Redação Unesp 2020: “O carro será o novo cigarro?”

O cigarro perdeu seu glamour, não é mais sinônimo de liberdade e prazer

por Nelson Ferreira Junior*

“Venha para onde está o sabor, venha para o mundo de Marlboro” – a marcante frase do comercial de cigarro produzido na década de 1980 é um bom representante para a glamourização do cigarro como símbolo de liberdade e prazer. Observa-se que semelhante influência sobre objetos de desejo ainda existe hoje, mas, dentre outros produtos, sobre automóveis. Metonímia para vício, o cigarro pode ser comparado a carros, pois – pela Indústria Cultural, objeto de estudo dos filósofos da Escola de Frankfurt Theodor Adorno e Max Horkheimer – é criada uma idolatria sobre esses veículos motorizados cujas consequências também possuem semelhanças às do cigarro.

O vocábulo idolatria, adoração a ídolos, a algo irreal, origina a concepção de fetichismo estudada pelo filósofo alemão Karl Marx. De acordo com este, por uma ideologia imposta pelo sistema, a sociedade atribui valores inexistentes a objetos de desejo. Assim como o cigarro era visto como uma concepção de liberdade e prazer, e não como um causador de doenças respiratórias e cancerígenas, o automóvel deixa de ser um veículo de transporte emissor de gás carbônico e passa a significar liberdade e felicidade. Todavia, mais que estes valores semânticos, o carro também é símbolo de status, de ostentação, de poder, de superioridade, até de masculinidade, transformando-se em um camarote separador de classes sociais e gerador de preconceitos. 

Em meio à crise ambiental, surgem algumas jovens vozes na tentativa de alertar a sociedade sobre a necessidade de mudarmos nosso modo de viver. Uma dessas vozes é a ativista sueca Greta Thunberg, indicada ao Prêmio Nobel da Paz 2019, e considerada pela revista Time como a personalidade do ano. Mas muitos estão surdos perante esses gritos de alerta, haja vista as recentes ações governamentais brasileiras que incentivam o uso de automóveis: não obrigatoriedade de cadeirinhas para crianças, suspensão de radares móveis, extinção do seguro DPVAT. Tais atitudes auxiliam as consequências causadas pela indústria do petróleo: sedentarismo, estresse em trânsito, discussões, brigas, acidentes, poluição, guerras, mudanças climáticas.

O cigarro perdeu seu glamour, não é mais sinônimo de liberdade e prazer. Porém essa mudança semântica se deve muito mais a uma cultura individualista – pois o cigarro é um causador de males, principalmente, àquele que fuma – do que a uma ação altruísta. Assim, dificilmente o mesmo ocorrerá com o automóvel, pois seus males estão naturalizados como agressores do outro e não do eu. A naturalização também está presente no desejo de consumo por bens desnecessários – lembrando a filosofia epicurista -, ela não permite que o indivíduo visualize a idolatria que gera preconceito social. Acreditar que o carro será o novo cigarro parece mais uma utopia, já que, enquanto a juventude defensora do meio ambiente for chamada de pirralha por aqueles que estão no poder, o automóvel continuará sendo o cigarro do passado e não o do presente.

*Nelson Ferreira Junior é professor. 

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