A morte e suas festas

A história se repete, e precisamos aprender com ela as lições de esperança e resiliência

Por Carlos Magno Fortaleza*

*Prof. Carlos Magno C. B. Fortaleza – Depto de Infectologia, Dermatologia, Diagnóstico por Imagem e Radioterapia da FMB/Unesp

Consta na “Encyclopedia of Plague and Pestilence” que uma doença súbita acometeu em 1348 o exército de Tártaros que fazia cerco ao porto de Caffa, na Criméia. Os corpos apodreciam em vida. Em desespero, os militares bateram em retirada, não sem antes catapultar os corpos das vítimas com objetivo de contaminar a cidade.

É mais provável, porém, que os ratos presentes no acampamento tenham invadido Caffa e desta forma introduzido a Peste Negra na Europa. A progressão da doença foi rápida, primeiro para os portos no Mediterrâneo, depois para o interior do continente. Estima-se que entre 25% e 75% da população tenha morrido. O gado andava solto pela mata, as plantações floresciam sem ninguém para colhê-las. Foi um período de grande dor e desespero. Os filósofos e médicos buscaram na conjunção dos astros e nos pecados da humanidade a razão da catástrofe. De forma interessante, proliferou em todos os países um tipo de representação, chamada Danse Macabre ou “Dança da Morte”. Embora as imagens variem, geralmente mostram esqueletos dançando e tocando instrumentos em torno de um cadáver ou de doentes.

Façamos um salto de alguns séculos. Vivemos a maior calamidade pública desde a II Grande Guerra (para alguns, desde a Gripe Espanhola de 1918). Em meio às centenas de milhares de mortes, as redes sociais representam ad nauseum o “meme do caixão”, uma gravação de um enterro festivo em Gana, que começou a circular em 2015, tendo sido posteriormente acrescentada a trilha musical (uma música eletrônica chamada “Astronomia 2K19”). Neste breve vídeo, homens dançam enquanto transportam o caixão durante um cortejo funeral.

Não pretendo aqui discutir a comemoração da morte, tal como ocorre no México e em Gana. Interessa-me a propagação das imagens. Em tempos de dor e angústia, a alegoria irônica é uma das estratégias de sobrevivência. Ao arrancar risos, nos anestesia e alimenta o nosso ânimo. A Danse Macabre foi o “meme do caixão” medieval. Mesmo significado, mesmos resultados. A história se repete, e precisamos aprender com ela as lições de esperança e resiliência.

*Prof. Carlos Magno C. B. Fortaleza – Depto de Infectologia, Dermatologia, Diagnóstico por Imagem e Radioterapia da FMB/Unesp