Redação Fuvest 2020: a Modernidade Líquida e o paradoxo científico

A máxima socrática “sei que nada sei” é fundamental nesses tempos em que a internet deu voz aos ignorantes

por Nelson Ferreira Junior*

Na Grécia Antiga, os sofistas relativizavam a verdade; para eles “o mundo é aquilo que cada um consegue perceber que é”. Quase dois mil anos depois, René Descartes, o pai do racionalismo moderno, atribuiu exclusiva confiança à razão humana como instrumento capaz de conhecer a verdade, indo de encontro às ideias empiristas as quais acreditavam no conhecimento por meio dos sentidos. No mundo ocidental, a ciência, o conhecimento por meio da razão, surgiu com os filósofos gregos pré-socráticos na investigação da natureza, physis, e na busca da origem de tudo que existe, a arché. Mas a ciência não existe apenas para compreender o mundo, ela também objetiva o progresso, o desenvolvimento para que o homem viva melhor. Todavia, observa-se que a ciência contemporânea tem retomado a perspectiva dos sofistas, tem sido utilizada para negar a própria ciência e para prejudicar o bem-estar da humanidade.

Produto do progresso científico-tecnológico, a pós-verdade cria uma imagem no consciente coletivo para o qual a verdade não tem mais importância. O exemplo dos governantes brasileiros que criticam a produção científica influenciando a sociedade a desacreditar na ciência cria uma imagem contrária à essência do conhecimento científico. A crença em mitos parece renascer no terceiro milênio como explicação da realidade. O narcisismo é alimentado pela valorização de crenças que vão ao encontro de ideologias do indivíduo, de maneira que este se considera profundo conhecedor sobre assuntos os quais não estudou. E assim surgem seguidores de pseudofilósofos e defensores de falsas teorias como a dos terraplanistas ou as que fundamentam o movimento antivacina.

A ciência, por meio do progresso tecnológico, também prejudica a flora, a fauna, o próprio ser humano. Tragédias como as da mineradora Vale em Brumadinho são resultado do mau uso da ciência. O conhecimento científico é utilizado para o enriquecimento de poucos em detrimento da maioria e do planeta. Mudanças climáticas, provocadas pela ação humana sobre a natureza, causam destruições como os incêndios florestais na Austrália. No Brasil, país recordista em uso de agrotóxicos, mais de quinhentos pesticidas estão liberados; no início do ano, 2019, foram encontradas mais de meio bilhão de abelhas mortas devido ao envenenamento. Um exemplo bem recente do uso tecnológico para fins bélicos foi a ação norte-americana de mísseis atirados por drones e que atingiram o aeroporto de Bagdá matando o segundo maior nome do Irã, criando situações para novas guerras e mortes.

O papel da ciência contemporânea é lutar contra seu mau uso. Vive-se uma situação problema contrária ao início da filosofia ocidental, pois as respostas passam a ser atribuídas às crenças, aos mitos e não às reflexões argumentadas e demonstradas. Envolvidos pelas fake-news obtidas pelos sentidos, que buscam desacreditar a ciência, como, por exemplo, as do movimento antivacina, muitos se afastam da realidade e passam a viver sob uma imagem criada para satisfazerem suas crenças, seu ego, suas ideologias. O afastamento da racionalidade também impede o homem de lutar contra aqueles que utilizam o progresso científico o qual está destruindo o planeta, haja vista as infundadas críticas a ativistas ambientais como a jovem sueca Greta Thunberg e os “memes” criados nas redes sociais sobre assuntos como uma terceira guerra mundial, que pode levar a humanidade ao caos. A máxima socrática “sei que nada sei” é fundamental nesses tempos em que a internet deu voz aos ignorantes.

*Nelson Ferreira Junior é professor. 

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