O quão válidas e proveitosas estão as aulas remotas da Educação Básica durante o distanciamento social? Parte I

Abandono da escola se intensifica entre os estudantes mais pobres, e esse é mais um exemplo de que os efeitos do novo coronavírus (Sars-CoV-2) não se dão de forma tão democrática

Por Vinícius Nunes Alves*

A pandemia de Covid-19 é um problema de saúde pelo menos tão sério quanto a economia e sem resolver ou pelo menos controlar a pandemia, não podemos recuperar efetivamente a economia. Além disso, a crise    sanitária global afeta outros setores fundamentais da sociedade, entre eles a educação. Há quem considere que esse período de distanciamento social representa uma perda irreversível para a  Educação Básica no Brasil. Nem mesmo a quantidade mínima de dias letivos pode ser assegurada em 2020 e Medidas Provisórias no Congresso Nacional nesse sentido já estão em tramitação. O Ministério da Educação (MEC) lançou documento com orientações genéricas para a condução das aulas remotas durante a pandemia. Dentre as recomendações para o Ensino Fundamental II e o Ensino Médio das escolas públicas e privadas, estão: i) priorizar atividades práticas e estruturadas; ii) pais e responsáveis dos alunos não substituem o papel do(a) professor(a); iii) distribuir vídeos educativos. Mas o quanto isso está ocorrendo na realidade prática? 

Uma matérica recente da BBC Brasil traz relatos de estudantes sem equipamento ou conexão à internet, famílias em situação econômica cada vez mais frágil e dificuldades contínuas de professores para manter o engajamento de alunos nas aulas remotas. A mesma matéria ainda ressalta que o abandono da escola se intensifica entre os estudantes mais pobres, e esse é mais um exemplo de que os efeitos do novo coronavírus (Sars-CoV-2) não se dão de forma tão democrática. Diante desse contexto, decidi ouvir o que alguns professores da Educação Básica têm a dizer. A amostra é bem pontual, mas já traz algumas visões e experiências de relevância. Compartilho aqui uma entrevista que realizei com três fontes que são professores da Educação Básica: 

– Fonte 1 (F1) é Bruno Augusto representando a área de humanas no Ensino Médio pela diretoria de ensino de Botucatu da rede estadual (São Paulo);

– Fonte 2 (F2) é MTD representando a área de exatas no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio em escola da rede privada de Botucatu;

– Fonte 3 (F3) é Thiago Silva representando a área de biológicas no Ensino Fundamental II pela secretaria municipal de educação da prefeitura de São Paulo.

1) Basicamente, qual o objetivo das atividades propostas nesse período de pandemia? O seu objetivo como professor(a), pelo menos teoricamente, é diferente do objetivo da coordenação ou da gestão da escola onde trabalha?

F1: Primeiro, acredito que o objetivo de cada professor e da coordenação sempre visa o acesso dos estudantes aos conteúdos de cada disciplina, mas o maior problema atual é a preocupção com a evasão escolar. As dificuldades dos alunos e das famílias são similares aos dos professors. Cada professor percebe o momento atual de pandemia e isolamento de maneira distinta. Sofremos estresses constantes com medo de ficarmos doentes com a Covid-19, mas também pela adaptação da nossa casa ao trabalho. Temos que fazer quarentena para garantir a saúde de todos e ficamos muito tempo dentro de casa, sendo agora nosso ambiente de vivência, lazer, afazares domésticos e trabalho, tudo em um só lugar, o que causa muita insatisfação e conflito. No caso do ensino, temos que utilizar nosso notebook e celular constantemente, o que geralmente sobrecarrega nossos aparelhos, ainda mais no meu caso que estão defasados e lentos. 

F2: Acredito que o objetivo do professor seja sempre garantir os meios que possibilitem a aprendizagem do aluno. Mesmo em meio a pandemia que enfrentamos, penso as minhas práticas pedagógicas para esse objetivo. Os objetivos de professores e gestores são distintos na sua totalidade, enquanto os dos professores pretendem garantir os meios para aprendizagem, os dos gestores se ampliam para além dessa questão, contemplando de maneira mais abrangente a complexidade da ação educacional. Os    gestores precisam considerar não só os meios para a aprendizagem, mas também as condições materiais, psicológicas e físicas que professores e alunos necessitam para efetivar a aprendizado destes. Ainda, na singularidade da rede particular de ensino, cabe a gestão escolar zelar pela saúde da instituição que está sob seus cuidados. As dificuldades que surgem dessas diferenças ocorrem quando qualquer um dos lados prioriza um objetivo em detrimento do outro, nesses casos as “engrenagens” não se encaixam e o processo de aprendizagem se torna deficitário.

F3:  Na escola em que atuo, na rede municipal da cidade de São Paulo, o alinhamento da gestão, coordenação e equipe docente conflui para uma mesma proposta. Após algumas reuniões, chegamos a conclusão que nosso papel nesse momento, como profissionais da educação da rede pública, é fornecer um espaço de estudo e suporte para nossos alunos, com roteiros de estudo e atividades que sigam também a proposta da secretaria de educação, mas sem caracterizar aula ou ensino a distância, visto que nada substitui o contato com nossos estudantes. Nossa equipe tem claro que o ensino a distância não é uma opção viável, em especial para o ensino fundamental, além de ser muito excludente, pois presume o acesso à internet, equipamentos e ambiente de estudo tranquilo e apto na casa dessas crianças e adolescentes.

2) Em sua disciplina e em sua vivência, o quanto rendeu trabalhar conteúdos curriculares e transversais por meio de plataformas de ensino e recursos tecnológicos ao longo desse primeiro semestre?

F1: Antes de tudo, nosso normal é a sala de aula, e para responder sua pergunta temos que lembrar que nós nos preparamos para aulas presenciais, o que nos possibilita uma dinâmica próxima dos estudantes. Por isso, elaborar aulas em que o olhar e a socialização na sala não é possível, fica muito complicado. Fica mais desafiador sem uma interação presencial apenas imaginar situações onde o conteúdo da matéria ganha centralidade, onde a didática do professor está satisfatória e onde as dúvidas dos alunos podem surgir e serem respondidas. E na hora virtual isso praticamente não acontece. As plataformas digitais não estão dando o suporte necessário porque ocorreu uma desorganização na rotina dos alunos. Muitos não podem acessar a chamada por video com o professor, pois estão trabalhando para ajudar em casa, ou também porque não tem bom celular e muito menos computador ou notebook, e se eles têm, são de baixa capacidade também.

F2: Esse ponto pode ser olhado por duas perspectivas que deveriam apresentar sinergia para potencializar o aprendizado do aluno, porém, elas se comportam quase de maneira antagônica. Uma delas é cumprir o conteúdo estipulado nos documentos oficiais para cada série, nesse olhar houve rendimento significativo, pois o trabalho remoto permite o professor avançar quase que na velocidade que ele desejar, uma vez que nessa modalidade de ensino os alunos podem ter pouca interação interpessoal. A outra, é o conteúdo que deve ser apreendido pelo aluno em determinada série, nesse caso não identifico avanço significativo. Trabalhar na modalidade de ensino remoto permite ao aluno se omitir das interações pessoais que existem em uma sala de aula. Ao fazer isso, fica mais fácil para os alunos negarem a participação nas atividades didáticas propostas pelo professor, pois ele não tem a necessidade de lidar com a presença de outro ser, apenas pode desligar a sua webcam e se refugiar a frente de seu computador. É um novo desafio para nós, professores, lidar com situações dessa natureza. Não sabemos ainda como superar essa questão.

F3: Como professor de Ciências do Ensino Fundamental sinto uma grande falta em poder acompanhar experimentos e orientar o processo de pensamento científico, pensar o que é ciência e como se faz ciência. Fomos orientados a seguir um plano de estudos chamado “Trilhas da Aprendizagem” durante este período remoto. No entanto, este material não respeita o planejamento anual dos professores, e alguns conteúdos são muito rasos ou sem conhecimentos prévios necessários. Por exemplo, realizamos atividades sobre ecossistemas e Mata Atlântica sem antes conversar sobre os biomas que compõem o Brasil, e em uma outra atividade sobre germinação ainda nem sequer tínhamos visto uma introdução sobre o reino das Plantas. Em contrapartida, temos autonomia para alterar algumas coisas e isso é bom. 

3) Você conduz aulas ao vivo junto com os alunos ou grava as aulas e exercícios e envia para eles? Qual dos modos você tem mais retorno? Poderia dar exemplos de apresentações que você fez (esquemas, gráficos, áudios ou vídeos) e que surtiram maior adesão e motivação da turma em sua disciplina?

F1: Já fizemos aula ao vivo na escola, com baixa adesão. Já tentamos o Google Sala, infelizmente também com pouco acesso dos alunos. No caso do whatsapp, conseguimos mais proximidade através dos grupos das turmas, e alguma interação acontece, mas nesse caso são muitas conversas e chats que deixam sobrecarregada as conversas, no sentido da dificuldade de responder e organizar alguma aula. Esse não é o melhor meio, embora tenha alguma relevância. 

F2: Trabalho das duas formas, dependendo da turma, uma ou outra estratégia é melhor aceita. Normalmente os estudantes preferem estratégias que os colocam na condição passiva, o quanto menos ele se comprometer na estratégia, melhor. A aula ao vivo tem mais aceitação, pois nela o aluno precisa apenas ouvir o professor, sem mesmo se comprometer a lançar um questionamento. Já o vídeo gravado, normalmente vem junto a uma série de indagações ou tarefas para os alunos realizarem e muitos deles se sentem desconfortáveis com isso. Nessa pandemia tenho explorado algumas estratégias combinadas que dificilmente eu usaria em sala de aula presencial, uma delas é combinar instrumentos de síntese de conhecimento com vídeos descritivos que direcionam a estruturação e a interpretação de dada atividade.

F3: Como disse, não estamos preparando aula, e sim roteiros de estudos semanalmente. Eu pessoalmente costumo trazer um texto complementar ao Trilhas de Aprendizagem, alguma tirinha ou charge que traga reflexão ou novas questões. Segue o exemplo de Ciências:

Bom dia queridos alunos e alunas, espero que estejam todos bem e tomando os devidos cuidados dentro de casa.

Na última semana começamos a tratar do assunto da puberdade, e essa semana continuaremos com esse tema. Com a leitura das páginas 100 até 103 e realizando os exercícios, vocês vão saber um pouquinho mais sobre os hormônios e órgãos do corpo que estão relacionados com as mudanças do corpo nesse período cheio de emoções da vida adolescente.

Nessa parte do trilhas existem muitas palavras novas e pode ser um pouco desafiador, então me mandem mensagem e respondo o mais rápido possível.

Abraços e bons estudos.

E aí prezados leitores e leitoras, estão gostando? Continuarei estas entrevistas na minha próxima matéria. Confiram!

*Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP. 

Sobre Flavio Fogueral