O time dos sonhos da Economia de Francisco

Foram três mil jovens de 120 países inscritos, sendo quinhentos selecionados para o pré-evento

por Diogo Lopes*

Este é o quarto artigo da série Economia de Francisco. Recomendo ler os anteriores antes de continuar. É evidente que existem diversas relações imperativas entre essa série de artigos sobre a Economia de Francisco, e principalmente este que tem o objetivo de apresentar os convocados para o encontro em Assis na Itália em Março de 2020 com a Encíclica Laudato Si: Louvado Seja! Cuidados com a nossa Casa Comum.

Neste quero relacionar um trecho da encíclica em que trás um termo usado pelo Papa Francisco que me tocou profundamente e certamente tem uma forte conexão com a história pessoal de cada um dos jovens selecionados e palestrantes do evento.

O termo é “Amor Social” e vem acompanhado da palavra “Compromisso”:

  1. O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político,manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade, que toca não só as relações entre os indivíduos, mas também «as macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos, políticos».

Um compromisso se estabelece quando existe confiança segundo o Psicólogo Victor Penedo em seu estudo. A confiança certamente possui substâncias próximas a composição da fé. Para confiar em um ideal ou em uma pessoa não precisamos de nada, apenas uma decisão, entretanto, para manter essa confiança precisamos de conhecimento, vínculos, maturidade, interação, reciprocidade e transparência. 

Para um compromisso com o amor social e de cuidado mútuo, como nos instrui o Papa Francisco, é necessário também desenvolver amor próprio e ética, através de, princípios e valores. Estes devem ser praticados desenvolvendo-se por meio de virtudes. A partir desses percursos de aprendizagem, poderemos ser coerentes em comprometer-nos com o Amor Social. 

A melhor forma de iniciar esse processo é associando-se com quem já possui essas qualidades e tratar de observar. Nesse sentido chamo a atenção para o apelo abaixo de Francisco ao evento Economia de Francisco:

“Com você e através de você, apelarei a alguns dos nossos melhores economistas e empreendedores que já estão trabalhando no nível global para criar uma economia consistente com esses ideais. Estou confiante de que eles responderão. E acima de tudo, estou confiante em vocês, jovens, capazes de sonhar e preparados para construir, com a ajuda de Deus, um mundo mais justo e belo.” – Papa Francisco.

Esse trecho da Carta do Papa Francisco demonstra que ele está intencionalmente criando um movimento transcultural e transgeracional, incluindo diversos tipos de perfis: de estudantes a ganhadores do prêmio Nobel. De empreendedores a agentes de transformação.  E a maneira mais simples de promover a realização desse amor social é aproximar quem já realizou ou realiza essa conduta com quem está interessado em desenvolver essas características.

Foram três mil jovens de 120 países inscritos, sendo dois mil selecionados. E desses dois mil, quinhentos convidados a uma reunião com o Papa Francisco. Tive a boa fortuna de ser convocado para esse pré-encontro com 500 jovens a encontrar pessoalmente o Papa. A organização não divulga a lista dos jovens selecionados por privacidade. Entre os renomados convidados a participar, quero aqui, comentar sobre esse time dos sonhos:

Amartya Sen: Economista e filósofo indiano, Prêmio Nobel de Economia 1998. Tendo testemunhado a escassez de alimentos que atingiu Bengali em 1943 que provocou a morte de quase 3 milhões de pessoas, Sen interessou-se em fazer reformas sociais para melhorar a condição em países subdesenvolvidos com as suas políticas socioeconômicas adaptáveis para abolir a escassez de alimentos. Além disso, se esforçou muito para avançar o raciocínio construtivo e formas de melhorar a condição dos pobres ao mesmo tempo que trabalhou para o bem-estar das comunidades socialmente atrasadas. O seu trabalho lançou uma nova luz sobre os muitos problemas sociais do país, como a pobreza, a fome, o subdesenvolvimento humano, a desigualdade de género e o liberalismo político e trouxe reformas bem-sucedidas.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Amartya_Sen

Muhammad Yunus: Empreendedor social de Bangladesh, banqueiro, economista, Prêmio Nobel da Paz 2006. Muhammad Yunus criou então o Banco Grameen, que empresta sem garantias nem papéis, sendo, sobretudo, procurado por mulheres: elas são 97% dos 6,6 milhões de beneficiários. A taxa de recuperação é de 98,85%. Em maio de 2011 renunciou à presidência do Banco Grameen. Yunus era acusado de não ter respeitado as regras de nomeação do diretor-geral do banco, quando foi reconduzido no cargo em 2000. À luz das regras do Grameen Bank, Yunus devia ter sido nomeado com o acordo prévio do banco central do país.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Muhammad_Yunus


Vandana Shiva: Em 1978, recebeu seu PhD em filosofia na Universidade de Western Ontario com foco em filosofia da física. Em 2004, Shiva começou Bija Vidyapeeth, um colégio internacional para a vida sustentável em Doon Valley, em colaboração com Schumacher College, U.K. Na área dos direitos de propriedade intelectual e da biodiversidade, Shiva e sua equipe na Fundação de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Ecologia desafiaram a biopirataria de Neem, Basmati e Trigo. Vandana Shiva passou grande parte de sua vida na defesa e celebração da biodiversidade e conhecimento indígena. Ela trabalhou para promover a biodiversidade na agricultura para aumentar a produtividade, a nutrição, os rendimentos dos agricultores e é por este trabalho que ela foi reconhecida como uma “heroína ambiental” pela revista Time em 2003. Seu trabalho na agricultura começou em 1984 após a violência em Punjab e o que ficou conhecido como Desastre de Bhopal. Seus estudos para a Universidade da ONU levaram à publicação de seu livro A Violência da Revolução Verde. A ideia central do trabalho de Shiva é a de sementes livres, ou a rejeição de patentes corporativas sobre as sementes. Ela fez campanha contra a implementação do Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPs) de 1994, que amplia o escopo das patentes para incluir formas de vida. Shiva chama o patenteamento da vida de “biopirataria”, e tem lutado contra tentativas de patentes de várias plantas indígenas. Em 2005, Shiva ganhou uma batalha de 10 anos no Instituto Europeu de Patentes contra a biopirataria de Neem pelo Departamento de Agricultura dos EUA e pela corporação WR Grace. Em 1998, a organização de Shiva, Navdanya, iniciou uma campanha contra a biopirataria do arroz Basmati pela corporação norte-americana RiceTec Inc. Em 2001, após intensa campanha, a RiceTec perdeu a maior parte de suas reivindicações de patente.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Vandana_Shiva 

Jeffrey Sachs: Economista, analista de políticas públicas e ex-diretor do Instituto Terra na Columbia University. Em 2005, ele escreveu o livro O Fim da Pobreza onde apresenta algumas ideias acerca da promoção do desenvolvimento e da eliminação da pobreza extrema com base nos conhecimentos adquiridos no seu trabalho como professor e conselheiro a diversas instituições e governos. Neste trabalho, Sachs escreve que “a governação em África é má porque a África é pobre”. Na sua opinião, com as medidas adequadas, a miséria em massa – como os 1.100 milhões de pessoas que vivem com menos de 1 dólar por dia – pode ser eliminada em 20 anos. A China e a Índia servem como exemplos; a China arrancou 300 milhões da pobreza extrema nas últimas duas décadas. Para Sachs o elemento chave para conseguir este objectivo é elevar o montante de ajuda aos países pobres do nível de 65 mil milhões de dólares (2002) para 195 mil milhões (2015).

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jeffrey_Sachs

Bruno Frey: Economista suíço e professor visitante permanente de Economia Política da Universidade de Basileia. Os tópicos de pesquisa de Frey incluem economia política e economia da felicidade, com seu trabalho publicado incluindo conceitos derivados de psicologia, sociologia, jurisprudência, história, artes e teologia.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Bruno_Frey

Kate Raworth: Economista inglês que trabalha na Universidade de Oxford e na Universidade de Cambridge; Associado Sênior do Cambridge Institute for Sustainability Leadership. Ela é conhecida por seu trabalho na “economia de rosca”, que ela entende como um modelo econômico que equilibra entre necessidades humanas essenciais e as fronteiras planetárias.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Kate_Raworth

Carlo Petrini: Sociólogo, escritor, ativista e fundador do Movimento Internacional Slow Food. Foi uma das pessoas que encampou uma série de ações contra o fast-food, em especial contra o McDonald’s quando este abriu uma lanchonete no centro histórico de Roma.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlo_Petrini

Stefano Zamagni:O professor Stefano Zamagni é um economista italiano. Nascido em Rimini, Zamagni é professor de economia na Universidade de Bolonha. Zamagni também é membro da Associação de Desenvolvimento e Capacidade Humana e presidente da Pontifícia Academia de Ciências Sociais. Autor de várias obras como Microeconomia e Economia do Altruísmo.

Fonte: https://en.wikipedia.org/wiki/Stefano_Zamagni

Ainda no time de “Speakers” com menos informações disṕoníveis na internet: Juan Camilo Cárdenas: Professor de economia na Universidad de los Andes, na Colômbia. Jennifer Nedelsky: Filósofa na Universidade de Toronto. Mauro Magatti: Sociólogo e economista da Universidade Católica do Sagrado Coração, Milão. Consuelo Corradi: Socióloga na Universidade Lumsa, Roma. Leonardo Becchetti: Economista na Universidade Tor Vergata, Roma e Cécile Renouard: Filósofo e economista no Centre Sèvres e na ESSEC Business School.

Cito um artigo sobre o mesmo tema, a Economia de Francisco de Frei Beto: “Segundo a FAO, 851 milhões de pessoas passam fome atualmente. A população mundial é de 7,6 bilhões de pessoas, e o planeta produz alimentos suficientes para 11 bilhões de pessoas. Portanto, não há falta de recursos, há falta de justiça. Como não há falta de dinheiro, e sim de partilha. Os paraísos fiscais, guardam 20 trilhões de dólares, 200 vezes mais do que os US$ 100 bilhões que a Conferência de Paris estabeleceu para tentar deter a desastre ambiental.

No neoliberalismo, o capitalismo adquiriu nova face. Deslocou-se da produção para a especulação. As fabulosas fortunas estocadas nos bancos favorecem prioritariamente os especuladores, e não os produtores. Em suas obras, Piketty demonstra que produzir gera empregos e resulta no crescimento de bens e serviços na ordem de 2% a 2,5% ao ano. Porém, quem aplica no mercado financeiro obtém um rendimento de 7% a 9% ao ano. 

O agravante é que o capital improdutivo quase não paga imposto. E a desigualdade de renda tende a crescer, pois, hoje, 1% da população mundial detém em mãos mais riqueza que os 99% restantes. A soma das riquezas de apenas 26 famílias supera a soma da riqueza de 3,8 bilhões de pessoas, metade da população mundial. E, no Brasil, apenas seis famílias acumulam mais riqueza do que 105 milhões de brasileiros – quase metade de nossa população – que se encontram na base da pirâmide social. O objetivo do papa Francisco é que vigore no mundo uma economia socialmente justa, economicamente viável, ambientalmente sustentável e eticamente responsável.”

Com tantas boas referências e biografias, não nos faltará motivação e entusiasmo para depois de inspirar-nos buscarmos nossa própria trilha de conexão com esse chamado de praticar com compromisso esse amor social.  Convido você a aproximar-se dos temas ou de pessoas que você admira e sente inspiração e busque de alguma maneira sua, comprometer-se a esse amor social, com você mesmo, com a sua família, seu bairro, na sua escola ou no seu trabalho com o intuito de equilibrar tantas injustiças sociais, ambientais, culturais e monetárias. Um dica por onde começar: como anda seu senso de justiça interna, você com você mesmo? Você se ama? Se cuida? Se respeita? Se conhece? Quem somos nós nesse mosaico?

Referências.
https://francescoeconomy.org/speakers/

Diogo de Castro Lopes é botucatuense, empreendedor, e participará do evento A Economia de Francisco, em março de 2020- diogo@nascentes.org.br