Bolsonário (II)

Trata-se de um dicionário com verbetes

por Chico Villela*

Esta segunda edição do pequeno dicionário de bolso com palavras e fatos contemporâneos traz seus verbetes centrados num tema: comparações e diferenças entre Stalin e Bolsonaro. Trata-se de um dicionário com verbetes; assim, o leitor pode optar por ler alguns, ler apenas os que lhe interessem ou ler toda a segunda edição. 

Sr S & Mr B

Corre um mote popular no Brasil e vários países em todo o mundo que mostra Mr B como um novo Adolf Hitler. Nada mais falso, embora a identificação seja facilitada pela absoluta estupidez de Mr B se comparada à complexa geopolítica hitlerista.

Hitler, à sua moda, foi um estadista, tinha projeto de país e de construção de um império que resgataria um passado nobre, característica de todos os regimes fascistas: a volta ao passado ‘grandioso’; um país em busca de seu ‘lebensraum’, seu espaço vital. O slogan do neofascista Trump deixa claro: Make America Great Again: a chave está no ‘again’, de novo.

O projeto da gangue de Mr B é recolonizar o país, vender seu patrimônio público conquistado em décadas, alienar a economia nacional, reduzir ou eliminar direitos humanos e sociais adquiridos, perseguir minorias, destruir a capacidade de independência e pesquisa de universidades e instituições públicas, estimular a invasão de áreas indígenas e de proteção ambiental, ocupar as instalações de Alcântara com tropas e técnicos dos EUA; a lista é conhecida e não tem fim. Nada mais afastado de identidades com o nazismo.  

Há no entanto alguns pontos em comum entre os criminosos nazistas e seus similares nacionais (não que não tenham sido levados a peito por Sr S). O mais óbvio é a institucionalização da mentira e da falsificação, nos moldes previstos pelo pensador George Orwell em seu antecipatório ensaio 1984, impropriamente chamado romance. 

Lá, nas mãos de Goebbels, ministro da Propaganda; aqui, nas patas de um exército bolsonarista produtor de fake news que se vale do fato de os bancos de dados serem hoje o mais rentável negócio do capitalismo. Eles têm financiadores: 5 dos 200 bilionários brasileiros financiam Bolsonaro.

Outra aproximação possível é a homofobia. Hitler perseguiu e assassinou judeus, homossexuais, comunistas e ciganos. As tropas civis e policiais de Mr B dedicam-se a eliminar jovens negros, líderes populares e políticos, homossexuais, líderes camponeses e indígenas, e o vasto espectro social LGBT. As aproximações param aí. 

Apesar da imagem de monstro e perverso, Hitler era gentil e educado na intimidade. Como Sr S que, quando queria e lhe interessava, era charmoso. Ele sabia. Além de mais, Hitler escreveu um livro que até hoje encontra leitores e seguidores, coisa que Mr B jamais fará, já que nunca sequer leu um, a não ser talvez algum manual de tiro para recrutas na sua curta vida de militar até tenente. 

A trajetória errática e as atitudes de Mr B guardam imensas ressonâncias com as de Iussuf Visariónovitch Djugashivili, que passou à história  ocidental como Josef Stalin, aqui Sr S. Também os governos militares e o de Mr B encontram ecos fortes no longo reinado de Sr S, o ‘czar vermelho’. 

Bukharin e Juscelino – Antes de expor as semelhanças entre Sr S e Mr B, e algumas diferenças notáveis, é bom destacar dois personagens que guardaram também relevantes similaridades com suas personalidades e suas vidas políticas: Nicolai Ivanovitch Bukharin e Juscelino Kubitschek de Oliveira.

O socialismo com Bukharin teria dado nova feição humanista à URSS. O chamado “regime comunista” teria tido outros caminhos se, ao invés de Sr S, Bukharin tivesse ascendido e se firmado nas altas funções do partido e do governo. Bukharin chegou a formar um breve duunvirato com Sr S na segunda metade da década de 1920. 

Bukharin era amigo de Lenin, o fundador do partido e primeiro chefe de governo após a revolução em 1917. Com Lenin tinha embates doutrinários  memoráveis, já que ambos eram os mais profundos teóricos do pensamento marxista na intelectualidade européia. Bukharin era escritor, filósofo e economista, professor universitário, jornalista, orador, caricaturista e muitos etcéteras. Era adorado pelos alunos por suas posições críticas e agudas.

Mas o que mais o aproxima de Juscelino é sua personalidade. Uma descrição da época: “De rosto franco, testa ampla e brilhantes olhos claros, parecia quase sem idade, em sua sinceridade tranquila. Atraente para as mulheres, jeitoso com as crianças, à vontade entre operários e entre intelectuais, Bukharin era uma pessoa simpática até para seus adversários políticos. Todos aqueles que o conheceram impressionaram-se com seu entusiasmo juvenil, sua sociabilidade e seu senso de humor, que mais tarde o fariam ser visto como o ‘caçula’ da oligarquia, o ‘predileto do partido’, como o chamou Lenin. Seus conhecidos sempre o descreveram como amável, gentil, expansivo e encantador”. Era miúdo, pouco mais de 1,50 m.

Como Juscelino, Bukharin era risonho, brincalhão, alegre, mas sempre profundo e sério. Sua definição do poder de Sr S é antológica. Sr S foi acumulando poder como secretário geral do partido. A equação é perversa: em resumo, para chegar ao mítico e utópico comunismo, sem Estado, era preciso ao socialismo passar pela ditadura do proletariado e eliminar a burguesia, os proprietários de terras e agentes de impérios. Aos poucos a ditadura do proletariado transformou-se em ditadura do partido. E aos poucos o partido tornou-se o partido-feudo de Sr S. Na linguagem de hoje, Sr S aparelhou todo o partido. Bukharin sintetizou: a história da humanidade tem três períodos: matriarcado, patriarcado e secretariado. 

Assim que assumiu o poder, Juscelino iniciou seu período de governo com um gesto de grandeza: anistiou uns milicos desorientados da Aeronáutica que tentaram se opor à posse a partir de duas unidades de Aragarças e Jacareacanga, PA. O mesmo sentimento de Bukharin: compreensão e perdão, caminhos novos para o futuro. Nem todos são inimigos. A concepção de Brasília é obra de um socialista, o urbanista Lúcio Costa. A sua revolucionária arquitetura veio do gênio de um comunista, Oscar Niemeyer. Mais uma visão da alma generosa de Juscelino.  

Juscelino apreciava música e arte e gostava de dançar. Bukharin juntava uma gigantesca coleção de pássaros e borboletas, com exemplares que ganhava de líderes de todo o mundo, que mal couberam nos porões do Kremlin na época em que lá morou. 

Lenin fala de Sr S Os últimos textos de Lenin, conhecidos como “testamento”, citam bastante a grosseria e a brutalidade de Sr S. Um ano antes de morrer (em 1924), registrou que Sr S era”muito grosseiro” para assumir poderes e pediu sua substituição do cargo de secretário geral. Alguns adjetivos circulavam: “burro, inculto, preconceituoso, pró-assassinatos, antiminorias”. Trata-se de Sr S ou de Mr B, o leitor escolhe. Pode escolher os dois.

Aspas para Lenin: Sr S “é grosseiro demais. Por isso proponho que os camaradas busquem uma forma de tirá-lo desse cargo, designando alguém que sob todos os aspectos seja diferente do camarada Stalin e superior a ele, alguém mais tolerante, mais leal, mais educado, que tenha mais consideração pelos camaradas, seja menos arbitrário […]”.

Ódio às minorias – Aspas para Mr B, 1998: “Pena que a cavalaria brasileira não tenha sido tão eficiente quanto a americana que exterminou os índios”. 2015: “Os índios não falam nossa língua, não têm dinheiro, não têm cultura. São povos nativos. Como eles conseguem ter 13% do território nacional?” 2019: “Em 2019 vamos desmarcar a reserva indígena Raposa Serra do Sol. Vamos dar fuzil e armas a todos os fazendeiros”. 

Mr B odeia nordestinos, como já afirmou tantas vezes, chamando todos de “paraíbas” e ignorando a tragédia social e econômica do óleo espalhado pelas praias. Mr B odeia comunistas, socialistas, petistas, negros mulatos e caboclos,  homossexuais, marxistas, esquerdistas, artistas, músicos, cientistas, pesquisadores, pensadores, críticos, jornalistas; o leitor pode continuar a lista à vontade. Mulheres, claro! E pobres!

Sr S tinha ódio a todas as minorias da Rússia e dos países incorporados à URSS. Às centenas de milhares, foram deportados chechênios, ingushes, balkares, karachays, tártaros, kalmiks, turcomenos e outras etnias. Mais de 100 mil soldados foram empregados para deportar adultos e velhos, mulheres e crianças. Foram deportados 170 mil coreanos. E também búlgaros, macedônios, poloneses, alemães, curdos, gregos, finlandeses, estonianos, iranianos, letões, chineses, romenos. Mas não os devolvia a seus países e regiões de origem: os sobreviventes da fome e das viagens de trem, como gado, eram internados em campos de concentração e trabalho escravo em territórios do leste e na Sibéria.

Doenças, esquizofrenia e paranoia – O ódio às minorias iguala Sr S e Mr B, mas ainda mais aproximam esses dois odiosos governantes as mesmas patologias psicológicas. Deve-se considerar que o processo atual de psicologização da política e de seus atores, como explicação para suas aberrações, favorece o obscurecimento da ética. Mas, como a ética desapareceu hoje do universo político internacional, o comentário deixa de significar. 

Sr S teve dois grandes carniceiros: Lavrenti Beria e Nicolai Ivanovitch Iejov, ironicamente xará de Bukharin. Mas não eram únicos, claro, como não foi único o tal Brilhante Ustra, ídolo de Mr B, apoiado por centenas de doentes, criminosos e assassinos acobertados na vergonhosa instituição dos porões da vida militar e policial brasileira, até hoje impunes.

 Sr. S assassinou mais de 25 milhões de pessoas. Nas minhas contas amadoras, foi o maior assassino da história. Não conto os mais de 20 milhões de mortos na II guerra, muitos por responsa de Hitler. A viúva de Bukharin, fuzilado em 1938, definiu Sr S numa frase, ao explicar que podia amar e odiar a mesma pessoa: “porque amor e ódio nascidos da inveja […] lutam um contra o outro no mesmo peito”. 

Assim como Sr S eliminou todos os seus aliados ao largo do seu reinado, Mr B vem de romper com seus aliados com impressionante rapidez. Alguns alegam que querem “destruir” Mr B. O ódio é o discurso predileto de Mr B e de todos os seus fiéis. 

O ódio paranóico de Mr B em nada difere do ódio paranóico de Sr S. Ambos desconhecem o alerta de Napoleão, ao observar que tudo tem um limite, até o ódio. Quando se ultrapassa o limite, algo se perde, seja a verdade, a razão ou a tranquilidade. Sr S e Mr B partilham também o horror à realidade. 

Horror à realidade – Mr B alimenta ódios à verdade e à realidade; vem de acirrada perseguição a instituições que medem os valores reais do país. São graves as ameaças ao conhecimento de dados e fatos e ao reconhecimento internacional da sabedoria desssas entidades de notória competência. 

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe, acha-se sob ameaça de destruição e cancelamento de seu trabalho técnico, para horror de parceiros de todo o mundo. Razão: revelação de dados reais sobre desmatamento da Amazônia e outras regiões. 

O ancestral Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, ao revelar dados sobre o escandaloso desemprego dos trabalhadores, tornou-se alvo do obscurantismo direto de Mr B (sinônimos: estupidez, imbecilidade, medo, pavor à verdade, criação de “verdades” falsas).

A respeitável Fundação Instituto Oswaldo Cruz, Fiocruz, lançou estudo profundo sobre drogas. Mas o tema é privilégio de grandes traficantes e dos milicianos aliados de Mr B. Vem sendo alvo de represálias, cortes de verbas, etc.

A Agência Nacional de Cinema, Ancine, financiadora da cultura fílmica e audiovisual com respeito mundial, vem sendo submetida a um cabresto ideológico que faz jus aos jumentos nomeados por Mr B que a dirigem. Seu atual diretor foi o autor dos ataques indignos à nossa atriz maior Fernanda Montenegro.

E nesse universo de horrores inclui-se imprensa, portais e blogs de esquerda, cursos e programas em universidades, entidades científicas e populares, uma miríade de agentes que criam e refletem sobre a cultura nacional. Para Mr B, tudo que se afaste de Pato Donald e bangbangs é proibido.

Os acontecimentos envolvidos no vazamento do petróleo que inunda as praias do Nordeste e retirou os meios de trabalho de centenas de milhares de pescadores, marisqueiros, faiscadores de corais, e outros que vivem da coleta de frutos do mar propiciaram um festival bizarro de mentiras e estupidez de fazer corar profetas de pedra. 

De início o governo de Mr B acusou a Venezuela, sem perceber que o primeiro estado a receber o lixo tóxico foi o Rio Grande do Norte, que fica muito longe da Venezuela. Depois culpou a esquerda. Não colou. Então acusou o Greenpeace e seu navio. Passados 41 dias sem qualquer iniciativa do governo, surgiu a vítima perfeita, um navio grego que teria derramado o óleo. 

O sistema eletrônico de análise e monitoramento por satélites LAPIS, da Universidade Federal de Alagoas, mostrou a solução: uma imensa fenda no leito do mar em meia-lua de cerca de 15 km com metros de largura que vazou e vai continuar a vazar. A análise já  havia sido feita por engenheiros da Petrobrás que apontaram a origem: uma técnica não aconselhada pela empresa, usada pela Chevron e associadas no campo recém-roubado de Tupy, para aumentar a vazão. Mas isso Mr B jamais irá reconhecer: tem horror à realidade

Tanto quanto seu ministro da Pesca que descobriu nos peixes inteligência suficiente para fugir das manchas de óleo. Isso antes de apelar à população para que coma peixe contaminado também com metais pesados e outras anomalias. O que pode tornar as praias do NE vazias e inóspitas. Além de irresponsável, é criminoso.

Sr. S era mais fino e inteligente. Ou censurava com bilhetes (e todos os destinatários tremiam de medo das prisões, torturas e mortes sob qualquer pretexto) ou exterminava grupos e companhias. Em casos mais candentes e políticos, criava realidades e fatos falsos que incriminavam os oponentes. Mas neste caso o regime militar 1964-85 que Mr B admira também operou prodígios. A fabricação do inimigo ocorreu tanto aqui quanto lá, sob a censura aos meios, a mentira criada, o assassinato sob razões falsas, os comunicados lidos em rede nacional por fardados de óculos escuros. 

Carta de Lenin a Bukharin: “Se descartarmos todas as pessoas inteligentes, ainda que não muito obedientes, e mantivermos apenas os tolos que sempre obedecem, com absoluta certeza destruiremos o partido”. No caso de Mr B o final seria “destruiremos o país”. 

O congelamento de conceitos – Sr S tornou-se mestre em eliminar os velhos companheiros que se opunham ainda que levemente aos seus dogmas e invenções. Ocorre que Sr S, tanto quanto Mr B e seu guru Olavo de Car(v)alho, nunca compreenderam  o marxismo. 

De Mr B e sua gangue não há muito a dizer. O “conceito” básico dos luminares da ignorância risível e ridícula do governo é o “marxismo cultural”. Penso que nem Sr. S saberia conceituar tal ignomínia. 

As obsessões de Mr B com ideologia, arte e educação implicam a aplicação de princípios congelados e falsificados a pessoas e instituições. O ódio de Mr B e  seus asseclas ao educador Paulo Freire, internacionalmente celebrado, expõe ao mundo a grosseira obtusidade de suas concepções. 

Também nesse tema as aproximações com Sr S são notáveis. Sr. S foi o impulsionador da tendência chamada “realismo socialista” na ficção. Já existia quanto à história: não seria mais o que os arquivos registravam, mas o que o partido decretava. A partir de então a arte tinha a função de celebrar a revolução e seus líderes e engrossar o coro do culto à personalidade de Sr S.

Sr S necessitava de razões para justificar suas absurdas perseguições e eliminações de “inimigos” e alterações da doutrina. Para tanto, congelou o conceito-chave de “luta de classes”. A luta então operava contra tudo e contra todos: professores, teóricos, pesquisadores, proprietários, estudiosos, ‘imperialistas’, discordantes, divergentes, políticos, militares, quem quer que expressasse algo que contrariasse o ‘diktat’ do chefe supremo.

Pensadores como Bukharin consideravam o marxismo, “não apenas como ideologia do partido-Estado, mas como um sistema de ideias vivas […] Quando esse tipo de marxista deixou de existir — politicamente em fins dos anos 1920 e fisicamente nos anos 1930, durante os expurgos de Sr S — resolveu-se na URSS a tensão entre ideologia e ciência social que havia caracterizado o marxismo desde o início. E resolveu-se a favor da ideologia. Depois disso, o espírito de busca estaria ausente durante muitos anos do marxismo soviético”. Não há diferença alguma entre Sr S e Mr B com relação a esses temas. Ambos são a encarnação de pensamentos totalitários. 

O império é atualmente a expressão do chamado ‘totalitarismo invertido’, conceito de autoria de Sheldon Wolin, cientista político falecido há quatro anos, aos 93. “Não é possível apontar para qualquer instituição nacional que possa ser descrita com precisão como democrática […] certamente não nas eleições altamente gerenciadas e saturadas de dinheiro, no Congresso infestado por lobistas, na presidência imperial, no sistema judicial e penal classista e, muito menos, na mídia”. “Ao contrário dos nazistas, que tornaram a vida incerta para os ricos e privilegiados, que proporcionaram programas sociais para a classe trabalhadora e os pobres, o totalitarismo invertido explora os pobres, reduzindo ou enfraquecendo os programas de saúde e os serviços sociais, regrando a educação para formar uma força de trabalho insegura, sempre ameaçada pela importação de trabalhadores de baixa remuneração”. A subordinação da política aos ditames das corporações extinguiu o que restava de democracia. 

É uma  descrição do império ou do Brasil de Mr B?

A tragédia do congelamento – O exemplo mais terrível dessa obsessão foi a coletivização forçada da agropecuária pós-revolução, entre 1929 e 1933. Sr S pretendia industrializar rapidamente a Rússia e a URSS, mundos agrários, mas não dispunha de opções. Já na revolução e na guerra civil que se seguiu a maioria dos grandes proprietários fora eliminada, fuzilada ou internada em campos de trabalhos escravos. Restaram os milhões de pequenos proprietários e trabalhadores rurais, muitos donos de poucas cabeças de alimária e de terras. Sr S precisava financiar a produção industrial de base e de bens e a modernização da agricultura mas não dispunha de recursos, dado que os poderes financeiros internacionais jamais estenderiam a mão ao, este sim, inimigo.

Contra a opinião de Bukharin, Sr S concebeu o projeto de fazendas coletivas sob controle do Estado, em que os proprietários seriam absorvidos em comunidades, sem seus ‘bens e luxos’. Mas uma exigência do projeto era que parte da produção fosse entregue ao governo para alimentar as populações urbanas. A partir de 1929 Bukharin foi despojado da maioria das suas atribuições no governo e no partido.

Como as massas camponesas não manifestassem grandes pendores para esta solução, Sr S organizou bandos de membros do partido e apoio militar para exigir parte da produção, que passou a ser confiscada. Em pouco tempo os levantes contavam-se aos milhares, e as mortes, aos milhões. A oposição que o uso da força enfrentou foi solucionada por Sr S de três formas: fuzilar os oponentes, deportar centenas de milhares e sujeitar as populações rurais pela fome. 

Sr S: “Todo aquele que não ingressar nas fazendas coletivas é um inimigo do partido”. Ou seja, sujeito a fuzilamento sumário. Contam-se entre 1929 e 1933 cerca de 10 milhões de mortos, a metade pela fome imposta aos camponeses durante as safras mínimas  de 1932-33, época em que Sr S vetou a entrega de volta dos alimentos confiscados. Nessa época o império de terror instalado por Sr S provocou intensa guerra civil entre o Estado e as populações rurais que, além de resistir, queimavam culturas, matavam animais e abandonavam as terras. Até 1934 já haviam morrido mais da metade dos cavalos, 70 milhões de reses, 26 milhões de porcos, dois terços dos rebanhos ovino e caprino, 100 milhões de cabeças. Vinte e cinco anos depois os rebanhos ainda não haviam voltado aos níveis de 1928.

A oposição de Bukharin à forma brutal de coletivização forçada de Sr S foi o primeiro abismo aberto entre os dois líderes, agravado pelo suicídio de Nadezhda, a Nádia, esposa de Sr S, contrária à coletivização e amiga íntima de Bukharin. Sr S nunca se recuperou do gesto de Nadezhda, que considerou “uma afronta contra si mesmo”. O fato ilustra à perfeição a dificuldade de Sr S de considerar os seres humanos como autônomos. 

Valores absolutos – O conluio entre as operações criminosas da Lava Jato, as privatizações fraudulentas de Guedes, a eliminação de direitos adquiridos e as políticas destrutivas de Mr B vêm causando imensa devastação no país. Tendo saído durante o primeiro governo Lula, o Brasil voltou ao mapa da fome da ONU este ano. Sr S calou-se sobre a fome que provocou, atribuindo as mortes e sofrimentos a excessos de membros do partido. Em recente entrevista a jornalistas estrangeiros, Mr B declarou que não há fome no Brasil.

Bukharin era favorável a uma transição pacífica em  que elementos de capitalismo e de mercado, presentes na maioria das propriedades agrícolas,  fossem aos poucos superados com avanço do socialismo. Moderação que Mr B e os neocons de hoje não respeitam: basta ver o estado dos povos de Chile, Argentina, Bolívia, Brasil, Equador, Líbano, Peru, Egito e outros. Mr B não consegue ver essas realidades; Guedes repete aqui várias medidas aplicadas ao Chile desde o odioso Pinochet. Pobres bestas: agem como Sr S.

Tanto para Sr S quanto para Mr B alguns conceitos têm valor absoluto. Para Sr S, como se viu, a luta de classes; para Mr B, o combate à ‘esquerda’. A cada dia Mr B arma seu saco de maldades contra a ‘esquerda’ e, agora, contra Lula. O inefável general Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, GSI, já declarou que as forças da’ ordem’, i. é, repressão policial e militar, sairão às ruas se o Brasil repetir os distúrbios do Chile. Na sua ignorância (ou obsessão fingida) o governo não percebe que a revivescência das medidas perversas tornará inevitável que em breve o povo saia às ruas em protestos. O general fala em monitoramento de movimentos indígenas e sociais, que apenas exigem liberdade e independência: não percebe que tem de monitorar, sim, mas as milícias unidas a Mr B.

Crimes e provas – Da mesma forma que na ditadura militar de 1964-1985 e nas operações fraudulentas da Lava Jato, o regime de Sr S, que prendia e com frequência assassinava todos os “contrários”, arrancava confissões falsas de milhares de presos sob acusações vagas como “sabotagem, conspiração contra o Estado, traição, desvios direitistas, espionagem, oportunismo” e outras menos votadas. 

A diferença reside na magnitude, não na essência. Em 1928 havia 30 mil pessoas nos campos de concentração e trabalho escravo; em 1933-35 havia 5 milhões; em fins de 1939 eram 9 milhões. Mr B já deixou claro que defende o trabalho escravo nos latifúndios do país; dissolveu os grupos governamentais de identificação e combate. As condições precárias e desumanas em que vive essa mão de obra escrava em nada diferem das condições dos campos de Sr S. 

A Lava Jato destruiu a indústria de construção pesada do país, que respondia por 3% de todo o movimento mundial. O programa do submarino nuclear foi praticamente extinto por Mr B. A Embraer desapareceu nas mandíbulas da quase falida Boeing. A Petrobrás vai sendo dissolvida aos poucos. 

Aqui há uma diferença notável. Sr S dizimou as elites econômicas, culturais, políticas, militares, intelectuais em nome da construção do país sem “inimigos”. Mr B e seu governo vêm destruindo o país e perseguindo essas mesmas elites de “inimigos” em nome da destruição do país e sua entrega ao império trumpista decadente atual. 

À maneira do longo regime de terror de Sr S, a Lava Jato forjou e forja confissões variadas, entre elas as que condenaram Lula sem provas. Em 1940 Sr S passou a ser o único membro vivo do grupo original da revolução de 1917 — todos os outros haviam sido eliminados por doença, como Lenin,  mortos sob tortura ou fuzilados a seu mando. O boquirroto Mr B vive falando em “eliminar a petralhada”, “matar trinta mil”. Como se viu, morrem a toda hora lideranças negras e camponesas e indígenas e homossexuais, com mandantes sempre impunes.

Os três porquinhos – Mr B tem três ‘fiéis escudeiros’: seus filhotes incultos, chamados de 1, 2 e 3, arrogantes, ignorantes de tudo, fritadores de hambúrguers (assados em todo o mundo) e fabricantes de fake news. Os quatro têm características comuns: vivem cercados de bandidos, milicianos, ratos do dinheiro público, assassinos de aluguel, exploradores de comunidades pobres, e essas amenidades que os acompanham desde que o papai tenente foi expulso do exército por indisciplina.

Sr S foi acompanhado durante sua longa vida política por esses tipos de criminosos. Tinha torturadores profissionais e assassinos de massas a seu serviço, exércitos de puxa-sacos,  mas apenas três ‘fiéis escudeiros’, obedientes e executores das mais improváveis ordens e que conviviam diariamente com o Vojd, o Chefe: Mólotov, Kaganóvitch e Voroshílov. Muitos outros passaram tempos pelas suas dachas, casas de campo luxuosas: Mikoian, Kírov, Béria, Yejov, Khrushev (que denunciou os crimes de Sr S em 1953 mas omitiu os inumeráveis crimes por ele próprio cometidos), Jdánov, Malenkov. Alguns desses outros foram fuzilados por Sr S.

Os três porquinhos de Sr S eram cães fiéis que suportavam tudo para demonstrar sua fidelidade canina ao chefe. O auge da sabujice foi atingido por Mólotov, responsável pelo pacto Mólotov-Ribbentrop de 1939 de trégua com a Alemanha até meados de 1941, desde que Sr S mandou prender, sem qualquer razão, sua bela esposa Polina, fundadora e dirigente da indústria de perfumes soviética. Mólotov continuou ao lado do maquiavélico Sr S sem manifestar desagrado. 

Esses caminhos vêm sendo trilhados por Mr B que, em menos de um ano de governo, vê seus amigos de campanha em campos opostos e ruidosos. O ex-coordenador da campanha Bebbiano, o general e ex-ministro Santa Cruz, o ex-ator pornô Alexandre Frota, a ex-líder do governo Joice Hasselman, o ex-líder do governo Delegado, o autor do jogo sujo que retirou Lula da campanha na qual seria eleito no primeiro turno Sérgio Moro, indigno ministro da Justiça, e vários outros que vão sendo abandonados pelo caminho, como fez Sr S durante a sua longa ditadura. Mas os três porquinhos de Mr B permanecem no poder. 

Eu quero é ser militar – Esse grito de guerra de Mr B já foi expressado muitas vezes, sempre com o complemento de que o autor não sabe ser presidente, fato que todos reconhecem. Ocorre que ele nunca foi milico de carreira; foi expulso no seu início, como tenente. Essa dor de cotovelo Mr B partilha com Sr S. Com uma diferença: Sr S quase compromete a URSS nos primeiros tempos da II guerra contra os nazistas, com sua insistência em ignorar os alertas de concentração de tropas nas fronteiras, necessidades de defesa em alguns pontos. Sr S não acreditava que os nazistas atacariam a URSS; afinal, havia um pacto de não-agressão. Tudo isso foi agravado por sua empáfia de querer comandar as ações militares sem conhecimentos táticos e estratégicos. Os nazistas por pouco não tomaram Moscou.

Além disso tudo, Sr S realizava frequentes expurgos de oficiais após cada derrota, na paranóia de encontrar culpados para a ineficiência de suas tropas e seu armamento desatualizado. Em fins de 1938 Voroshílov, marechal, um dos três porquinhos, gabou-se de que 40 mil oficiais haviam sido presos; 3 dos 5  marechais, 15 dos 16 comandantes de grandes unidades e todos os 17 comissários foram fuzilados.  

Uma cena antológica mostra com crueza as consequências dos expurgos nas forças armadas a mando de Sr S. Antes da II guerra, a URSS quase soçobrou frente à fraquíssima Finlândia, que perdeu 48 mil soldados; a URSS perdeu 125 mil. Sr S num jantar começou a gritar com Voroshílov, que também respondeu aos berros: “Você é o culpado de tudo isso. Foi você que aniquilou a velha guarda de nosso exército, mandou matar nossos melhores generais”. Sr S repeliu-o asperamente. Voroshílov pegou um prato de leitão assado e o quebrou sobre a mesa. Khruchev, que assistiu à cena, comentou que só mesmo Voroshílov podia fazer isso sem medo de ser preso, torturado e fuzilado. Mr B, que elimina com avidez apoiadores e os transforma em inimigos, precisa prestar atenção a esses fatos da vida do seu ditador-espelho.

Mr B mantém até hoje sua postura de subserviência aos militares. Dos 22 ministros, 8 são militares. Há 2 500 militares em cargos de chefia ou assessoria. A vice-presidência abriga 65. O ministério ganho no jogo sujo por Moro tem 28 militares. Mas o recorde é do Gabinete de Segurança Institucional, com 1 061 militares. Fácil de entender: com um partido sem quadros e sem relações políticas relevantes, Mr B recorre à sua obsessão. Pode ser engolido a qualquer momento por esses ‘aliados’.

O poder do exemplo – A extrema-direita plantada em alguns países e governos — Hungria, Itália, Inglaterra, Polônia, Israel etc. — vem sendo ameaçada  pela identificação de Mr B com o que há de mais repelente na política. Liana Cirne, profa. da Faculdade de Direito da UFPE, expõe o fenômeno. Aspas: “Bolsonaro é a caricatura, exagerada, patética e monstruosa, dos políticos caricatos da extrema-direita no mundo todo”. Após apontar as monstruosidades e ridicularias que desencantam os europeus, sintetiza com elegância: “Bolsonaro é o retrato de Dorian Gray — ignóbil, perverso, bufão, imbecil e incompetente”. E coroa: “Bolsonaro se tornou um garoto-propaganda às avessas. Um Midas coprólogo que tudo o que toca vira  — perdoem a vulgaridade da expressão da linguagem presidencialista — merda”. 

A grande mídia internacional já não economiza seus ‘adjetivos’ sobre a infausta figura. O Die Press austríaco manchetou: “O Brasil elegeu um idiota”. O New York  Times, tão alinhado a desmandos e horrores, também manchetou: “Bolsonaro é o menor e mais mesquinho dos dirigentes políticos do mundo”. A imprensa espanhola elegeu Mr B como “O imbecil do ano”. O arquiteto da extrema-direita internacional Steve Bannon, que elegeu Trump com métodos depois aplicados no Brasil, anda furioso com seu pupilo. E por aí vai.

Afinal, nem papai Trump quer ver Mr B. Na maior parte da Europa Mr B é conhecido como troglodita. Victor Orban perdeu as eleições para a prefeitura de Budapeste. Salvini foi expelido do governo italiano. Macri soçobrou já no primeiro turno das eleições argentinas. 

Nada mais semelhante ao estrago que Sr S fez com a idéia de socialismo no mundo. O socialismo de Bukharin era inclusivo, pacífico, capaz de conviver com as tendências de oposição e aos poucos, com suas realizações, superar os concorrentes e mostrar ao mundo e às classes trabalhadoras o poder de felicidade que o novo sistema poderia induzir. 

Os horrores de Sr S,  com seu domínio de décadas sobre as políticas e as vidas de seus cidadãos, afastaram dezenas de países e intelectuais da idéia. Os países da Europa oriental só caíram sob controle da URSS em razão da derrota do nazismo. Sr S ocupou rapidamente esses países nos atos finais da guerra e eliminou todas as dissidências, transformando-os em ditaduras repressivas. 

Sr S foi o coveiro da grandiosa concepção do socialismo. Mr B é o coveiro da atual concepção da extrema-direita, cujo projeto é manter o imperialismo e sujeitar as massas à situação de pior escravidão. Bukharin defendia a convivência dos contrários. Sr S era pelo extermínio dos contrários. Com quem será que Mr B se parece? 

 Grosserias e obsessões – Nada mais se espera de antológicos grosseiros como Sr S e Mr B. A exclamação “porra!” já se tornou marca registrada pública de Mr B. Mas Sr S não ficava a dever. Como se viu, apesar dos alertas de espiões e diplomatas, Sr S até o início dos ataques alemães duvidava de que Hitler atacaria a URSS. O trecho a seguir ilustra à perfeição o fato. 

“No dia 16 Merkúlov confirmou a decisão final de atacar, notícia que veio do agente ‘Starshina’, do quartel general da Luftwaffe” [força aérea nazista]. Sr S: “Diga à ‘fonte’ no comando da Força Aérea que vá para a puta que o pariu. Isto não é uma fonte, é um desinformante”. A história não registra palavrões de Bukharin ou de Juscelino. 

Perante a avassaladora progressão das tropas alemãs e o despreparo das soviéticas, Sr S explodiu: “Tudo está perdido. Eu desisto. Lenin fundou nosso Estado e nós fodemos com tudo. Lenin nos deixou uma grande herança e nós, seus sucessores, cagamos tudo. Nós fodemos com tudo”.

Ao fim da guerra, os eternos puxa-sacos resolveram outorgar a Sr S o título de generalíssimo; os outros todos ele já tinha, bem como todas as medalhas. Chamaram então o alfaiate da elite, que criou uma “extravagância dourada com uma capa curta de ouro e vestiu três oficiais com o traje”. Sr S reclamou: “Quem são estes? O que esse pavão está fazendo aqui?” Após as explicações de que eram amostras do traje de generalíssimo: “Não estão certas para mim. Preciso de alguma coisa mais modesta. Vocês querem que eu pareça um porteiro?” Tinha razão. 

Otto Lara Rezende, imortal, não por ser membro da ABL, mas por seu talento e verve, conta uma história que Mr B deveria ouvir, lida por algum assessor, claro. Ao sair de seu ap para uma sessão da ABL, resolveu ir com o ridículo fardão, todo engalanado. Poucos andares abaixo o elevador parou e entrou um militar com montes de condecorações, talvez para uma cerimônia tão vácua quanto as reuniões da ABL. Otto suspirou aliviado quando o elevador chegou à garagem: “Eu estava aflito na descida com receio de que entrasse no elevador um porteiro de boate”. 

Quem viu a foto de Mr B em sua recente visita ao Japão, com faixa e traje repleto de medalhas que ele próprio se concedeu, certamente teve a visão do porteiro tão temida tanto por Otto quanto por Sr S.

Salada mista

Bomba nuclear – Assim que os EUA jogaram as bombas nucleares sobre Hiroxima e Nagasaki, ao fim da II guerra, para demonstrar sua superioridade à URSS, já que o Japão estava rendido, Sr S mobilizou seus asseclas para a construção da bomba soviética. O encarregado da obra foi o carniceiro-mór Béria, que comandava a polícia política, a prisão e fuzilamento dos “inimigos” e os vastos campos de concentração e trabalho escravo, os gulags. A razão mais relevante era que milhares de pesquisadores e professores do ramo eram “hóspedes”dos gulags de Béria. Em 1949 testaram com êxito a primeira bomba nuclear da URSS. Sr S agora estava em paridade com os gringos. 

Mr B entregou Alcântara aos gringos sem se preocupar com os 2 mil quilombolas que habitam os arredores da base e que serão com certeza afastados. Alguém ouviu algum brigadeiro protestando? Não bastasse, imobilizou o programa nuclear brasileiro e o desenvolvimento do submarino nuclear a cargo da Marinha. Alguém viu algum almirante protestando? Estivessem na URSS à época, seriam fuzilados. Sr S buscava seu alvo. Mr B também busca o seu: obediência ao mando do império, para quem o Brasil não pode ter programa nuclear. 

Política de Estado – No Brasil dos militares a tortura foi elevada a política de Estado. Sempre esteve presente na vida nacional. Escravos eram sujeitos a toda sorte de variedades de tortura. Os proprietários tinham inclusive poder de vida e morte sobre os “seus” escravos, sem qualquer intereferência da “justiça”. Presos comuns sempre foram torturados nas cadeias e prisões nacionais. Mr B defende a tortura tanto quanto elogia o algoz-mór Brilhante Ustra. Sr S tinha seu vasto gulag e a terrível prisão moscovita Lubianka, equivalentes aos doi-codi das forças armadas, com seus centros clandestinos de tortura e morte, e aos dops estaduais.

Algumas aspas para Sr S: “Bater, bater!” “Está na hora de espremer esse cavalheiro e forçá-lo a contar sobre seu pequeno negócio sujo. Onde ele está — numa prisão ou num hotel?” “Muitos dos prisioneiros eram tão espancados que seus olhos literalmente saltavam das órbitas”, escreveu um historiador. “Costumavam ser espancados até a morte, cuja causa era registrada como ataque do coração”. “Béria distinguiu-se por executar pessoalmente a tortura da família de Lakoba, levando sua viúva à loucura ao colocar uma serpente em sua cela e espancar até a morte seus filhos adolescentes”. O ídolo de Mr B foi denunciado há pouco por uma ex-militante de ter sido torturada pessoalmente pelo ídolo na presença de seu filho pequeno.

Gurus – Os russos do império tiveram seu Rasputin, demente, bêbado, devasso, violento, erotômano, místico, brilhante. Mr B tem Olavo de Car(v)alho. 

Admiração – Mr B admira Trump, que o esnoba e humilha. Sr S admirou Hitler ao menos uma vez. Em 30 de junho de 1933, “Adolf Hitler, recém-eleito chanceler dos alemães, trucidou seus inimigos dentro do Partido Nazista, naquilo que ficou conhecido como a Noite dos Longos Punhais — um feito que fascinou Stalin”. Aspas para Sr S: “Que sujeito esse Hitler! Esplêndido! Essa é uma façanha que exige muita habilidade!” 

Educação – A expansão da educação superior sempre foi um dos trunfos dos bolcheviques. A destruição da educação universitária brasileira vem sendo levada à frente por Mr B. Não por acaso a irmã de Guedes, financista que nada entende de economia, é presidente da associação das escolas particulares de terceiro grau. Guedes, que manda cortar bolsas de estudos e pesquisas, estudou durante quatro anos nos EUA com bolsa pública. Mas isso nem ele nem a mídia corporativa revelam. 

Terror e charme – Como Hitler, Sr S conjugava o medo que inspirava aos próximos com um controlado charme. Escreve um historiador: “O rosto de Stalin era ‘expressivo e versátil’, seus movimentos ‘felinos, elásticos e graciosos’, ele zumbia de energia sensível. Todos os que o viam ‘ficavam ansiosos para vê-lo de novo’ porque ‘ele criava o sentimento de que havia um novo laço que os ligava para sempre’.Havia mais uma: Sr S tinha olhos ‘cor de mel’, penetrantes e profundos. Mr B parece incapaz de comparações nesse caso; seu ‘olhar’ opaco.

Cultura e erudição – O ódio que Mr B e seus adidos dedicam à cultura, ciência e pesquisa, que combina com o mais cabal desconhecimento de tudo, situa-o igual a Sr S, embora com o sinal trocado, no outro pólo. Sr S era culto de bastante, escrevia muito bem  e todos os documentos, de variado teor; era leitor voraz de obras tanto de história quanto de literatura e cultura, teatro, cinema, poesia, ópera, canto; nos jantares frequentes com vários camaradas era comum declamar e cantar, tudo isso ajudados por vinho e muita vodca.

Era protetor de muitos artistas e mandou fuzilar muitos artistas; o genial diretor de teatro de vanguarda Vsevólod Meyerhold e o escritor Isaac Bábel estão entre esses magnos artistas. O poeta Mandelstan, inimigo tolerado de Sr S, fala que a poesia era respeitada na URSS mais do que em outros lugares pois lá “as pessoas são mortas por causa dela”.

 Como Mr B, Sr S não tinha talento literário. Mas lia furiosamente e reunia nas suas bibliotecas 20 mil volumes “bem manuseados”. Lia sobre a Antiguidade, era estudioso de História e Cultura. Dizia sempre: “Se quiser conhecer as pessoas à sua volta, descubra o que elas lêem”. Lia tudo de Gogol, Tchekov, Zola, Balzac, Victor Hugo. Na velhice “ainda estava descobrindo Goethe”. Mas seu amor ao que chamava marxismo era superior. Considerava Mandelstan, Pasternak e Bulgákov gênios, mas proibiu suas obras. 

A barbárie perdeu na era contemporânea toda sua grandeza com Mr B. 

 Nem o partido – O terror dos anos 1936-39, que ceifou a vida de Bukharin em 1938, em mais um processo fabricado à la Lava Jato, com falsas confissões, atingiu o partido. Em 1934 havia 2 milhões 800 mil membros; cerca de 1 milhão foram presos e executados. Mr B após quase um ano de governo abandona seu partido e só conta com metade da bancada original no Congresso. A viúva de Bukharin, Ana Larina, 24 anos, foi presa e passou vinte anos no gulag de Sr S. Como se viu, Sr S passou a ser o único membro vivo do grupo original da revolução após o assassinato de Trotski no México em 1940. Que Mr B abra o olho para o exemplo do seu real correspondente comunista.

Tropas de seguidores – O congelamento imposto ao marxismo por Sr S resultou na “História do Partido – curso resumido”, 300 edições, 47 milhões de exemplares, que serviram como guia do pensamento de gerações, como o Corão guia muçulmanos e a Bíblia guia evangélicos. “Stalin preparava o terreno junto a uma ampla camada do povo que pensava em termos elementares, pessoas que iriam proporcionar um suprimento constante de carreiristas, informantes, oportunistas e funcionários estúpidos para seu sistema”. Impossível encontrar melhor definição dos bolsomínions, em especial ‘alunos’ do guru e todos os ministros.

Novo golpe – Analistas  de geopolítica alertam para o fato de novos golpes de Estado trazerem em seu bojo fanáticos de bíblia na mão, como no recente golpe ao presidente Evo Morales na Bolívia. Mr B está cercado de evangélicos e é aliado de bilionários que vivem de explorar essas camadas desinformadas. Sr S foi seminarista e nunca se recuperou dos traumas da educação religiosa que recebeu. Pontos para reflexão de Mr B.

Finale – Hitler tinha vastos planos geopolíticos. Sr S queria construir seu “socialismo” em um só país. E com rapidez, fúria, ódio e genocídios. Mr B dedica-se a atrelar-se à rabeira do carro imperial com ódio, servidão, subserviência, obediência ao latido do dono. Tudo indica que o ódio predatório de Mr B anuncie seu fim. 

Todo ódio se volta implacavelmente contra seu disseminador. Sr S tardiamente aprendeu essa verdade. Mr B ainda está iludido pela eternidade.

Mr B tem de prestar atenção às bandeiras do ministro criminoso: Moro afina ainda mais a voz de marreco quando mente. O vício não é indicado para um ministro da justiça. Gustavo Bebbiano acaba de revelar que Moro negociou o ministério antes das eleições. Mentiu à Câmara, mentiu ao Senado, mentiu à imprensa, mentiu ao povo brasileiro.

Como diria Mr B a Trump: I loviú … mais aimi goin bora! 

Nota: além das inesgotáveis informações da internet, três livros forneceram as citações entre aspas ao longo do texto: Stalin – A corte do czar vermelho, de Simon Sebag Montefiore, Companhia das Letras; Stalin, 2 v., Dmitri Volkogonov, Editora Nova Fronteira; Bukharin – Uma biografia política, Stephen Cohen, Paz e Terra.

*Chico Villela é escritor e editor, escreve sobre Geopolítica e Política Internacional. Contato pelo e-mail chicovillela@gmail.com

**Os artigos assinados por colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias Botucatu.

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