Infectologista da Unesp rebate críticas após projeção de vítimas por coronavírus em Botucatu

Carlos Magno Fortaleza fez o desabafo após apontar que doença poderia vitimar até 2% da população se não for contida

da Redação

Após entrevista a uma rádio de Botucatu, o médico infectologista e professor da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), Carlos Magno Fortaleza, que integra o Comitê de Contingência para o Coronavírus no Estado de São Paulo, em que explicou a provável amplitude da Covid-19 no município, foi alvo de críticas a suas ponderações técnicas, sendo atacado até de forma pessoal por alguns internautas.

Em sua entrevista, o especialista- que também é consultor sobre coronavírus para o Ministério da Saúde e da Organização Pan Americana da Saúde- ressaltou que sem a adoção do chamado “isolamento social”, Botucatu poderia ter em torno de 3 mil mortes, tomando como parâmetro a incidência da doença na China e em países europeus. Ressaltou que o vírus (SARS-Cov2) atinge 75%  da população, mas em situação leve. No entanto, em caso de propagação sem controle, a patologia poderia vitimar até 2,7% da população. De acordo com o IBGE, há a estimativa de 146.497 habitantes no município.

“Fiz uma fala na Rádio Municipalista alertando as pessoas quanto ao risco de se cruzar os braços quanto ao vírus que é pandêmico, que tem causado doenças potencialmente graves e que afetou diversos países de maneira importante. É o vírus de mais grave e rápida evolução global desde a Gripe Espanhola (pandemia que durou de 1918 a 1920 e matou mais de 500 milhões de pessoas em todo o mundo). Utilizei dados de letalidade da Organização Mundial da Saúde e também fornecidos pela Universidade de Brasília e que tem sido aprimorados por estatísticos, modeladores matemáticos, geógrafos da saúde do Estado de São Paulo para fazer uma previsão de que, em um pior cenário, se não fizermos nada, podemos chegar a ter quase que a totalidade da população de Botucatu acometida e um número de mortos que pode chegar a três mil”, explicou o professor.

Os casos de Covid-19 crescem diariamente, tendo o Estado de São Paulo como epicentro. No Estado são 58 mortos e 1052 confirmações. O maior grupo de risco é entre pessoas acima de 60 anos. Em todo o país contabiliza-se 2.915 casos e 77 óbitos. Tais números referem-se aos contabilizados até 26 de março.

Após a entrevista, diversas reações de populares em grupos de discussões e em sites de notícias.criticaram a estimativa feita pelo médico infectologista. Seguem abaixo as mensagens deixadas, mantendo a grafia original:

“Cada publicação … Deveria trabalhar com dados concretos , não hipótese”,

“Deve ser um ze ruela (João Doria ) ligo para ele”, postou outro que contestava a notícia.

“Aí vem um esperto falando merda….só sabem deixar o povo em Pânico…”,

“O Brasil está cheio de especialista e olha a merda que está todas áreas a anos”,

“Ele tá achando que é Deus misericórdia desse ser humano”,

“Só Botucatu vai morrer mais que a China kkķkkķkk muito bom este especialista”,

“Cala-te inoportuno!!!”,

“Continuo dizendo ” nem sempre diploma é sinônimo de inteligência “;

O vereador Abelardo da Costa Neto (MDB) também se posicionou sobre o assunto, relacionando a atual pandemia de Covid-19 a do H1N1, a chamada gripe suína, que no mundo todo teria atingido 24% da população, algo entre entre 700 milhões e 1,7 bilhão de pessoas. No Brasil foram 53 mil casos com 2.093 mortes (taxa de letalidade em 3,9%), afetando principalmente os mais jovens, conforme estudos da Universidade de São Paulo (USP). À ocasião a transmissão comunitária (onde já não se sabe a origem do contágio) demorou tardiamente para ocorrer.

O médico infectologista fez desabafo onde ressalta a amplitude do potencial da doença e que as projeções servem como alerta.  Confira o vídeo:


“Entre os comentários, uma série de pessoas não só me desqualificaram tecnicamente quanto pessoalmente. Sou um servidor público, não sirvo a nenhuma legenda partidária ou algum interesse. Sou um médico que escolheu não ter um consultório e não trabalhar no setor privado, apenas para servir a população com minha assistência, pesquisa e organizar serviços de atendimento em saúde pública. Tenho trabalhado desde a assistência direta do coronavírus até assessoria à Secretaria de Estado da Saúde, ao prefeito de Botucatu e à Organização Pan Americana da Saúde. Quero dizer a todos que me disponho, a qualquer momento a ir à rádio e a qualquer outro veículo de comunicação para explicar sobre a doença. Peço aqueles haters, trollers, aquelas pessoas que gostam de postar conteúdo ofensivo, que venham conversar. Gosto de conversar, do diálogo e de posições opostas para que possamos discutir racionalmente, mas certamente tudo o que falei foi tecnicamente embasado. O que disse foi para criar cautela e não pânico na população. Quem me acusaram de autopromoção é algo que está longe de meus interesses. Sou servidor público, professor universitário e pesquisador. Continuarei trabalhando para proteger a população”, concluiu Fortaleza.