A violência dos videogames

A violência dos videogames pode de fato ser um fator que repercute na violência contemporânea. Ou é o contrário?

por Oscar D’Ambrosio*

Videogames violentos realmente estimulam os jovens a serem mais agressivos e darem menos valor à vida? Esta é a grande pergunta do filme “The Gamechangers”, realizado pela BBC para contar a história de dois jogos realizados pela empresa inglesa Rockstar Games; Grand Theft Auto (GTA): Vice City e Grand Theft Auto (GTA): San Andreas, respectivamente de 2002 e 2004.

O diretor Owen Harris opta por concentrar a ação em dois momentos cruciais. No primeiro, relacionado ao jogo GTA: Vice City, que foi um grande êxito, quando era preparada uma nova versão, mais realista e violenta, um jovem negro de 17 anos, viciado no game, atacou e matou policias em uma delegacia em Alabama, EUA.

Um advogado conservador norte-americano, interpretado por Bill Paxton, decide acionar a empresa inglesa por considerar que o game estimulou o jovem a praticar os assassinatos, num processo neurológico de perda de limites entre realidade e ficção. Embora ele tivesse reunido alguns argumentos a seu favor, o processo não avançou pela prática inapropriada do profissional na maneira de conduzir o processo, incluindo e-mails ameaçadores e posturas próximas do fanatismo.

Tudo se complicou, porém, com o lançamento do GTA: San Andres. Após um grande sucesso com a narrativa que se passa em Los Angeles, num ambiente de conflito entre brancos e negros, um jogador e programador holandês encontrou, dentro dos códigos, uma cena de sexo explícito que deveria ter sido retirada do jogo, mas que permanecia escondida para não comprometer a programação do game como um todo.

Isso levou a protestos generalizados, grande pressão e prejuízos, incluindo a necessidade de reclassificar a faixa etária e de retirar o jogo de muitos pontos de venda. Houve novo processo judicial, que resultou em advertência para a empresa britânica e a retirada do direito do advogado norte-americano de atuar profissionalmente.

O ator Daniel Radcliffe, como Sam Houser, um dos fundadores e presidente da Rockstar Games, brilha no papel do perfeccionista obsessivo e imaturo de um jovem que só deseja se divertir, sem se importar com as consequências que seus jogos podem trazer nas mais variadas esferas, da psicológica à criminal.

Sua atuação contribui para a discussão central do filme: a violência dos videogames pode de fato ser um fator que repercute na violência contemporânea. Ou é o contrário: os jogos apenas representam uma situação que já existe? Só por levantar esse tema o filme é imperdível, principalmente para advogados e para quem trabalha na área de comunicação.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.