O poço interior

Talvez seja uma representação de nossos medos mais internos

Por Oscar D’Ambrosio*

O filme espanhol “O Poço” (“El Hoyo”, no original) acabou por funcionar para muitos como uma metáfora do atual momento que a humanidade passa para combater o novo coronavírus. Talvez seja uma representação de nossos medos mais internos. A narrativa ocorre em uma distopia. São mais de duzentas celas verticais com duas vagas em cada uma.

Todo tipo de pessoa habita o local, desde criminosos até os que se voluntariaram em troca de alguma recompensa posterior. Todos têm cama, pia, banheiro e um inusitado sistema de alimentação: uma base de concreto circula de cima a baixo. É um elevador sobre o qual a administração coloca um banquete. Quanto mais próximo do térreo, mais é possível comer.

A alegoria é evidente. Os que estão nos primeiros andares se empanturram; e os que estão nos últimos morrem literalmente de fome ou comem seus colegas de cela. Mensalmente, os confinados são trocados aleatoriamente de andar. O diretor Galder Gaztelu-Urrutia deixa assim claro que não é recompensas ou punições por bom ou mau comportamento.

Cabe ao protagonista ser a voz dissonante. Tenta ajudar uma mulher que diz procurar a filha e, inspirado pelo livro Dom Quixote, de Cervantes, tenta despertar bons sentimentos nos participantes da empreitada. Fracassa, mas a aparição final da menininha procurada pela mãe desesperada parece ser uma esperança. Ou seria apenas um sonho num mundo caótico?

Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Coordena o projeto @arteemtempodecoronavirus e é responsável pelo site www.oscardambrosio.com.br

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