Miniconto do assobio

Sempre encontrava, em meio à desordem aparente, uma unidade harmônica que resultava das contribuições díspares e caóticas

Por Chico Villela*

Eu conto porque estava lá e vi e ouvi.

Pessoa era instrutor de cursos de assobio, muitas turmas se somavam em variados lugares e consagravam seus saberes ao melhor assobio, sem concursos, apenas seus sons de raiz. Pessoa imaginou então um encontro imenso, de centenas de alunos assobiadores, cada um com foco na sua melodia e música predileta que mais lhe falasse ao coração. E ele iria fazer uma gravação revolucionária, colhendo centenas de músicas assobiadas de todos ao mesmo tempo e passando todas por análises eletrônicas. E daí nasceu a sua teoria da Harmonia de Fundo, um eco talvez do Big Bang e sua vibração de fundo.

Para sua surpresa e encanto, Pessoa constatou que, acima da algaravia e diversidade de sons, emergia do conjunto uma poderosa força de harmonia única, fato que ele havia encontrado até então apenas em composições de Mozart. Havia unidade de expressão, e notas de uma melodia atraente e macia se sobrepunha ao caos sonoro aparente.

A descoberta levou Pessoa a interessar-se por bandos canoros de aves e pássaros barulhentos. Andou pelo mundo gravando. E sempre encontrava, em meio à desordem aparente, uma unidade harmônica que resultava das contribuições díspares e caóticas.

A partir daí Pessoa sentiu-se livre para estender as conclusões da sua formidável descoberta aos fatos do mundo e ao vasto mundo da ciência. Pessoa notava há tempos que nunca havia encontrado nada em suas andanças que fosse exatamente igual a outra coisa, uma folha jamais se igualava em todos os detalhes a outra folha da mesma árvore, um fruto era único entre todos os outros também únicos. 

Um dia, teve uma intuição enquanto contemplava um bando de tuiuiús. Se o universo era um espantoso criador de diferenças, se nada em tempo algum teria correspondente igual, então os elétrons, por exemplo, eram todos diferentes entre si, embora se comportassem segundo um modelo quântico uniforme. Nada era igual a outra coisa, o Universo não tinha essa capacidade, ali estariam seu destino e seus limites. A criação era a sua principal face nobre. 

Pobre Pessoa! A partir do anúncio da sua teoria, passou o Pessoa a ser ridicularizado em todos os meios científicos, da física quântica às rodas de filósofos e pensadores. Suas gravações revolucionárias foram ignoradas; suas descobertas musicais, desprezadas; sua pessoa, humilhada e achincalhada em público. Tempos depois, foi encontrado seu corpo à beira de um lago. 

Acionados seus equipamentos, surgiu sua última descoberta. Havia feito cinco mil gravações de cantos de sabiás, e anotado à margem de sua caderneta de campo: os sabiás são como o Universo, incapazes de repetir o mesmo canto duas vezes.

*Chico Villela é escritor e editor, escreve sobre Geopolítica e Política Internacional. Contato pelo e-mail chicovillela@gmail.com

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