O quão válidas e proveitosas estão as aulas remotas da Educação Básica durante o distanciamento social? – Parte 2

Algumas visões e experiências que três professores vocacionais têm sobre a qualidade das aulas remotas

Por Vinícius Nunes Alves*

Olá, leitores e leitoras. Na matéria anterior foram apresentadas algumas visões e experiências que três professores vocacionais têm sobre a qualidade das aulas remotas na Educação Básica durante o distanciamento social. Conforme combinado, nesta matéria darei continuidade a isso, compartilhando a segunda metade da seção de perguntas e respostas das entrevistas (questões 4, 5 e 6). Lembrando que as fontes (professores) são:  

– Fonte 1 (F1) é Bruno Augusto Alves da Silva representando a área de humanas no Ensino Médio pela diretoria de ensino de Botucatu da rede estadual (São Paulo);

– Fonte 2 (F2) é MTD representando a área de exatas no Ensino Fundamental II e no Ensino Médio em escola da rede privada de Botucatu;

– Fonte 3 (F3) é Thiago Silva representando a área de biológicas no Ensino Fundamental II pela secretaria municipal de educação da prefeitura de São Paulo.

4) A maior parte dos alunos está conseguindo acompanhar as atividades que você propõe? Você tem conhecimento se o acesso à internet, o “clima” familiar em casa e outros fatores estão limitando a participação dos alunos?

F1: Alguns alunos simplesmente não nos respondem e relatam conflitos em casa. Outros usam celular para fazer atividade, mas dividem o aparelho com familiares.

F2: É difícil precisar o acompanhamento do aluno, uma vez que as interações durante as aulas ao vivo são poucas e raras. A referência que tenho é a devolução que o aluno faz das tarefas enviadas, mas mesmo essa devolução é falha para realizar essa análise. Mas também é difícil analisar o envolvimento do aluno na  realização da atividade, pois não tenho como saber se o aluno realizou sozinho, se ele recebeu auxílio, se ele transcreveu algo pronto de alguma fonte ou mesmo se um adulto realizou atividade para ele. É claro que o professor identifica alguns desses casos, mas até que isso aconteça, muito já se passou e a certeza de A ou B nunca será certa. Em relação aos fatores que limitam a participação dos alunos, o mais relatado é a dificuldade de concentrar nas aulas e nas atividades estando em casa. Muitas vezes, o quarto e a cozinha se tornaram os lugares de estudos, lugares que desde sempre existiu certo grau de liberdade de comportamento, e agora a situação é outra, agora é preciso estudar onde antes se brincava, descansava, e não havia preocupação.

F3: Sim, com certeza são fatores limitantes. Respondo aos e-mails individualmente e infelizmente poucos alunos conseguem interagir por e-mail, acredito que o ambiente de sala de aula é insubstituível. Vale ressaltar ainda que a porcentagem de alunos que tem acesso em nossa rede é muito baixa, não chegando a 20% de nossos alunos.

5) Qual é o limite da cobrança com os estudos no isolamento? Considerando que estamos passando por um período atípico e delicado, e que cada aluno(a) e cada família tem suas particularidades na forma de enfrentar as dificuldades da pandemia, é justo esperar o mesmo retorno de todos os alunos?

F1: Não conseguimos ainda ter a dimensão da realidade de cada família. Por esse motivo acredito que podemos levar a uma maior evasão com uma cobrança excessiva, sem ter a medida exata da compreensão da dificuldade real do estudante com sua família. Temos de lembrar que o Brasil tem muitas diferenças sociais e pobreza, a situação de cada casa muda muito, mas de maneira geral, as condições não são as mesmas para todos. Temos que repensar o modelo de ensino e avaliação. Escolas com novos currículos que pensam as habilidades dos alunos de forma interdisciplinar, respondem melhor aos novos desafios da sociedade, e já temos exemplos assim em alguns lugares, com novas práticas. Nesse momento de pandemia devemos pensar outra forma de socialização na escola. 

F2: Não há muito o que cobrar dos alunos durante o ensino remoto na educação básica, pois você tem pouco retorno do real desenvolvimento que o aluno teve, dessa forma, uma cobrança grande se torna incoerente e injusta com os avanços reais que o aluno teve durantes as atividades pedagógicas. A ideia que impera é a de abaixar o obstáculo para diminuir a dificuldade para o aluno. O professor pode não concordar com essa ideia, mas acaba tendo que ceder a essa estratégia. Na verdade, não é preciso o professor ponderar se ele deve ou não flexibilizar determinada avaliação, pois a decisão pela flexibilização é imposta a ele por posições hierárquicas maiores na escola. O trabalho remoto do professor retirou ainda mais a autonomia do professor em conduzir seus processos de ensino e aprendizagem.

F3: Na rede municipal de São Paulo fomos orientados a não utilizar esse período para avaliação. Vamos saber como as coisas vão ser decididas, talvez, a partir de Setembro ou Outubro. Infelizmente as políticas públicas são impostas pela secretaria ou pela prefeitura sem quase nenhum diálogo com a base dos profissionais da educação.

6) A avaliação formativa ajusta, constantemente, o processo de ensino e o de aprendizagem para adequar-se à evolução dos alunos, mediante a observação permanente. Mas com encontros virtuais, o quanto essa avaliação formativa fica comprometida?

F1: No começo da pandemia, a Secretaria de Ensino correu para tentar organizar atividades a fim de preparar a formação dos professores nesse novo contexto. Foram muitos documentos e vídeos orientando de forma confusa. Criaram um aplicativo chamado Centro de Mídias São Paulo para formação dos professores em ministrar aulas para os alunos, e esse material também está disponível no Youtube hoje. Estão cobrando dos professores, mas não fornecem as ferramentas necessárias e o diálogo também é insuficiente. Sem consultar os professores, não tem como avançar bem.

F2: Fica comprometida de forma significativa. Virtualmente, um dos desafios para os professores é conseguir acompanhar a evolução real dos alunos. Um exemplo, alunos que no trabalho presencial demonstravam dificuldades para elaborar raciocínios, compreender lógicas de resolução, interpretação dos exercícios e dificuldades de desenvolvimento algébrico, ‘de um dia para o outro’, passaram a devolver as atividades todas resolvidas, apresentando todos os cálculos efetuados e chegando as respostas corretas dos exercícios. Isso demonstraria uma evolução significativa no desenvolvimento cognitivo do aluno, porém, todo esse pseudodesenvolvimento se deu sem ele apresentar nenhum questionamento, dúvida, lógica-falhas ao professor. É como se em um passo de mágica, ele tivesse ao alcance das suas mãos todo o conhecimento que ele precisa para responder as atividades que os professores encaminham. Como ajustar a avaliação de um processo de aprendizagem se você não garante que esse processo foi construído pelo aluno? Não dá!

F3: Esse processo todo está comprometido em nossa rede neste momento, o enfoque por agora é apresentar roteiros de estudo para os alunos e dar apoio/suporte para as famílias.

*Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP.