A experiência de algumas educadoras particulares durante o distanciamento físico

Na educação temos o conceito de professores, mas também existe um conceito de sentido próximo

Por Vinícius Nunes Alves*

A pandemia de Covid-19 é uma crise sanitária global que precisa ser levada a sério até o fim. Tal crise afeta diversos setores fundamentais da sociedade, entre eles a educação formal. Mas a escola ou a universidade, espaços formais de educação, não são os únicos lugares ou modos em que professores ensinam e aprendem ao ensinar na interação com alunos. Todos conhecemos diversas pessoas com interesse e que se organizam financeiramente e em tempo para cursar aulas particulares de algum instrumento musical, de algum ritmo de dança ou linha de teatro, de algum conteúdo preparatório (geralmente exatas)  para vestibular ou concurso, etc.     

Na educação temos o conceito de professores, mas também existe um conceito de sentido próximo, porém mais amplo, que é o de educadores. Estes podem ensinar (e aprender) com sua vocação em diversos contextos. Dentre os educadores, há aqueles que ministram aulas particulares de algo e que também devem sentir os efeitos da pandemia, ou mais especificamente, do necessário período de distanciamento físico (ou “isolamento social”). Pensando nisso, decidi entrevistar três educadoras botucatuenses (fontes) que, entre outras atividades profissionais, seguem ministrando aulas particulares e aceitaram compartilhar um pouco das suas experiências (e adaptações) conosco:    

– Fonte 1 (F1) é Érica Nali Ribeiro Costa, fisioterapeuta, especialista em Neurologia de Adulto – Unicamp. Atualmente atua com reabilitação neurofuncional e ministra aulas de Pilates. Também é proprietária do Studio Movimente Pilates, com experiência profissional de 10 anos; 

– Fonte 2 (F2) é Iris de Souza, licenciada em matemática pela Unesp (campus de Bauru) e ministra aulas particulares de Matemática e Cálculos de nível superior;

– Fonte 3 (F3) é Monica Leoni Maffei, musicista e pedagoga que ministra aulas particulares de flautas e voz. É bacharel em flauta transversal pela Faculdade Paulista de Artes, em São Paulo, com mestrado em pedagogia musical pela Universidade de Frankfurt, Alemanha. Também é formada em MPB e Jazz pelo Conservatório de Tatuí.

1) Para você como educadora, os objetivos das atividades propostas neste período de pandemia são os mesmos de tempos ‘normais’ (sem pandemia)?

F1: Neste tempo de pandemia e com o início da quarentena, as atividades no Studio foram suspensas temporariamente por ser uma situação nova e para que assim mantivéssemos todos em segurança. Desta forma, foi preciso inovar e adaptar o formato das aulas que passaram a ser online para aqueles pacientes que aceitaram e puderam realizar o pilates à distancia. Para alguns pacientes foi imprescindível dar continuidade porque muitos deles realizam com objetivo de reabilitação decorrente de alguma patologia existente, ou seja, não poderiam de forma alguma ficar sem o atendimento. Foi mantida a conduta (proposta de tratamento) a fim de atingir os objetivos e não perder aquilo que já se tinha conquistado como a melhora do quadro de dor, que é em muitos casos, a maior queixa.

As alterações foram somente na forma como executar os exercícios, prezando sempre pela segurança do paciente, no studio são realizados com auxílio de equipamentos, materiais específicos para cada movimento. Com as aulas online utilizamos objetos de fácil acesso e todos têm em casa: cadeira, cabo de vassoura, elástico, pacotes de mantimentos (arroz, açúcar) para servir como pesos, entre outros. Foi preciso usar a criatividade!

F2: Faço aqui uma ressalva que logicamente a minha visão está voltada apenas para as disciplinas que leciono que são Matemática, Desenho Geométrico, Raciocínio Lógico e disciplinas da área de Cálculo Diferencial e Integral para o nível superior. O meu objetivo geral de proporcionar conhecimento ao aluno se mantém, fazendo com que ele siga ativo com o hábito de estudar e com a tentativa de aprendizado. Porém, na minha opinião, como professora de matemática, esta é uma área complexa para se desenvolver e adquirir aprendizado nessa nova estrutura de ensino à distância. Então, mesmo se mantendo o objetivo geral, o aprendizado tem uma grande defasagem. Principalmente se for um aluno que esteja cursando o período escolar, período no qual o conhecimento matemático é construído diariamente.

F3: Acho que além do objetivo normal dos tempos sem pandemia que era o aprendizado do instrumento ou canto; agora, durante a pandemia, existe também a preocupação com o bem estar dos alunos. De passar para eles, por exemplo, uma música mais animada ou exigir mais estudo para manter uma ocupação, ou o oposto, exigir menos, quando a pessoa está se sentindo sobrecarregada com a situação. Enfim, acho que precisamos de uma flexibilidade maior neste momento, tendo que perceber virtualmente o que está se passando com  alunas e alunos.

2) Você perdeu o vínculo profissional com alunos e alunas durante estes meses de pandemia? As aulas diminuíram? 

F1: O vínculo profissional-paciente é sempre uma questão importante a ser tratada, em tempos considerados normais. Em uma rotina de atendimento é essencial que o profissional esteja próximo de seu paciente não só fisicamente falando, é preciso entendê-lo e enxergá-lo como um todo, não basta somente conhecer e dominar as teorias, existem questões biopsicossociais que acabam interferindo de forma importante no quadro do paciente. No tempo atual de pandemia, o vínculo se manteve estabelecido para que fosse possível dar continuidade na questão da confiança entre profissional e paciente, fazendo este se sentir confortável e seguro com a nova situação e que, de alguma forma, eu estaria ali para ajudar realizando as orientações necessárias. 

F2: Sim, o vínculo profissional foi perdido. Com esse novo formato de ensino a distância, alguns alunos deixaram de ver uma necessidade momentânea de um acompanhamento particular. O formato de avaliação mudou em algumas instituições, tanto a nível escolar, quanto a nível universitário. A mudança é no sentido de que não há prova presencial nessa situação de pandemia, o que influenciou na decisão de deixar o acompanhamento particular para quando voltassem as aulas presenciais nas escolas e universidades e, consequentemente, voltassem as provas presenciais.

As provas de concursos públicos e vestibulares foram adiadas a longo prazo e só há pouco tempo que foram definidas as novas datas dos vestibulares, e alguns novos concursos estão surgindo. Contudo, tudo é a longo prazo, então todos esses fatores influenciaram na evasão de alunos.

F3: Tive uma aluna que desistiu por não ter se adaptado ao esquema online. Tem algumas alunas, que são Mães e profissionais, e que estão sobrecarregadas neste momento e ficam um período sem ter aulas. Alguns alunos estão passando por dificuldades financeiras, mas continuam fazendo aulas como bolsistas ou pagando menos. E também tenho alunos que começaram a fazer aulas durante a pandemia! 

3) Você conseguiu adaptar suas aulas remotamente (online) junto com seus estudantes ou manteve aulas presenciais com os cuidados de higienização e sem contato?

F1: As aulas foram adaptadas para o formato online no período de 5 meses (Março – Julho). Retornamos no ínício de Agosto, seguindo todos os protocolos de segurança e realizando atendimentos individuais (1 profissional e 1 aluno por horário). Demos intervalo suficiente para realizar a sanitização de toda a sala entre um paciente e outro, obrigatório uso de máscaras em todo tempo que estiver no Studio e mais algumas orientações que passamos para aqueles que nos procuram. 

F2: Essa situação atual foi um baque muito grande para mim. De alguma forma, eu tinha que encontrar um meio de continuar próxima ao meu trabalho. Então, eu resolvi dedicar o meu tempo em projetos de longa data, os quais alunos sempre me pedem. Investi em um Instagram profissional, postando principalmente exercícios resolvidos, desde o nível fundamental até o superior, contando com uma resolução bem didática para ajudar os estudantes nesse atual momento. Também tenho me preparado e renovado meus estudos para oferecer aulas de Álgebra Linear, uma disciplina universitária. Além de aulas de Física que é o que os alunos mais me pediam. Em breve, eu vou começar a postar também conteúdos referentes a essas novas disciplinas, e isso é o que mais me motiva, saber que poderei ajudar e abranger mais estudantes nessas novas áreas do conhecimento. Pensando nesses tempos de pandemia e de distanciamento físico, também estou fazendo um curso de capacitação que prepara professores para o formato do ensino à distância.

F3: Consegui adaptar as aulas remotamente sim, e no geral tem sido bem satisfatório. A única questão que ficou realmente prejudicada foi a possibilidade de tocar junto com os alunos, ou de eles poderem tocar juntos, uns com os outros. Mas, de certa forma, consegui resolver esta questão com gravações que faço e envio para eles.

4) Que tipos de aulas surtiram motivação e rendimento maiores com a maioria dos perfis de alunos que você tem? Pode dar exemplos?

F1: As aulas de Pilates são muito dinâmicas e motivadoras, por se tratar de um Método bastante completo de trabalho corporal que inclui corpo e mente. O profissional precisa estar atento ao seu paciente o tempo todo da execução dos movimentos, fazendo as correções necessárias. Isso nos dá um feedback dos pacientes bastante interessante e, assim, a aula é sempre divertida e agradável. Com o novo formato, conseguimos essa dinâmica da mesma forma, ainda que à distância, diversificamos a aula com as adaptações dos materiais e dos exercícios propostos. Quando não foi possível realizar de uma forma, fizemos de outra, prezando sempre pela segurança do paciente. Se tornou um momento de descontração esse tempo de aula online, era onde o paciente se desligava das notícias ruins e se conectava consigo mesmo, mantendo sua saúde física e mental. 

F2: Como disse, houve evasão de alunos temporariamente. Então estou aproveitando para fazer cursos de capacitação para ensino à distância, e também estudando novas disciplinas para oferecer aulas.

F3: Eu pensei sobre essa pergunta, mas não cheguei a nenhuma resposta clara para ela.

5) A avaliação formativa ajusta, constantemente, o processo de ensino e aprendizagem para adequar-se à evolução dos alunos, mediante a observação permanente. Você considera que o período de pandemia comprometeu sua avaliação formativa, seja por dificuldades logísticas ou psicológicas?

F1: Quando se trata de atendimento na área da saúde, principalmente na fisioterapia, é complicado definir um tratamento à distância se o contato físico, a avaliação nunca aconteceu. Neste período em que estive teoricamente afastada dos meus pacientes, não foi prejudicial pelo fato de já conhecê-los e já terem passado pela avaliação, estavam em tratamento antes de tudo começar, assim foi mais fácil dar continuidade. Prejudicaria sim, no meu ponto de vista, se fosse o caso de um paciente novo que estivesse chegando até mim no período da quarentena, certamente iria comprometer o meu trabalho caso aceitasse atendê-lo no formato online, o que é inviável. É imprescindível que o fisioterapeuta avalie pessoalmente seu paciente para que assim identifique, através das técnicas e do conhecimento, o que de fato é necessário para o tratamento.

F2: Eu acredito que essa migração do ensino presencial para o ensino online acarreta em algumas mudanças. Dentre elas, o tempo de uma aula que, por ser online, deve levar um tempo a mais do que o habitual. Isso porque é perdido aquele contato pessoal entre professor-aluno em que o professor já podia ir vendo como o aluno estava se saindo na resolução dos exercícios. Para mim, era mais perceptível o aprendizado do aluno durante a aula quando esta era presencial. Alguns alunos têm muita dificuldade em aprender através de uma aula online, o que também leva à necessidade de mais tempo. Enfim, tudo o que é novo na nossa vida tem o seu tempo de adaptação e desenvolvimento. Tanto para o professor quanto para o aluno é uma questão de tempo e perseverança para se adaptarem a essa nova realidade de ensino, e assim poder extrair dela o melhor resultado possível. 

F3: Posso dizer que o som transmitido online não tem a mesma qualidade de quando estou junto com os alunos, não consigo perceber as sutilezas dos sons. Principalmente nas notas mais agudas e graves da flauta, bem como as sutilezas da qualidade do som da voz, dos alunos de canto. Por outro lado, este fator tem possibilitado que eles se tornem mais independentes, tendo que observar melhor o próprio som.

*Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP.