Por que as enchentes, alagamentos e inundações urbanas acontecem?

Na natureza, a enchente (ou cheia) é um fenômeno natural, caracterizada pela temporária elevação do nível habitual

Por Patrícia Shimabuku*

A chuva intensa é um fator importante na revelação das incapacidades dos projetos e obras de drenagem urbana, contudo, culpá-la pelos problemas causados pela enxurrada e acúmulo de água não é sensato, mas sim, omissão. As enchentes, inundações e alagamentos nas áreas urbanas são manifestações naturais intensificadas pela ação humana e pelo formato de uso/ocupação/transformação do território (“de como a cidade foi construída”).

Na natureza, a enchente (ou cheia) é um fenômeno natural, caracterizada pela temporária elevação do nível habitual d’água do “córrego” (leito maior ou planície de inundação), devido ao acréscimo de volume (vazão do “córrego”) em consequência da chuva. Já a inundação, esse acréscimo de volume não se limita à calha principal do “córrego” (leito menor + leito maior), e sim, extravasa para áreas marginais, habitualmente não ocupadas pelas águas.

Concomitantemente ao fenômeno, o processo de escoamento superficial (popularmente conhecido como enxurrada) das águas da chuva até chegar ao “córrego” é mais lento (a presença de vegetação é uma barreira natural, isto é, diminui a velocidade da enxurrada) e com volume menor (infiltração de água no solo no caminho até o córrego). E por sua vez, o alagamento é o acúmulo momentâneo de água em um determinado local causado por ausência ou ineficiência do sistema de drenagem (bueiros e galerias).

A impermeabilização dos divisores de águas das microbacias hidrográficas (asfalto, edificações: prédios e casas, cimentação de quintais e caçadas etc.) impede a infiltração da chuva, aumenta o volume e a velocidade das enxurradas (fator que destrói as APP e compromete a sua regeneração, ocasionando o assoreamento).

A impermeabilização dos divisores de águas das microbacias hidrográficas (asfalto, edificações: prédios e casas, cimentação de quintais e caçadas etc.) impede a infiltração da chuva. Foto: Flávio Fogueral

Outro fator que agrava a situação, é a destinação incorreta de lixo em vias públicas. O lixo será carregado pelas enxurradas, que poderá obstruir bueiros e galerias, acumulará água e contribuirá para o aparecimento de doenças, como a dengue, além de, causar feiura da paisagem e poluição ambiental.

E, quando o volume do “córrego” voltar ao normal deixará um rastro de destruição, problemas socioeconômicos e ambientais. Ressalto que, o modelo de arruamento vigente não considera o conhecimento popular rural sobre as áreas de “morros”, a ocupação/uso com a aplicação das técnicas em curva de nível (a desconsideração que contribui para o deslizamento de encontras).

Em linhas gerais, o uso irregular do espaço geográfico da cidade está condicionado a administração municipal. A urbanização acelerada (não planejada + a especulação imobiliária + a justificativa de moradia social sem estudos de déficit imobiliário) leva a ocupação das áreas que naturalmente inundam e “topos de morro”, logo, um espetáculo de erros e irresponsabilidades.

A engenharia e a arquitetura natural dos corpos hídricos (rios e córregos) não foram projetadas para este “ciclo hidrológico urbano”, desta forma, obrigatoriamente, os profissionais técnicos, a gestão pública municipal, bem como os órgãos e as entidades ambientais e jurídicas deverão de maneira responsável, democrática e participativa decidir o melhor projeto urbanístico sustentável e ambientalmente seguro para o município.

Há uma imensidão de conhecimento sobre engenharia, arquitetura sustentável, hidrologia, geografia, geologia, física, ciências naturais, saúde pública e implicações legais, mas tudo indica que esses estudos e recomendações técnicas permanecem no campo teórico e não são utilizados pelas secretarias municipais. Não podemos deixar de mencionar, o vasto portfólio de notícias sobre os problemas urbanos pós chuvas. Sendo assim, como justificar a persistência destes problemas urbanos?

*Patricia Shimabuku é farmacêutica industrial, professora e ativista socioambiental. Para ler todos os artigos da colunista, acesse aqui.