Uma pitada sobre prevenções e testagens para o novo coronavírus. Um breve bate-papo com a cientista Rejane Grotto da Unesp de Botucatu

Ainda é justo e importante que a população tenha o direito de saber e de se atualizar, 

Por Vinícius Nunes Alves e Leandro Magrini*

Somos bombardeados por notícias da pandemia em vários momentos do nosso cotidiano. Se não tomarmos cuidado e não ocuparmos a mente com outras atividades, esse bombardeamento pode gerar ansiedade e confusão. De qualquer forma, ainda é justo e importante que a população tenha o direito de saber e de se atualizar, e não o contrário. Como dizia o astrônomo e divulgador científico Carl Sagan, “é melhor compreender o Universo como ele realmente é do que persistir no engano, por mais satisfatório e tranquilizador que possa parecer”. Para compreender melhor a Ciência, que é uma das abordagens que o ser humano tem de conceber o Universo, é importante formar uma educação ou mentalidade científica que começa desde um ensino escolar de qualidade. A partir disso e gradualmente, podemos interpretar melhor as informações científicas que nos chegam sobre temas que se relacionam diretamente com a nossa vida, como a crise mundial de Covid-19, gripe causada pelo novo Coronavírus (SARS-CoV-2).

Relacionado a isso, a bióloga e divulgadora científica Natália Pasternack também pontua que em Ciência o maior problema não é o acesso à informação, mas sim a compreensão da informação. Como exemplo disso, ela usou o caso da cloroquina – medicamento em fase inicial de testes que foi defendido como tratamento contra a Covid-19, revelando que poucas pessoas têm um bom entendimento sobre como funciona um teste clínico. 

Mesmo se alguém não teve oportunidade para ter uma educação científica básica e sólida, existem algumas posturas que já ajudam nessa direção. Uma delas é buscar informações com a mente aberta para ampliar o que você pensa e conhece sobre um assunto, e não apenas buscar informações com seus preconceitos a fim de apenas encontrar eco no que você já acredita. Outra postura é buscar se informar por veículos oficiais de divulgação científica, que além de trazerem as fontes daquelas informações, comentam algo sobre os métodos, ou seja, como os autores chegaram naquelas conclusões.

Não só as fake news prestam um desserviço às informações sobre a pandemia do Coronavírus, mas também informações verdadeiras isoladas ou que são precariamente construídas e explicadas (mais comum em Whats-App), não traduzindo a gravidade ou seriedade que aquele tema representa. Nesse contexto, entrevistamos a cientista Rejane Grotto de Botucatu, ela em si já é uma fonte confiável e robusta de informação, dada a sua formação e experiência. No caso ela é farmacêutica, docente do curso de Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia da Faculdade de Ciências Agronômicas (FCA), UNESP de Botucatu. Ela atua tanto no ensino quanto na pesquisa em diferentes áreas, sendo uma delas a Biologia Celular e Molecular aplicada à virologia e imunologia, que também fez parte das suas pós-graduações. E o mais importante, ela é a responsável pela implementação do diagnóstico molecular para o SARS-CoV-2 no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu. Vamos então conversar um pouco sobre prevenções, testagens e perspectivas sobre o novo Coronavírus. 

1) Você desenvolve projetos de pesquisa sobre monitoramento laboratorial de doenças virais como as hepatites B e C, AIDS e a febre Zika, certo? A biologia do novo Coronavírus (SARS-CoV-2) ainda não é tão conhecida como a desses outros vírus, mas o monitoramento em laboratório do novo Coronavírus já permitiu extrair importantes informações sobre a resistência e a virulência dele e que estão se atualizando aceleradamente. O que você destacaria hoje como prevenção e hospitalização do Coronavírus?

Sim. Toda minha linha de pesquisa é em virologia e imunologia aplicada, isso significa que estudo infecções virais como infecção pelo HIV, Vírus das Hepatites (B e C), ZIKV. Essas pesquisas podem investigar aspectos do próprio vírus como dinâmica viral, resistência, monitoramento, progressão e terapêutica empregada nas doenças. E também podem investigar aspectos do hospedeiro, por exemplo, interação células-vírus, polimorfismos genéticos com potencial para favorecer ou dificultar a instalação do vírus ou mesmo a progressão da doença.

O grupo dos coronavírus não é novo, nós tivemos infecções anteriores provocadas por vírus semelhantes como a SARS e MERS. No entanto, cada vírus é único e, embora muitas pesquisas estejam sendo conduzidas, muitas informações sobre o vírus e sua interação com o hospedeiro ainda são incertas. Infelizmente ainda não existem tratamentos ou vacinas para o novo Coronavírus, mas muitos estudos científicos estão sendo realizados nesse sentido. Antes de precisarmos dos hospitais, temos a prevenção e as melhores medidas preventivas no momento são as intervenções não farmacológicas como o isolamento social, a utilização correta de máscaras e os cuidados com os grupos de risco.

2) Na biologia molecular aplicada que é uma área em que você atua, a técnica de manipulação genética de CRISPR (em português, repetições palindrômicas curtas agrupadas e regularmente espaçadas) ainda é uma grande aposta para futuras doenças infecciosas? Ou ela não é tão precisa como se estimava há alguns anos? Na biologia molecular atual, há alguma técnica de manipulação genética que você destacaria como uma ferramenta promissora para futuras epidemias ou pandemias como a do Coronavírus?

Muitas pessoas têm a ideia equivocada ou exagerada a respeito de manipulação genética. Embora tenhamos todo um avanço tecnológico que nos permite realizar edições e manipulações genéticas, tudo isso deve ser visto com cautela e, obedecendo a legislação vigente. A técnica de CRISPR veio realmente trazer grandes progressos no que se refere à edição genômica e, no caso do coronavírus ela está sendo utilizada para desenvolvimento de testes diagnósticos. Nos EUA, por exemplo, foi desenvolvida uma metodologia que utiliza a CRISPR para detecção rápida e precisa do SARS-CoV-2.

3) É motivo de orgulho para tantos botucatuenses saber que o Laboratório de Biologia Molecular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu da UNESP é um dos poucos laboratórios já credenciados no Brasil para a realização dos testes de COVID-19 pelo Instituto Adolfo Lutz, além do próprio instituto. E você é a principal responsável pela implementação do diagnóstico molecular para o SARS-CoV-2 no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu. Quais são os principais desafios para isso se tornar uma testagem em massa? A falta de insumos para realizar os testes?

O processo de implementação de uma nova rotina diagnóstica é sempre desafiador e, ainda mais em uma situação de pandemia como esta. Tivemos muitos fatores que nos favoreceram como uma estrutura já montada vinda de projetos de pesquisa na área de virologia, recursos humanos já treinados para atuar em rotinas diagnósticas em virologia e, rotinas para outros vírus já implementadas e, em pleno funcionamento. Hoje temos uma estrutura física e de recursos humanos preparada para realização de uma grande quantidade de testes. Se houver uma boa programação, a obtenção de insumos não será mais uma grande dificuldade, pois muitas empresas nacionais já estão se mobilizando para produção de insumos no país sem necessidade de importação, o que agilizaria muito o processo. Desta forma, estamos preparados para atender a demanda necessária nesse momento tão delicado para o país.

4) Você disse em reportagem para Agência Fapesp que “com um diagnóstico mais ágil é possível testar também quem teve contato com pacientes infectados e, assim, tentar conter a transmissão do vírus no interior paulista”. A PCR (reação em cadeia da polimerase) é a técnica genética preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para identificar o novo Coronavírus. No caso esse diagnóstico mais ágil que você mencionou seria usando também o teste PCR em massa ou você está aberta a usar outros testes? Há pesquisadores da USP que consideram os testes rápidos que são licenciados pela ANVISA como testes com baixa sensibilidade, podendo dar resultados falso-negativos. Você concorda?

A PCR é a metodologia considerada padrão ouro no Brasil e no mundo uma vez que detecta o material genético do vírus e, consegue detectar muito precocemente a presença do vírus, muito antes que nosso sistema imunológico tenha tido tempo de reconhecer o patógeno e desencadear uma resposta. Os testes rápidos vem sendo alvo de bastante discussão atualmente. Eles detectam a presença de anticorpos que o organismo formou ou deveria ter formado quando existiu contato com o vírus. No entanto, a sensibilidade é uma questão bastante complicada de ser discutida. Segundo a própria ANVISA, “não é possível utilizar esta informação isoladamente como diagnóstico”. Assim, na minha visão, seria bastante arriscado utilizar esses tipos de testes para o diagnóstico do SARS-CoV-2 nesse momento de pandemia e, o mais seguro é o diagnóstico molecular sempre associado à avaliação clínica e exames complementares.

Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP . Professor Escolar da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Leandro Magrini é biólogo pela USP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais pela UFU. Doutor em Biologia Comparada pela USP. Também é Especializando em Jornalismo Científico no Labjor/UNICAMP.

Para ler os demais artigos deste colunista, acesse o hotsite.