Rua Major Matheus: o coração do “Bairro”

O famoso “Bairro” é reflexo do crescimento econômico e populacional de Botucatu, ainda no século XIX

por Flávio Fogueral*

Botucatu reconhecidamente tem um dos comércios mais pujantes do interior paulista. Isso se deve graças ao empenho e perseverança dos empresários, que construíram uma estrutura invejável na área do varejo, serviços e indústrias que empregam milhares de pessoas. Diversas regiões da Cidade foram essenciais para que essa pujança e força empreendedora crescessem.

Um desses locais, com toda a tradição, é a Vila dos Lavradores. O famoso “Bairro” é reflexo do crescimento econômico e populacional de Botucatu, ainda no século XIX. No livro “Achegas para a História de Botucatu”, Hernâni Donato reforça que o surgimento da vila deve-se ao estabelecimento da ferrovia no município, já na década de 1890. Até então, o espaço era apenas um aglomerado de casas na saída para São Manuel.

Veja fotos históricas da Rua Major Matheus

Com a construção da primeira estação da Estrada de Ferro Sorocabana, a empresa começa a explorar comercialmente a região, trazendo contingente de funcionários que se estabeleceram pelo entorno. Além disso, agricultores já haviam se estabelecido pelo local. Segundo o livro “Ruas de Botucatu”, de João Thomaz de Almeida, a Vila dos Lavradores recebeu a primeira denominação de Bairro da Estação, com sua primeira citação pela Câmara Municipal em 1892. Na ocasião, a Intendência (equivalente à Prefeitura), mandou alinhar novas vias, sendo duas “avenidas”. Uma delas, a de número 1, teria conexão entre a estrada que levaria a Lençóis Paulista e, por fim, ao sertão. O nome, Major Matheus, seria dado apenas em 1904. 

Muita história foi contada e vivida nos mais de dois quilômetros de extensão da via. Ao longo das décadas, a Vila dos Lavradores cresceu exponencialmente.  Passou a ser a representação do crescimento da região Norte, em concorrência com as ruas Amando de Barros e Curuzu, por exemplo.

Rua Major Matheus é uma das principais vias comerciais de Botucatu

Rua Major Matheus, em horário de tráfego intenso. Ruas de Botucatu começam a sentir o impacto do crescimento da frota de veículos

A rua faz conexão direta entre diferentes regiões e tem início com o antigo pontilhão da Fepasa

Muitas empresas históricas como as Indústrias Lunardi e a própria Sociedade Aeronáutica Neiva Limitada, que mais tarde viria a se tornar uma subsidiária da Embraer. A região, ainda concentrou escritórios das maiores indústrias cinematográfica do país e salas de cinema com o histórico Cine Vila Rica, fechado no final da década de 1990. 

Mais de um século após sua criação, a Rua Major Matheus ainda representa a força da Vila dos Lavradores e atrai investimentos. Dados da Secretaria de Comércio, Indústria e Serviços de Botucatu apontam a importância econômica desta região da cidade. O chamado “Bairro” concentra 952 empresas ativas no cadastro da Prefeitura. Desse total, 753 somente na Vila dos Lavradores, sendo que a Rua Major Matheus é o endereço de 211 empreendimentos nas áreas de comércio e serviços. Alguns destaques são a existência, por exemplo, de cinco agências bancárias, dois postos de combustíveis, supermercado, além de dezenas de lojas de roupas, eletrônicos, utensílios domésticos, móveis, além de escritórios imobiliários, seguros, advogados e consultórios médicos. Enfim, um corredor comercial completo, onde os moradores da região.

Conexão com as mais diferentes regiões da cidade, facilidade de acesso às rodovias que cruzam o município e à Unesp, além de grande dimensão populacional- estima-se que mais de 50 mil botucatuenses vivam na Vila dos Lavradores ou bairros do entorno, além de um relacionamento próximo típico das cidades do interior, foi o que atraiu muitos empresários a investir no “Bairro”.

Major Matheus, quem foi? 

A Rua Major Matheus é uma homenagem ao major Matheus Pinheiro Machado, nascido dia 22 de julho de 1817, em Sorocaba. Matheus foi comandante da cavalaria número 13 da Guarda Nacional da Vila de Botucatu, em 1864. Foi, ainda, presidente da Câmara Municipal no biênio 1876/1877. Morou parte de sua vida no antigo Bairro da Estação (Vila dos Lavradores), onde possuía propriedade rural. Era agricultor, com ênfase na plantação de café e algodão, além de dedicar-se à agropecuária. Faleceu em 6 de outubro de 1887, sendo sepultado em Botucatu.

(Fonte: Ruas Botucatuenses- Inventário sobre a história dos homenageados nas placas da cidade, por Olavo Pinheiro Godoy, Diagrama, 2009).

*Matéria publicada originalmente na edição 29 da Destaque Botucatu. Para ler a versão completa, clique aqui.