Números e estudos, verdades incontestes frente a realidade de desigualdade e falta de acesso a quem não tem renda mas mantém o mercado funcionando do chão de fábrica, Assim como antigamente. Poder, orgulho e verdades são ditas pelos cantos e lançadas ao vento, e as verdades escritas na história, por visionários, ficam, não mudam, podem ser redigidas por quem lá está mas na boca do povo a verdade verdadeira reina absoluta mesmo que dita aos gritos mas abafada pelo rufo dos tambores inaugurais.

Brindemos, mas lutemos!

Só a luta muda a vida.

*Daniel de Carvalho – Presidente do Partido Socialismo e Liberdade – PSoL Botucatu, Conselheiro Municipal de Cultura, Membro da Comissão Municipal de Transporte Coletivo – CMTC, Estudante de direito e empresário.

Leia todos os artigos deste colunista no hotsite “Botucatu Para Todos”.

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