Uma breve reflexão sobre a Crítica na sociedade

O filósofo Mário Sergio Cortella bem pondera: “cuidado com gente que concorda contigo o tempo todo”

Por Vinícius Nunes Alves*

Aposto que você, leitor ou leitora, já passou por alguma situação na escola ou na faculdade onde seus colegas combinaram de não fazer perguntas após a apresentação um do outro. Mas qual é o problema de ter perguntas a fazer, pedir esclarecimentos, ou mesmo de ter dúvidas sobre algo que assistiu? Certa vez, uma professora de história, colega de uma escola estadual de Botucatu onde já atuei, me disse que nós, brasileiros, “fomos ensinados a ser educados, mas uma educação sem contestação”.

Mas ela não me disse isso se colocando em uma posição conformada ou acomodada. Como uma pessoa crítica que é, ela apenas quis dizer que também é possível sermos educados e contestadores ao mesmo tempo. Cada nação tem uma história e uma cultura que influenciaram e influenciam a forma como seus cidadãos lidam com a crítica. Por exemplo, muitos brasileiros que recebem diversas (e polidas) críticas sobre seu trabalho podem sair achando que os críticos não passam de “cricas”. Enquanto que muitos alemães ou japoneses se receberem as mesmas críticas, eles podem encarar como algo normal e aceitarem bem por já pertencerem a sociedades normalmente mais rígidas.  

Concordo que o mundo já tem muitos críticos, e que o mundo está precisando mais de entusiastas, poetas, etc. Mas a crítica bem feita sempre tem sua importância. Em alguns casos, a crítica pode evitar até acidentes, conforme o livro “Fora de Série: Outliers”, do jornalista britânico Malcom Gladwell. Esse livro traz exemplos de acidentes de avião que foram evitados graças aos copilotos “ousarem” contestar (com embasamento e cordialidade) a condução dos pilotos em voos. Mas esse tipo de situação é mais improvável de acontecer em sociedades mais arredias a críticas, principalmente quando se trata de pessoas com diferentes níveis de hierarquia.  

Separei alguns trechos interessantes sobre crítica para pensarmos:

1) “A palavra ‘crítica’ vem do grego, que quer dizer ‘separar’, ou ‘quebar’. Num certo sentido, é isso que o crítico faz: quebra e separa em pedaços o que ouve, para analisar cada um. […]
Para que serve a crítica? A crítica existe para ajudar as pessoas a entender melhor o que ouviram. Serve para avaliar se o que um músico fez está ou não de acordo com o que queria fazer. Serve para os próprios músicos terem uma resposta pensada sobre o trabalho deles. Serve para tornar a música mais interessante do que ja é.”

Fonte: O livro da Música. De Arthur Nestrovski.

2) “Os críticos. É uma praga que eu nunca pude entender. Se eu fosse um grande cirurgião, e um homem que nunca tenha lidado com um bisturi, não seja médico… venha explicar os erros da minha operação, o que você acha? O mesmo acontece com a pintura.”

Fonte: O túnel. De Ernesto Sabato.


3) “É inútil criticar alguém, já que ele inevitavelmente se colocará na defensiva e tentará se justificar. […] Conseguimos resultados muito melhores nas relações sociais ao elogiar de forma inteligente em vez de censurar.”

Fonte: Nietzsche para estressados. De Allan Percy.

4) “Dentre todas as qualidades de um cientista, a capacidade crítica é uma das principais. Serve inclusive para que ele consiga propor novas ideias. A partir do momento que o aluno começa a ser reprimido por manifestar críticas, a maioria tenderá a evitá-las. Esse é um dos maiores crimes contra uma mente questionadora. […] Popper reforça que a crítica é fundamental, devendo ao cientista buscar mais a negação de suas ideias do que as confirmações. Alega que as confirmações apenas mantêm as ideias num caráter provisório porque sempre dependerão da não ocorrência de negações do futuro. As negações, por outro lado, decorrem de fatos já ocorridos e, portanto, dão mais estabilidade ao conhecimento do futuro.”

Fonte: Ciência: da filosofia à publicação. De Gilson Volpato. 

E aí, os trechos serviram como sementes reflexivas sobre a crítica? Eu, particularmente, sou mais adepto de fazer críticas do que de não fazê-las, especialmente se eu estiver no meio acadêmico. O risco de me expor e de estar eventualmente errado ou incompleto faz parte. Nesse caso, uma nova leitura mais refinada ou uma retratação caberá a mim, mediante argumentos válidos e melhores do que os meus.

O filósofo Mário Sergio Cortella bem pondera: “cuidado com gente que concorda contigo o tempo todo”.  Além disso, podemos encarar o desafio de criticar de forma inteligente, educada e, em muitos casos, priorizar a fala indireta. Segundo o livro “A mente organizada: Como pensar com clareza na era da sobrecarga de informação”, do neurocientista e psicólogo cognitivo Daniel Levitin, uma maneira de ajudar um grande número de seres humanos a viver próximos uns dos outros é através do uso de uma linguagem de não confronto, ou atos de fala indireta.

Os atos de fala indireta não dizem aquilo que de fato queremos dizer, mas o insinuam. Em outras palavras, a fala indireta pode ser considerada um ato lúdico, um convite de cooperação verbal, do tipo ‘você compreende o que estou dizendo?’  

*Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP.