A crueldade do tempo

O fato é que pouco pode ser feito para alterar o movimento dos anos

Por Oscar D’Ambrosio*

A passagem do tempo tem uma crueldade em si mesma. As pessoas, em algum momento, passam a ter a consciência de que serão substituídas e de que deixarão de desempenhar algumas de suas funções. Esse sentimento de vazio existencial é explorado com delicado lirismo pelo cineasta Tom Quinn, no filme “Colewell”.

A atriz Karen Allen, em um memorável desempenho, dá vida a uma sexagenária responsável por um posto de correios na cidade norte-americana que intitula a obra. O conflito se instaura quando ela recebe a notícia que o local será fechado e lhe são postas duas opções: passar a trabalhar em uma cidade próxima ou se aposentar.

As alternativas não lhe são agradáveis, pois implicam em mudanças que não quer enfrentar. Mas, gradativamente, percebe que não há como lutar contra o tempo e contra as instituições. A comunidade até tenta defender o funcionamento do estabelecimento, considerado um ponto de encontro e de socialização, mas as respostas oficiais são frias, técnicas e financeiras.

O fato é que pouco pode ser feito para alterar o movimento dos anos. É necessário se adaptar à nova situação. Tudo isso é mostrado com sobriedade, sem melodrama, com uma progressiva consciência da protagonista de que aceitar e se ajustar é o melhor caminho, embora nem sempre o mais agradável.

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

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