Água em Cidades: um bem precioso de conflito evitável

A água não pede muito para que siga apenas ajudando os seres humanos sem representar uma ameaça

por Vinícius Nunes Alves*

Nem sempre a água é serena como canta Guilherme Arantes em sua canção “Planeta Água”. Mas o título da canção é coerente e feliz. Por mais que tantos indivíduos da espécie da “sapiência” desperdice e seque a água doce com desmatamento e uso domiciliar inadequado, a Terra continuará sendo o planeta água com seus imensos oceanos de água salgada. Somos um organismo de água e outras químicas e, também, somos só mais uma espécie que usa água dia após dia. Não precisa nem comentar que a água dá muito mais vidas humanas do que as tira. 

A água não pede muito para que siga apenas ajudando os seres humanos sem representar uma ameaça. Ela apenas precisa do seu espaço e sem sujeira. Basicamente, a água pode ir para cima (evaporação), para baixo (infiltração) e para os lados horizontalmente (escoamento superficial). Nas últimas décadas, com o crescimento desordenado das cidades, estamos desrespeitando a infiltração e o escoamento superficial da água. A água que evapora em zona urbana tem precipitado (chuva) em meio a muitos asfaltos e calçadas (solos impermeáveis). Em cidades, é comum vermos rios que estão quase sem mata ciliar nas margens; isso quando a mata ciliar não é toda substituída por concreto. Segundo Código Florestal Brasileiro (Lei Federal 12.651 de 2012), os rios que têm até 10 m de largura devem ter 30 m de mata ciliar nas margens, seja zona rural ou urbana.

Posto isso, caros leitores e leitoras, quantos rios em Botucatu estão atualmente adequados de acordo com o Código Florestal? Isso não é responsabilidade de uma nem duas gestões, tampouco motivo para desmerecer possíveis avanços ambientais (projetos) na cidade. Mas, de qualquer forma, precisamos ser críticos com Botucatu, que pleiteia classificar e se reclassificar como Município VerdeAzul do Programa Estadual de Meio Ambiente.      

E na tão noticiada capital São Paulo? Ter matas ciliares suficientes não só contribuiria para limpar a água dos seus rios, como também contribuiria para conter enchentes e alagamentos. A evaporação da água em uma metrópole tende a não precipitar de maneira serena, pois as nuvens tendem a ficar bem carregadas de água poluída.  As ilhas de calor e poeira entre tantos prédios contribuem para formar uma água que depois cai em forma de gotas grandes e pesadas de poeira diretamente em um solo confinado e não permeável. 

Pode-se ressalvar que enchentes e alagamentos são problemas mais complexos do que o exposto nesta postagem, indo além da aplicabilidade das matas ciliares urbanas e do Código Florestal, principalmente quando a chuva é anormal como a que desaguou em Botucatu. Mas as matas ciliares permanecem como importantes medidas com respaldo científico, assim como estudos e projetos de engenharia hidráulica sustentável têm sido propostos cientificamente. A remediação pode ser eficiente, mas já é tempo de todos nós começarmos a pensar e agir mais com base na prevenção do que na remediação.   

Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP . Professor Escolar da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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