OPINIÃO | Puxão de Orelha!

Para auxiliar esse processo de transformação social, iniciaremos uma sequência de reflexões sobre a gestão das águas no meio urbano

por Patrícia Shimabuku*

A conservação ambiental não deve ser considerada um entrave no progresso econômico e nos projetos de urbanização. É óbvio que qualquer atividade e ocupação pelo ser humano terão consequências no meio ambiente e nos finitos recursos naturais. Também, mais do que óbvio, que a existência e sobrevivência pacífica da humanidade, qualidade de vida e emprego dependem diretamente da disponibilidade destes recursos (em quantidade e qualidade).

A conservação dos finitos recursos naturais, desenvolvimento econômico e processos de urbanização exigem uma gestão formada por diferentes segmentos da sociedade. Exigem uma gestão com olhar técnico social e não uma visão míope simplista que privilegia os lucros, vaidades e interesses de uma minoria (privada e ou pública) sustentada pelas carências (de moradia e emprego) da maioria, que desencadeia de forma crescente as inúmeras desigualdades sociais e a degradações ambientais. O aumento das desigualdades sociais é proporcional ao sentimento de insegurança, intolerância e de ódio. 

“As coisas estão como estão e caminharão para dias piores porque nós somos o combustível para nossa própria extinção”. Nós proporcionamos as “brechas” para todos os tipos de corrupção. Só importamos com o coletivo, quando “esse coletivo” não interfere nos nossos interesses individuais. Só importamos com a natureza, quando “ela” não interfere nos “nossos objetivos”, porque aí, a conservação ambiental torna-se implicância dos ambientalistas. Resumindo, não assumimos as nossas responsabilidades. Somos omissos, hipócritas e contribuímos com a falência política. A insatisfação e as manifestações através de postagens em redes sociais, tem sim, uma contribuição, mas não são o suficiente. Precisamos de ações transformadoras, apartidárias, legítimas com desenvolvimento a longo prazo. A mudança deste cenário (político e econômico) no qual vivemos, começa com a mudança de postura e dedicação voluntária de cada um de nós. Precisamos compartilhar as nossas diferentes inteligências. Precisamos sair da linha do conforto, da aceitação, do comodismo e dos discursos que só são palavras “jogadas ao vento” nada construtivos, cujas intenções são somente criticar e apontar, porém, ação mesmo não existe! A oposição política, quando não envolvida nos processos de corrupção, ou é omissa, ou não é estruturada ou não tem projetos consistentes e compatíveis com a realidade orçamentária.

O primeiro passo para a adequação deste cenário (econômico e político) é buscar conhecer a cidade onde se vive. O sistema e as decisões políticas interferem diretamente na sua vida, desta forma, você precisa começar a entender. Um conhecimento estrutural, através de perguntas simples, como por exemplo: (1) de onde vem a água que sai da torneira da minha casa? (2) para onde vai a água da descarga do meu banheiro? (3) para onde vai o lixo que coloco na lixeira? (4) por que nos dias de chuvas intensas a região da rodoviária alaga? (5) por que em algumas regiões da cidade, como no setor leste – norte, não se pode construir loteamentos? (6) quais as responsabilidades do Prefeito e dos Secretários? (7) quais as responsabilidades dos Vereadores? (8) o que são orçamentos e prioridades públicas? São perguntas, que no primeiro momento, são simples ou irrelevantes, em comparação há tantas prioridades e problemas cotidianos, no entanto, quando todo e qualquer cidadão souber respondê-las, o processo de transformação social estará iniciado. Quando se adquire conhecimento, não se fica refém das situações as quais nos são impostas. Com o entendimento, temos a oportunidade de escolha e decisões mais conscientes e responsáveis. A ignorância conduz ao medo e ao controle social mediado por uma minoria, cujos interesses não são os coletivos, mas sim, financeiros.

Não há incompatibilidades entre o desenvolvimento econômico/urbano versus conservação do meio ambiente. Com tantos estudos, técnicas inovadoras e expertises a urbanização e economia poderão ser os pilares para a recuperação e conservação de áreas degradadas. Basta vontade política, fiscalização e uma sociedade civil empoderada para combater os interesses adquiridos. Qual o custo da conservação ambiental em relação aos custos da recuperação ambiental? De quem é a responsabilidade direta e indireta? Os lucros são particulares, porém, as consequências da degradação ambiental são sentidas no coletivo e não respeita limites fronteiriços e administrativos. O meio ambiente não entende de leis e prazos.

Os indutores econômicos não – locais (seja habitacional, industrial e ou de arranjos produtivos) são essenciais, porém, não podem assumir o papel exploratório como os dos “vikings”. O Poder Público e os órgãos competentes devem assumir o papel de guardião do maior patrimônio, a nossa cidade. Devem mediar as oportunidades econômicas com os interesses sociais e especificidades ambientais locais e, nunca assumir o papel de “facilitador omisso”. Os atores da gestão pública não devem misturar os seus desejos particulares com os compromissos com a cidade que o elegeu. Se isso acontecer, ele deverá deixar o seu cargo, mas para isso, a sociedade deverá estar empoderada sobre os saberes da cidade. Uma sociedade consciente e com conhecimento é o melhor auditor da gestão pública. A gestão pública não visa lucros, visa qualidade de vida de seus munícipes e conservação ambiental. Deverá ser o melhor exemplo de gestão sustentável.

Por fim, fica a seguinte provocação: “quando os projetos econômicos e urbanísticos afetam sociedade, há uma questão legal; quando ele afeta o ambiente, há uma questão ambiental. Essas duas questões se sobrepõem, pois, qualquer coisa que afeta o ambiente sempre afetará sociedade e, consequentemente, a economia local”.

Para auxiliar esse processo de transformação social, iniciaremos uma sequência de reflexões sobre a gestão das águas no meio urbano. As primeiras reflexões serão pautadas na drenagem das águas pluviais e mananciais de abastecimento. Não deixe de ler! Você também é responsável por nossa cidade.

* Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental.

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