Existe algum lado bom em meio à pandemia de coronavírus?

Tempos de crise com a pandemia estão favorecendo a vida espiritual, convocando muitas pessoas à reflexão

por Vinícius Nunes Alves*

Longe de dizer que uma pandemia com tantas mortes e desesperos tem um lado bom maior do que ruim. Tampouco posso sair dizendo que foi bom ter uma pandemia para vermos posturas sensatas e solidárias de quem nunca vimos antes. Mas a vida é delicada e situações de calamidade pública podem propiciar benefícios para Ciência e meio ambiente, além de propiciar cooperações inéditas. A fim de nos dar algum alento, selecionei algumas notícias boas que temos recebido como reflexo ou reação à pandemia de Covid-19:

– O conectividade global em tempo real, reiterando em muitas pessoas os valores da comunicação, da união de forças e da humildade na luta contra um problema em comum;

– A percepção de que a Ciência de qualidade e impacto fortes tem uma alcance internacional, ou seja, não é aquela Ciência realizada e publicada dentro de um país só para ele mesmo;

– O reconhecimento da importância de divulgadores científicos, como Atila, Pirulla e outros, que se esforçam pelas redes sociais e pelo Youtube para produzirem, esclarecerem e discutirem conteúdos científicos para população em geral. Como exemplo recente, temos a participação do biólogo, virologista e divulgador científico Atila Iamarino no programa Roda Viva da TV Cultura nessa segunda-feira (30); 

– A produção eficiente de mais de 150 artigos científicos de nível internacional em tempos de desvalorização da Ciência e das universidades. No caso do Brasil, como pontuou Atila Iamarino no programa Roda Viva supracitado, essa desvalorização começou em 2014 e segue até os dias atuais com cortes e contingenciamentos;

– A comunidade científica das áreas que estudam coronavírus está mais unida e mais aberta do que nunca, compartilhando os conhecimentos sobre vacinas e tratamentos preliminares, epidemiologias genéticas e aspectos clínicos;

– O exemplo da Coréia do Sul que mostra ao mundo que é possível acelerar e amplificar a aplicação de testes, assim como usar esses resultados mais realísticos e menos subnotificados para localizar e conter focos de infecção;

– O fechamento de fábricas e comércios, o cancelamento de viagens e a anulação do consumismo que reduziram 25% das emissões de dióxido de carbono na China. E as reduções do gás estufa devem acontecer em todos os países até o retorno da normalidade;

– Além da China, a poluição de outros países também já reduziu durante a quarentena horizontal, a saber: melhoria na qualidade de ar na Itália, inclusive na cidade de Veneza os canais de água ficaram claros, permitindo ver até golfinhos; redução de cerca de 50% na emissão de monóxido de carbono proveniente de automóveis em Nova York nos Estados Unidos;

– A quarentena no Brasil, com fechamento de serviços não essenciais, cancelamento de voos e menor movimento de carros nas ruas, também reduziram a poluição atmosférica nas capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte), o que também passa a ser benéfico para saúde das pessoas com problemas respiratórios; 

– A esperança de pesquisadores, inclusive brasileiros, que estão tentando produzir uma vacina contra o novo coronavírus a partir de técnicas não convencionais. Isso exalta a importância da vacina como uma conquista para saúde pública. Ou seja, é uma aposta alta e benéfica, não algo a ser ignorado como fazem movimentos anti-vacina, baseados em teorias da conspiração ou pseudociências;

– Pessoas públicas, como apresentadores de TV aberta no Brasil, que antes não valorizavam devidamente a Ciência, agora estão valorizando mais. Assim como apresentadores e atores de TV que, ao se conscientizarem da gravidade da situação, reuniram fundos de alguns milhões com seus familiares e amigos para doarem a representantes de favelas ou outras parcelas da população mais vulneráveis;

– Estamos vendo jogadores, técnicos, clubes e seleções fazendo doações em dinheiro e/ou em espaço para hospitais e instituições de pesquisa agirem contra a Covid-19;

– Empresas como Ambev, Caio, Embraer, Magazine Luiza, Pão de Açúcar e outras estão fazendo doações. Cada uma no seu campo de atuação. Por exemplo, Ambev produzindo álcool em gel, Caio abrindo contratos temporários para biólogos moleculares fazerem testagem em massa,  Embraer dando férias remunerada para funcionásios e colaborando com a fabricação de peças para ventiladores e respiradores, Magazine Luiza pagando o tratamento hospitalar de certo número de doentes por coronavírus, Pão de Açúcar contratando funcionários temporários para organizarem a circulação de pessoas nas lojas e para esterilização dos espaços, entre outras empresas e doações;

– Mesmo só no Brasil, já podemos reconhecer tecnologias contra a pandemia que estão sendo desenvolvidas em uma velocidade sem precedentes como: rodo com radiação ultravioleta que mata vírus no chão de hospitais, medidores de temperatura por infravermelho para detectar a presença do coronavírus em passageiros de aeroportos, entre outras;  

– Vale ressaltar também que os tempos de crise com a pandemia estão favorecendo a vida espiritual, convocando muitas pessoas à reflexão, ao adentramento de valores genuínos e espirituais, diz o professor pesquisador Faustino Teixeira da Universidade Federal de Juiz de Fora. Eu mesmo tenho sabido de cultos, orações e meditações de diferentes religiões acontecendo com frequência em grupos on-line por Skype, Zoom e Google Hangouts Meet;  

Ainda no contexto da espiritualidade, aproveito para terminar esta postagem usando as palavras do teólogo (entre outras formações) Leonardo Boff: “A espiritualidade é inspiração para um horizonte de esperança e de capacidade de auto-transcendência. Ela é capaz de provocar em nós mudanças substantivas e apontar caminhos jamais traçados e que são essenciais para a nossa sanidade”.

Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP . Professor Escolar da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

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