A capacidade de perdoar

Mas o perdão cristão cura todos os males

por Oscar D’Ambrosio*

Quando se assiste ao filme “Dois Papas”, de Fernando Meirelles, é inevitável lembrar do recente gesto impulsivo de Francisco ao ser puxado por uma senhora. E muito já se escreveu sobre isso, discutindo como ali estava o homem e não o homem santo da comunidade católica. O fato, sem querer voltar ao tema, apenas reforça o interesse pela obra cinematográfica.

O ponto forte da criação do cineasta brasileiro é justamente mostrar a humanidade de seres que estão associados à divindade. Os atores Anthony Hopkins, como Joseph Ratzinger/Bento XVI; e Jonathan Pryce como Jorge Bergoglio/Francisco, dão um espetáculo nos diálogos em que expõem seus pontos de vista diversos sobre quase todos os assuntos.

As conversas fictícias acentuam os pecados de cada um. Bento XVI não agiu como deveria perante as acusações de pedofilia de um sacerdote mexicano; e Bergoglio teve atuação bastante discutível, para dizer o mínimo, perante a ditadura militar, falhando no seu papel de defesa dos jesuítas que então liderava na Argentina.

Mas o perdão cristão cura todos os males. Nas duas cenas em que um papa ouve a confissão do outro, surge a essência de um pensamento filosófico e existencial. O perdão purifica de todos os equívocos, pois a grandeza de Deus está justamente em sua capacidade infinita de receber a todos desde que o arrependimento seja sincero.

Desse modo, quando Francisco perde perdão publicamente do seu gesto perante a senhora que o agarrou pelo braço, está não apenas fazendo um mea culpa, mas acima de tudo, reforçando, como faz o filme de Meirelles, que papas e seres humanos têm dois elementos comuns: a capacidade de errar e de serem perdoados.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.