O sucesso pode matar

Muitas dessas questões são levantadas sem que seja conseguida uma densidade em nenhuma delas

por Oscar D’Ambrosio*

Quando alguém faz aniversário, é muito comum que as pessoas desejem votos de sucesso. Talvez essa expressão seja usada de maneira formal e sem que exista uma reflexão sobre aquilo que a palavra realmente significa e o que ela pode acarretar, pois “se dar bem” não significa necessariamente ser feliz.

Essa é uma das discussões que surgem ao assistir ao filme “Judy: Muito Além do Arco-Íris”, infelizmente com direção nada além de convencional de Rupert Goold e atuação soberba de Renée Zellweger. A atriz representa o mito Judy Garland (1922 – 1969) em seu último ano de vida (ela viveu apenas 47 anos!), quando realizou shows em Londres para tentar juntar dinheiro para comprar uma casa e morar com os filhos.

Presente em palcos desde os dois anos de idade e sucesso mundial com “O Magico de Oz” (1939), Judy viveu, desde a adolescência fora dos padrões que teve, em um universo em que tomava pílulas para não engordar, para dormir e para acordar, envolvida numa atmosfera de depressão e perda de autoestima, buscando sempre a confirmação externa de que era talentosa e bonita.

Muitas dessas questões são levantadas sem que seja conseguida uma densidade em nenhuma delas. A obra consegue pelo menos, graças à atuação da protagonista, criar a atmosfera opressiva que o sucesso pode ter. Baseado na peça de teatro “Fim do Arco-Íris”, de Peter Quilter, o filme poderia ser melhor, mas vale muito a pena ser visto para recordar a capacidade do sucesso de destruir quem não se prepara ou é preparad@ adequadamente para ele.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.