Bolsonário IV – Saúde pública e Amazônia

A crise aguda da saúde pública e a progressão da destruição dos ecossistemas e dos valores humanos

Por Chico Villela*

Pequeno dicionário de bolso com palavras e relatos de fatos contemporâneos. Esta edição IV retoma temas já tratados nos anteriores, embora com novas visões; afinal, a estupidez e o non-sense mantêm-se intactos desde a origem do desgoverno ensandecido de Mr B.

A crise aguda da saúde pública e a progressão da destruição dos ecossistemas e dos valores humanos, com destaque para as concepções e práticas indígenas associadas à preservação da Amazônia, reúnem-se neste B IV.

Antecedentes – O Brasil político pós-golpe contra a presidente Dilma Roussef e a ascensão do obscurantismo adormecido durante anos em partes expressivas da população uniram-se com a eleição de Mr B e seus seguidores e apoiadores. Transparecem as tendências nitidamente autoritárias e de essência fascista, presentes na história nacional desde a chegada dos europeus, eles mesmos conquistadores e assassinos profissionais de povos e etnias e dedicados ao saque de riquezas minerais e naturais e daquelas produzidas na abundância de terras aptas à agricultura e pecuária.

Em paralelo, os conquistadores foram levados a instalar os chamados sistemas de justiça para dirimir as querelas entre os possuidores de riquezas. A escravidão de povos africanos fortaleceu os desníveis do abismo social estabelecido entre os poderosos e os negros, indígenas e pobres de toda ordem. Assim destacaram-se as diferenças entre os sistemas chamados anglo-saxões e os ibéricos, nos quais nunca existiu a chamada letra fria da lei, acima das conveniências.

A conquista lusitana teria facetas quase inexistentes nas demais colônias européias latino-americanas. Merecem destaque: a proibição da produção de bens que pudessem competir com os oriundos da metrópole, leia-se Portugal e Inglaterra, e a da instalação de centros de conhecimento como escolas e universidades e da disseminação desses conhecimentos por gráficas, até a vinda em 1808 dos parasitas da família real e seu séquito de inúteis. Os ricos mandavam seus filhos para estudos na Europa, o que explica a proliferação de profissionais ligados ao direito, única fonte estimulada de formação. 

Desse modo, o sistema judiciário passou a ter desmedida importância na vida nacional, crescendo e se estabelecendo de forma atrofiada para restringir-se aos pleitos dos donos do poder. Negros e pobres nunca tiveram acesso, situação que hoje perdura sem grandes diferenças. 

Destruição da economia – Em tempos mais recentes, a destruição da economia brasileira apresenta aspectos notáveis. Em foco internacional, avulta a ação das forças subterrâneas, das sabotagens e ações encobertas dos serviços de inteligência imperiais e das forças econômicas internacionais contra as energias que se despertavam na então poderosa presença brasileira em novos campos industriais. 

Essa história vem de longe. A indústria naval foi desmantelada. A indústria bélica foi levada à asfixia: muitos se esquecem ou não sabem que o Brasil passou a ter importância como exportador de tanques, carros blindados e outros produtos dedicados à defesa e à guerra. A indústria farmacêutica nacional teve posição destacada há poucas décadas; hoje é feudo de filiais da Big Pharma. A indústria alimentícia abastecia o país de modo satisfatório; hoje só há filiais de multinacionais produtoras de venenos químicos e porcarias. Restaram alguns fiapos da indústria têxtil e certos campos menores que não interessam ao capital financeiro.

A indústria ferroviária deixou de existir a partir da infeliz miopia do governo JK que desmantelou a rede nacional em troca da irrefletida ampliação de redes de estradas asfaltadas. Os carros de novas linhas do metrô de São Paulo ostentam placas de sua origem de fabricação na Coréia do Sul. Registrei em outro texto: levar soja para portos em caminhões, e não em trens com centena de vagões, é o mesmo que distribuir água em barris na cidade de São Paulo.

Com tudo isso o país mergulhou no poço sem fundo econômico-financeiro da quase exclusiva produção de insumos básicos e commodities, a exemplo de soja e cana, minério de ferro e carne animal, sujeitos a preços estabelecidos fora do país. O desvio de bilhões da produção efetiva de riquezas para aplicações financeiras torna ainda mais fundo o poço. E a armadilha perversa do controle da dívida interna por poucos afortunados agrava este quadro. Mais recentemente, a Embraer, que ameaçava de frente as gigantes voadoras com seus excelentes aviões médios, foi entregue à Boeing, empresa em estado agudo de falência. 

Lawfare – Mas, mesmo vinda de longe no passado, essa depredação teve reforço recente com uma operação internacional que, a par de aniquilar grandes empresas do país com presença forte no cenário internacional, a exemplo da Odebrecht, concorreu para degradar o próprio sistema judiciário. Falamos da chamada Operação Lava Jato, que hoje se sabe articulada com serviços de inteligência e órgãos de governo dos EUA e com parte da grande mídia, com destaque para a infame rede Globo. 

Os gângsters da Lava Jato tentaram apoderar-se de 2 bilhões 500 milhões de uma multa imposta pelo governo dos EUA à Petrobrás que seriam destinados a uma ‘fundação’ a ser gerida por eles mesmos, sem mesmo o conhecimento do Ministério Público do qual nem órgão são, não passam de uma força-tarefa. A razão é óbvia: a fortuna deveria servir para alavancar seu projeto político e reforçar seu desprezo pelos fundamentos jurídicos de seus atos.

Mas a principal face dessa iníqua operação foi a retirada de cena de atores políticos de esquerda para abrir trilhas em que circulam livremente as forças ao serviço do grande capital. Primeiro foi o falso impiche de Dilma, sob alegações vazias, coordenada com manifestações populares estimuladas por movimentos armados a partir de concepções como a de ‘revolução colorida’, disseminadas pela CIA em mais de uma dezena de países. Depois foram as delações dirigidas contra Lula, o candidato que venceria as eleições de 2018, finalmente condenado com falsas provas em processos fabricados que pareciam inspirados em perversos processos stalinistas. O personagem principal da pantomima terminou ministro da Justiça do governo desprezível de extrema-direita. Uma aula de como se constrói lawfare. 

Amazônia e alinhamento – A ocupação desordenada da Amazônia, com destruição de vastíssimas áreas de floresta, vem batendo recordes históricos. A prática criminosa atende aos interesses de mineradoras internacionais e do setor agropecuário do país. E condena à morte por doenças disseminadas as populações indígenas que são os guardiões da floresta. O desgoverno fascista vem acenando a corporações com a promessa de ‘liberação’ dessas áreas indígenas para suas operações. 

O leitor deve estar se perguntando: mas e as forças armadas? Não têm a missão constitucional de defesa da integridade do território? E de suas populações? A resposta se acha no alinhamento automático da tropa e da política externa do país com os ditames dos EUA. Como mostra a entrega da vital base de lançamentos aéreos de Alcântara aos militares estadunidenses. Ou a repetição dos slogans trumpistas contra a China, nosso maior parceiro comercial e de investimentos. 

 O Brasil voltou a ser colônia, sob mando e controle de capitais internacionais e dos interesses do império, com a entrega de seu patrimônio público e particular a esses capitais. O retalhamento do maior patrimônio público do país, a Petrobrás junto com sua maior riqueza, o petróleo do pré-sal, e sua destinação a esses capitais conta com o beneplácito das forças armadas. Basta ver quem é o ministro da economia, um rato pinochetista bilionário e corrupto conhecido e desprezado em todo o mundo que promete vender “até o palácio do Planalto”. 

Não existe mais missão constitucional. Aliás, o lançamento da candidatura desse enlouquecido à presidência ocorreu em 2014, durante uma cerimônia na Academia Militar de Agulhas Negras, a Aman. O desgoverno é obra das forças armadas e um projeto de estado-maior, e hoje esses antinacionais fardados ocupam mais de 7 mil cargos na máquina estatal, sem contar filhos, parentes e apaniguados ‘colocados’ em posições sempre bem remuneradas. Nem mesmo durante a ditadura 1964-1985 houve tal situação: a modernização das telecomunicações, por exemplo, foi obra sua. Bem ou mal, havia um projeto de país; hoje, isso é quimera.

A questão da saúde pública – A solução da questão da saúde pública junta no mesmo pacote a biodiversidade nacional, a maior do planeta; a reestruturação da indústria; a dinamização dos centros de pesquisa e desenvolvimento; a identificação e organização do conhecimento popular e indígena sobre uso de plantas para prevenção e cura de doenças; a articulação das universidades públicas; a pesquisa exaustiva e sem fim sobre as possibilidades da flora nacional para usos medicinais; o fortalecimento dos serviços públicos gratuitos voltados à saúde. Entre as metas está a produção de alimentos e remédios baratos e eficazes, dedicados à saúde de toda a população, ao contrário dos venenos químicos da Big Pharma, caros, para poucos e letais.

O mapeamento da biodiversidade brasileira é tarefa de décadas, mas é preciso dar partida rápida na busca dos seus resultados. A descoberta e a expansão dos equipamentos, métodos e técnicas de produção fará do Brasil o detentor único de norrau e tecnologia para todo o mundo. Tudo deve ser feito de acordo com o espírito da vacina anticovid que a China em breve distribuirá para o mundo inteiro, a preços de custo, ao contrário da Big Pharma e dos Bilgueitis que vão ganhar bilhões com suas futuras vacinas para elites. 

O fortalecimento do SUS, maior empreendimento de saúde pública do planeta, será outra meta necessária. Saúde para todos, saúde para pobres, medicina voltada para doenças de pobres, de países pobres. Cuba, país de governo socialista, dá o exemplo: medicina de prevenção e educação para a saúde. O contraexemplo desta condição deve estar claro hoje com os EUA, país capitalista de rapina sem medicina pública: a China, com 1 bilhão 400 milhões de habitantes, teve menos mortes pelo vírus que a cidade de Nova York. E o Vietnã, país de governo socialista, detém recorde mundial: zero morte, nenhuma morte. O Brasil avança, neste momento em que escrevo, para 100 mil mortes, indesejável segunda posição entre todos os países. E a curva sobe.

Enquanto isso, o alucinado continua fazendo propaganda da miraculosa cloroquina, que mata tanto quanto o covid. O Brasil detém hoje estoque de cloroquina, fabricada pelos laboratórios do exército, para 18 anos. Pena que o prazo de validade seja de apenas dois anos. Não há preocupação: nós, o povo, pagamos o prejuízo. Tanto quanto os salários, maiores que de todos os trabalhadores, dessas inúteis forças armadas. 

Variedades

Fanatismos – A história humana está repleta de fanáticos de todos os matizes e suas seitas, quase sempre de alto grau de perigo. Nos tempos contemporâneos essa ameaça tornou-se norma comum. O analista Wayne Madsen chegou a cunhar uma expressão para os fanáticos que empunham a bíblia cristã: cristofascistas.

Os golpistas bolivianos contra o grande presidente Evo Morales excederam-se no papel: a autoproclamada nova presidente Jeanine Añez posou no palácio de governo com uma imensa bíblia nas mãos e afirmou que iria erradicar as práticas “satânicas” dos indígenas redimidos da miséria e de preconceito secular por Evo. É uma constante entre os fanáticos: os divergentes são embaixadores das forças do mal; o bem é posse exclusiva dos seus adeptos.

É curioso que os fanáticos atuais, a maioria praticantes de seitas evangélicas, abundantes no Brasil e entre os apoiadores do fascista delirante no poder, finquem base no mesmo livro que os católicos, que abominam. As religiões e práticas populares como umbanda e candomblé são perseguidas e seus templos, atacados, e alguns pais de santo, assassinados como encarnações do demônio.

Outra característica desses representantes do bem supremo é a mais deslavada picaretagem. Um deles anunciou feijões que curavam covid19, cada grão vendido a R$ 1 mil. Mas o campeão foi outro pastor que anunciou a venda de máscaras invisíveis: os compradores a preço de ouro recebiam em casa uma caixa vazia. Interpelado, o vigarista declarou que a máscara era invisível mesmo, e que o ‘fiel’ deveria ter fé e crer no embuste.

Outra característica muito presente entre esses respeitáveis senhores é sua ligação profunda com o narcotráfico. O senador gringo de extrema-direita e evangélico Marco Rubio é uma das figuras políticas mais destacadas desse grupo: é lobista de oligarcas e lordes do narcotráfico latino-americano. Um evento recente escancara essa íntima aliança. Um grupo de traficantes do Rio enfeixou cinco comunidades contíguas e declarou-as comunidades evangélicas.

O narcotráfico se faz presente também na política de combate aos inimigos dos EUA. O Taleban, movimento afegão de fanáticos islâmicos, inimigos dos gringos, uma vez no poder exterminou as plantações de papoula, fonte do ópio e da heroína. Depostos, a produção voltou aos seus índices históricos, e hoje, com aplausos e apoio da CIA, o Afeganistão voltou a ser o maior produtor de heroína do mundo, com mais de 90% da produção. Mais de 10 mil estadunidenses morrem por ano de doses excessivas de heroína; na época do Taleban no poder eram menos de 1 mil. Os fanáticos islâmicos são os únicos no mundo que não aderem ao narcotráfico. Rara exceção. 

E uma notável marca dos fanáticos é a adesão a crenças situadas além das ciências. O patético e idiota fanático Olavo de Carvalho, guru de dezenas de membros do governo brasileiro, propaga papagaiadas com ar douto e sério e encontra seguidores fiéis até mesmo entre militares. É o propagandista da teoria da terra plana. Nisso faz contraponto ao guru alemão Hans Horbiger, que pregava a teoria da terra oca habitada por adiantadas civilizações, e que teve entre seus seguidores ninguém menos que Adolf Hitler.

Idas e voltas – Um filme policial inglês da década de 1960 tinha uma cena curiosa. Um bando de gângsters planejava um grande assalto e discutia para onde fugir com a grana. Após debates, entram em acordo que o melhor país do mundo para abrigar a turma era o Brasil. Não por acaso, o chefe do chamado ‘grande roubo do trem‘ [The great train robbery foi o nome desse outro filme], que rendeu grossa bufunfa aos assaltantes, Ronald Biggs, fugiu com a riqueza para o Brasil, aqui se casou e teve filhos, tornou-se cidadão para escapar da extradição e frequentava alas da sociedade chique do Rio. 

O adepto do guru Olavo de Carvalho, ex-ministro Abraham Weintraub, de triste memória, com medo de ser preso a mando do STF, fugiu para os EUA. Há poucos dias foi seguido por outro adepto do guru, o propagador de fake news Allan dos Santos, também abrigado na terra de Al Capone.

Como diria o guru, que também fugiu para lá há anos e mora hoje no estado de Virginia, o mundo é do exato tamanho de uma tampinha de cocacola.

Deixe eles em paz – A história da Justiça brasileira é tão repleta de manchas e nódoas quanto a recente da Lava Jato, aliás parte arquiimunda desta mesma história. Alguns lances recentes escancaram fatos repelentes.

O miliciano Fabrício Queiroz, pombo correio da distribuição das verbas de rachadinhas do filho número 1 do abominável, após permanecer por mais de um ano escondido pelo advogado do número 1 e da família, acabou sendo preso em nome de seu passado bandido. O presidente do Superior Tribunal de Justiça (superior a quê, afinal?) mandou o bandido para casa, junto com a esposa que se achava foragida, sob alegação de que o pobrezinho tinha câncer e precisava de cuidados . 

Para tanto, ficou de plantão sem fazer nada, apenas esperando a hora de agir como fez. Nesse período, negou mais de 600 pedidos semelhantes. Seus críticos, entre eles colegas do STJ, lembram que entre seus planos sujos figura a chance de ser indicado para ministro do STF, na vaga de Celso de Melo próxima, e para tanto precisa agradar ao abominável e reduzir o ímpeto do bandido em abrir o bico e contar histórias.

O procurador geral da Justiça, Augusto Aras, agindo no interesse do delirante de afastar Sérgio Moro das eleições de 2022 (se conseguir chegar lá), determinou que a Lava Jato, com concordância do ministro Dias Toffoli, do STF, abrisse seus aterrorizantes arquivos de dados sobre milhares de brasileiros e seus processos nunca transparentes. Aras é o chefe dos procuradores. 

Então vem o espúrio ministro Edson Facchin, do mesmo STJ, e revoga a decisão do colega, blindando assim a Lava Jato e mantendo os dados sob sigilo. O regimento do STF proíbe um ministro de anular decisões de outro; apenas o plenário pode fazê-lo. Mas quem se importa com as leis nesse meio de canalhas, némês?

Assim como com os militares, não há a menor necessidade de acusar esses superiores e supremos magistrados. Eles se desmoralizam sem parar.

*Chico Villela é escritor e editor, escreve sobre Geopolítica e Política Internacional. Contato pelo e-mail chicovillela@gmail.com

**Os artigos assinados por colunistas não traduzem necessariamente a opinião do Notícias Botucatu.