Crônicas abismais do confinamento- I Eternas e etéreas

O afastamento dos homens nos aproxima de outros mundos mais diversificados

Por Chico Vilella*

Cá me encontro, imerso na ausência das pessoas e na presença da solidão.

 Mergulho num outono tenebroso, estação que tanto apreciava por suas tardes inabaláveis penduradas como frutos antes da queda e seus ares mornos e amenos. Agora o outono prenuncia o inverno gelado que será seguido pela primavera do inferno. 

Mas antes que me vejam como arauto do trágico, proclamo que as carências das delícias da vida de fora me levam a tratar meu lugar como um boteco generoso. Faço meus drinques com lentidão e capricho, com as serventias à mão, na cozinha. Um drinque invariável como devem ser as coisas eternas de quem aspira à simplicidade, com um quinto de laranja, mineral com gás e vodca, suficientes para dois copinhos pequenos, e que deverá ser repetido algumas vezes ao longo do dia. Refeito por um Sísifo que insiste em subir a montanha sabendo que a pedra vai rolar sempre, mas imaginando que de cada vez a sabedoria estará mais ao alcance.

Leio e escrevo com fúria e volúpia para tentar superar a parca inspiração. Ouço músicas, do rádio e das caixas de som e passarinhos. E ouço e reverencio e converso e me inquieto com o silêncio lá de fora e aqui de dentro da cabana onde a intimidade me confronta e me intimida. Vez em quando dá vontade de ser escritor de silêncios. 

Agora sou parte do exílio que me foi imposto. Um ser que se debate entre o passado vigoroso e o futuro incerto. Vou descobrindo uma pessoa que afinal não conhecia direito. Ele me olha como se fosse íntimo de minhas idéias desgarradas. E a cabana vai adernando como arca de sonhos.  

Não me distraio na cozinha pois é preciso o intangível e inatingível zen ser aureolado de atenção e concentração. O espírito original exige o fazer impecável e amor e humor e, assim, prazer. A conquista da serenidade é mais relevante que a entrega às emoções, mesmo que o prato seja tão complexo como um pato com arroz vermelho ou tão trivial quanto um ovo no bolo de vento. As panelas e caçarolas de barro, ferro, pedra e aço aguardam quietas a chegada das surpresas a que darão abrigo, e assim ensinam lições aos peregrinos do longo escorrer lento da vida. Ao contrário, a água na chaleira ferve como certas tormentas da alma.

Mas a minha cozinha esconde segredos que podem comprometer a atenção búdica que devemos dedicar a tudo. Os ladrilhos quase sempre se riscam de nanomanchas que se somam de pouquinhos e fazem surgir carreiras de imagens pequenas de inacreditáveis inexistências.

Claro que de início ignorei, afinal eram manchas e eu vinha vendo manchinhas idosas ao redor do olhar. Mas as mínimas manchas continuavam em movimento. Encantei-me com a tenacidade das nanomanchas e decidi olhar para elas, olhar o inimigo no âmago dos seus olhos. Sem óculos, míopes entendem, vi que deviam ser pequenas formigas. Mas o sentido de pequenas esvaiu-se com a invisibilidade minúscula daqueles seres. Talvez fossem mutantes em processo de transição, ou seriam produto de algum cientista do mal que inventava nanodrones para espionar nossas casas por dentro? Delírios de solitários são imprevisíveis. 

Mas logo vi que eram seres do planeta por suas predileções. A mais declarada eram os restinhos de laranjas e suas partes que esperavam a hora do corte e o incorporar-se aos drinques. Outra eram suas trilhas nas caminhadas pelas beiradas e cantos e ângulos de superfícies, mesas, pias, talheres, xícaras e copos e o que mais se atrevesse a interpor-se em seu caminho de obstinação.   

O afastamento dos homens nos aproxima de outros mundos mais diversificados. O mundo dos homens é monótono e perverso com suas guerras sem fim, suas misérias de maioria, suas desigualdades escandalosas, seu controle e repressão dos cidadãos, seu culto à mentira, sua falsificação da história.

Aqui, na vila de seis casas em que moro só, entre árvores e de frente a uma fazendinha com gansos perus pavões galinhas coloridas d’angolas de carreirinhas cães e gatos em harmônica convivência cavalinhos espertos entre suas mães e pais, o mundo dos homens é apenas uma lembrança de mau gosto. 

Sinto às vezes que a vida me olha com certo sarcasmo, mas o exame mais aproximado de suas volutas tem a capacidade de me convencer de talvez não. Na casa 1 moram mãe, Ana, e duas filhas; uma se chama Niina. Tenho três filhas e um filho; a mais nova se chama Anna, apelido Nani, entre outros. 

Na casa 2 mora Fernanda, nome do maninho que se foi cedo. Na 3 vive Alexandre, nome do irmão acima de mim em seus quase 80. Na 4 moro eu, Francisco José de documentos, Chico para o mundo. Na 6 mora Rogério, nome do irmão abaixo de mim. Rogério tem uma cachorra e um cachorro, que atende por Chico. Fui o primeiro a chegar, os outros vieram depois aos poucos. Não! Não é uma treta da vida; seria uma espécie de augúrio? E o que diz do augúrio o oráculo? 

Mas o que mais atrai nossos sentidos é a profusão de passarinhos. Passei a desenvolver uma nova ciência em que o anthropos não mais ocupa o centro. Um ser que aniquila o planeta enquanto dizima seus inimigos não pode ser eco nem sequer à grandeza do sistema solar, quanto mais à majestade de uma galáxia com cem bilhões de astros ou à infinita maravilha além da compreensão de um universo com bilhões de galáxias e suas formas e proporções áureas.

E não tenho mais dúvida de a criação mais bela desse azul planeta serem as aves e os passarinhos. Até mesmo a mais pouco atrativa, o urubu, ou ouroblu, desenha seu vôo com a graça de garças e sobe mais alto que todas. Os passarinhos são a mais exata criação da civilização planetária.

Aristóteles classificou os humanos como bípedes implumes. Cometeu dois erros. Um foi pensar que pelos são superiores a penas. Outro foi exposto pelo filósofo genial e irreverente Diógenes, ao arrancar as penas de uma bípede galinha e perguntar sobre sua humanidade.

 Como todos os animais, passarinhos têm voz, mas nenhum modula seus cantos e trinados com inspiração e variedade dignas de Mozart. Sim, têm perninhas finas, mas pernonas não harmonizam com a leveza do vôo de asas de cores angelicais que transparecem à luz do sol. 

As palavras mais essenciais ao mundo dos humanos talvez sejam ética, magnanimidade, compaixão, princípios e pensamentos que poderiam tornar menos pavoroso o desfile de horrores dos poderes. 

A observação dos passarinhos desvenda suas palavras mágicas entre canduras, ternuras e suavidades. Queria ter nascido passarinho. 

Nota ao leitor – Acho que escrevi só umas dez crônicas na vida. Meu território é geopolítica internacional, e, nas amargas e tristes horas atuais, também as catacumbas da política nacional. Três desses textos, chamados Bolsonário I, II e III, podem ser vistos no site Notícias Botucatu: abra o site e clique em Colunas no menu, selecione Chico Villela.

*Chico Villela é escritor e editor, escreve sobre Geopolítica e Política Internacional. Contato pelo e-mail chicovillela@gmail.com

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