Pesquisa da Unesp de Botucatu aponta ausência de treinamento para lidar com paciente no fim da vida

Outros resultados também chamam atenção para a necessidade de se repensar as práticas terapêuticas em relação à morte

da Assessoria

A tese de doutorado “Distanásia e Ortotanásia, Ética e Legalidade na Prática da Anestesiologia”, apresentada pelo pesquisador Rodney Segura Cavalcante ao Programa de Pós-Graduação em Anestesiologia da Faculdade de Medicina da Unesp, câmpus Botucatu, sob a orientação da professora Eliana Marisa Ganem, que se baseou em dados colhidos com 150 anestesiologistas membros da Sociedade Brasileira de Anestesiologia (30 de cada região político-administrativa do Brasil), mostrou que 92% dos entrevistados não tiveram treinamento formal na faculdade para lidar com pacientes no final da vida.

“Nossa pesquisa apresenta um estudo que leva à reflexão sobre questões acerca de como as pessoas têm morrido, como gostariam de morrer e como os anestesiologistas veem a questão da terminalidade e a terapêutica utilizada. Se a prática da distanásia, que é, de maneira simplista, o adiamento da morte de um paciente acometido de uma enfermidade incurável em fase terminal por meios artificiais, tem sido ainda uma realidade em nossos hospitais em detrimento da ortotanásia, que é a morte ao seu tempo natural com o auxílio de cuidados paliativos com equipe multidisciplinar”, comenta o pesquisador. 

Outros resultados também chamam atenção para a necessidade de se repensar as práticas terapêuticas em relação à morte. Quase três quartos (74%) informaram que não tiveram conteúdo médico-acadêmico satisfatório sobre Ética e Direito ao longo do curso de graduação; 92% dos entrevistados já se depararam com situações em que a intervenção cirúrgica não acrescentou qualidade de vida ao paciente, mas sofrimento. E, por fim, mesmo a distanásia sendo a conduta mais frequente no Brasil, os próprios médicos (85% dos profissionais entrevistados) informaram que gostariam de morrer em casa, por meio da prática de ortotanásia.

“Esses números são reveladores e apontam para a necessidade tanto de uma imediata adequação das condutas médicas à nova realidade, ao desejo do paciente, à própria lei e ética, quanto à emergencial readequação curricular na formação de nossos profissionais da saúde. Portanto, a nossa tese, com grande influência das ciências humanas, leva-nos a olhar a terminalidade sob nova lente de modo que a morte, como termo final desta vida, merece ser tratada com o mesmo carinho e cuidado que o nascimento, não se justificando a dolorosa, custosa, invasiva e ineficaz distanásia. O respeito à autonomia do paciente, suas dores, medos e desejos devem ser priorizados, notadamente no momento em que a medicina já não pode garantir a cura, mas deve assegurar o conforto através da ortotanásia, a morte correta e ao seu tempo”, avalia Rodney Segura Cavalcante.

A tese do doutor Rodney foi um dos dois trabalhos laureados com o Prêmio Unesp de Teses, edição 2019 no tema Saúde e Bem-Estar.

“O reconhecimento de nossa tese de doutorado, com essa premiação, me chegou de forma inesperada e surpreendente. Primeiro porque não me dediquei a esse estudo visando prêmio algum. Queria, tão somente, defender uma ideia que acreditava e acredito: a humanização na terminalidade humana. Segundo, o fato de ter um “background” advindo de outra ciência, no caso o Direito, e não a Medicina, em princípio sepultaria qualquer pretensão ao vultoso reconhecimento na área das ciências médicas. Aproveito também para agradecer à minha orientadora, professora Eliana Marisa Ganem,  à cooperação  de Lucas Frederico Arantes, diretor do Núcleo de Eventos Científicos e Telessaúde do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina, em Botucatu; às professoras Lídia Raquel de Carvalho, Lais Helena Navarro e Lima e Norma Sueli Pinheiro Módolo, além do grande motivador e inspirador do trabalho, o  professor Guilherme Antônio Moreira de Barros, referência nacional em terapia antálgica (tratamento da dor) e cuidados paliativos da FMB”, declara Rodney Segura Cavalcante.

O trabalho está disponível para leitura no link: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/153648?show=full

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