Filosofia tem potencial para transcender hábitos de vida e leituras reducionistas/rígidas de mundo. Qual é a sua abertura filosófica?

As fake news e a polarização excessiva, com o uso de palavrões, prejudicam o debate

por Vinícius Nunes Alves*

Alfredo é professor do Departamento de Educação do IB

Esta postagem tem uma fonte (entrevistado) que é o Alfredo Pereira Júnior. Uma das suas graduações é em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora (1984), seguiu com mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1986), e depois  fez doutorado em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas (1994). Ou seja, ele realmente é doutor porque tem doutorado, e isso não quer dizer que ele se importa com esse tratamento. Essas não são todas as formações/titulações acadêmicas que Alfredo possui, há mais algumas que não vêm ao caso esgotar aqui. Alfredo gosta tanto de ensinar o conhecimento acumulado e clássico da Filosofia, quanto de produzir conhecimento novo por meio da pesquisa científica que ele realiza junto aos programas de Saúde Coletiva (Faculdade de Medicina, Unesp-Botucatu) e de Filosofia (Faculdade de Filosofia e Ciências, Unesp-Marília).  

Mas mesmo uma pessoa que não tem formação e contato acadêmico com Filosofia, pode se interessar (talvez até desde a escola), ir atrás do conhecimento filosófico em fontes confiáveis e adotar abordagens filosóficas para refletir, dialogar e se posicionar diante de questões de atualidades e até pessoais. Eu mesmo sou biólogo e vi em mim um interesse crescente e natural por Filosofia que é uma área transversal. Um dos meus estímulos não deixa de ser o Alfredo, pois ele foi meu professor da interessante disciplina Fundamentos de Filosofia no começo da minha graduação em Ciências Biológicas no Instituto de Biociências (IB) da Unesp de Botucatu. Isso porque Alfredo é professor do Departamento de Educação do IB há muitos anos e leciona disciplinas para os cursos do IB, sendo Biologia apenas um deles. Por fim, para todos leitores que estiverem abertos, compartilho perguntas e respostas básicas e comuns sobre Filosofia.


Prof. Alfredo, o que o motivou a ser filósofo seguindo a carreira acadêmica?

Gosto do ambiente de racionalidade que temos na academia, e da interação com pessoas jovens. Minha maior motivação foi o gosto pela escrita autoral, que pude exercer a profissão de professor universitário.

É comum aquela discussão se a Filosofia é útil ou inútil. Muitos jovens querem saber por que tem que aprender Filosofia na escola ou até na universidade por não enxergarem uma aplicabilidade. Certa vez um Professor de Filosofia disse que ela pode até ser inútil, mas que não deixa de ser importante, ainda que seja apenas num sentido de leitura do mundo. Você como filósofo e professor, o que tem a comentar sobre isso?

A utilidade da filosofia depende do universo mental e vivencial da pessoa. Ela é uma ferramenta valiosa para ajudar na tomada de decisão sobre as questões mais difíceis da vida. Para quem vive de modo imediatista, apenas respondendo aos estímulos conforme os hábitos pré-estabelecidos, a filosofia pode parecer um fardo inútil de se carregar.

Na Netflix existe uma série catalã chamada Merlí. Este também é o nome do protagonista da série que é um professor de Filosofia no Ensino Médio de uma escola pública. Cada aula desse professor tem como tema o pensamento de um grande filósofo (às vezes, filósofa!). Ao mesmo tempo, em todas as suas aulas, Merlí motiva os alunos a refletirem e questionarem o mundo à sua volta, mostrando que essas não são aptidões especiais apenas dos filósofos. Com isso, gradativamente, Merlí vai conquistando a grande maioria dos seus alunos. Mas tudo isso se resume a um exemplo dentro de uma série no contexto da Barcelona. E para você, como a Filosofia pode  ficar mais próxima da vida das pessoas?

A sua presença no Ensino Médio foi importante para que as pessoas tivessem uma noção básica, e pudessem se aprofundar caso tivessem interesse. É preciso que a pessoa queira aprender a filosofia, assim como acontece com as ciências. O conhecimento é uma conquista pessoal que exige vontade de aprender e esforço.

Existe um meme de humor na rede social que trata como Mito a afirmação de que Filosofia te deixa mais inteligente; e trata como Fato que Filosofia pode te dar a habilidade de arruinar encontros em família. Você concorda?

Nem sim nem não, pois o resultado depende do bom senso de quem filosofa. 

Quando se põe política no meio, a discussão geralmente ganha certa tensão e há artigos sobre política escritos por filósofos de destaque na mídia atual, como Vladimir Safatle, que não resistem a críticas ou simplesmente ataques de leitores tanto da esquerda, quanto da direita. E para você, como seria discutir questões de política de forma filosófica?

Toda discussão política bem intencionada, em que se procura o diálogo frutífero de pessoas que têm posições diferentes, seria intrinsecamente filosófica – mesmo que pouco elaborada conceitualmente. Temos também que levar em conta que há diferentes perspectivas; mesmo dentro dos partidos políticos há divergências filosóficas. É como se toda pessoa que pensa por si mesma tivesse uma filosofia própria, que se contrapõe às outras, muitas vezes sem chegar a um acordo. Por isso Merleau-Ponty dizia que a filosofia é um processo sem fim de investigação.

Você é fundador e administrador de um grupo chamado Crítica da Crítica no Facebook. Este grupo tem como um dos seus propósitos debater política de forma democrática e fraterna. Para você, o grupo está conseguindo cumprir com este propósito?

Parcialmente, porque as pessoas ainda estão aprendendo a usar a internet para uma interação política mais construtiva. As fake news e a polarização excessiva, com o uso de palavrões, prejudicam o debate. Como esta página raramente usa a divulgação patrocinada, acaba sendo pouco difundida, pois o Facebook prioriza quem paga o que eles chamam de “impulsionamento”, que é uma taxa para que as postagens alcancem mais pessoas.

Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP . Professor Escolar da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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