Curso de Férias da Unesp Botucatu é exemplo de sucesso na interação entre Pós-Graduação e Ensino Médio

Curso terá sua 15ª edição e, devido à pandemia, será totalmente on-line 

Por Vinícius Nunes Alves*

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) de 2019 apontou um cenário preocupante em relação ao desempenho de estudantes do Ensino Médio (E.M.) no Brasil. Por diversos motivos, sejam estruturais ou da puberdade, é um desafio envolver adolescentes em situações de aprendizagem motivadoras, dinâmicas e significativas. Mas quanto ao Ideb, é só um índice que não resume toda a realidade.

Muitos estudantes do E.M., sejam da rede pública ou privada, se envolvem em situações de aprendizagem diferenciadas como anteriormente mencionadas. Um exemplo é a bonita performance deles em Feiras de Ciências que ocorrem anualmente nas escolas. Em Botucatu, também temos outro exemplo de interação de sucesso com estudantes de E.M. que vale a pena destacar, como o Curso de Férias da Unesp de Botucatu que ocorre há pouco mais de uma década nas dependências do Instituto de Biociências de Botucatu (IBB).

Nos últimos anos, esse Curso de Férias tem sido realizado com seis modalidades – Experimentando genética, Reprodução de A a Z, Investigando a vida das plantas, Virando a célula do avesso, Do amarelão às picadas de cobra: um passeio pelas doenças tropicais, e A ciência por trás das jaulas e gaiolas – atendendo cerca de 250 estudantes da rede pública de ensino de Botucatu e região. O Curso de Férias faz parte do Projeto “Difundindo e Popularizando a Ciência na UNESP: Interação entre Pós-Graduação e Ensino Básico” que entra como disciplina em diversos programas de pós-graduação do Campus de Botucatu, como Ciências Biológicas (Genética), Ciências Biológicas (Botânica), e Biotecnologia, Biologia Geral e Aplicada do IBB, Doenças Tropicais da FMB e Animais Selvagens da FMVZ.

Com previsão para 18 a 23 de janeiro de 2021, o curso terá sua 15ª edição e, devido à pandemia, terá um número de vagas mais limitado e será totalmente on-line pela primeira vez. Para tanto, muita organização com preparativos já está de vento em popa, incluindo treinamentos no Google Classroom e Google Meet, e o contato direto com estudantes de ensino médio (E.M.) indicados por professores da rede básica pública, especialmente da disciplina de Biologia. 

Nesta postagem, entrevistei Clelia Akiko Hiruma-Lima que é docente do Departamento de Biologia Estrutural e Funcional do IBB da Unesp Botucatu, além  de coordenadora da Rede Nacional de Educação e Ciência. Clelia vai ajudar a entendermos um pouco sobre os detalhes e o sucesso que esse curso tem com os participantes, sobre a importância que o mesmo tem na Rede e, também, sobre a expectativa em relação a esse formato on-line.

O Instituto de Biociências de Botucatu (IBB) da Unesp, Campus de Rubião Junior, realiza o curso de férias para estudantes do Ensino Médio da Rede Pública de Botucatu e região desde 2009. Esse curso faz parte do projeto “Difundindo e Popularizando a Ciência na UNESP: Interação entre Pós-Graduação e Ensino Básico”. Pode comentar um pouco com exemplos como se dá essa interação?

Clelia – As interações presenciais entre os estudantes do ensino médio (E.M.) da Rede Pública de Botucatu e região e os Pós-Graduandos da Unesp ocorria (antes da pandemia) de forma muito intensa durante 1 semana (manhã e tarde) na qual os estudantes do E.M. eram acolhidos durante 6 dias intensos de atividades voltados para a difusão científica. Normalmente os alunos que participam dos cursos de férias já ouviram falar sobre o curso por outros colegas ou através de seus professores das escola que os indicam para participar. Há diversas características entre os alunos indicados, como tímidos, interessados, curiosos, inventivos, esforçados e/ou motivados. Os alunos do E.M. têm uma vaga ideia do que será o curso de férias, pensando que terão aulas clássicas, como na escola, durante a semana. Mas geralmente o alunado se surpreende e vê que o curso de férias é bem incomum. Para começar, o curso de férias se baseia inteiramente no método científico e nenhuma pergunta é respondida de imediato pelos Pós-Graduandos, mas os alunos do E.M. são instigados a pensar e formular hipóteses sobre suas dúvidas, testar hipóteses, chegar a uma conclusão e no final divulgar seus resultados em uma feira de ciências. Portanto, apesar dos Pós-Graduandos não serem seus Professores que respondem a todas as perguntas, eles ensinam os alunos a pensarem sobre suas perguntas e os instigam a buscar suas respostas.

A expectativa dos alunos de Pós-Graduação também é muito grande em relação ao “método” utilizado no curso de férias, pois os mesmos aprenderam, ao longo de toda a vida acadêmica, a responder perguntas. Mas durante o curso de férias, eles (os pós-graduandos) precisam a aprender não responder aos alunos do E.M., mas sim devem fazê-los pensar sobre as respostas, inclusive através das suas vivências e das experiências do seu cotidiano. Portanto, ambos aprendem durante o curso de férias. Muitos dos Pós-Graduandos nunca tiveram experiências didáticas e essa é a primeira vez que eles se deparam com essa oportunidade e eles têm receio se vão gostar ou não dessa experiência. Em geral, todos saem bem motivados com a oportunidade de ensinar de uma forma “diferente”.   

Cada final de curso os estudantes pedem para ficar mais uma semana na Unesp para aprenderem e se divertirem ao mesmo tempo. Pela sua experiência com o curso, quais características e dinâmicas do curso mais contribuem para esse sucesso?

Clelia – O sucesso do curso de férias é devido a um conjunto de fatores. Inicialmente, temos monitores (Pós-Graduandos) extremamente dedicados e motivados em fazer um curso de férias inesquecível para os alunos do E.M. Em geral, os pós-graduandos se dedicam muito em elaborar jogos, peças de teatro, elaborar práticas para chamar a atenção dos alunos do E.M. Muitos dos Pós-Graduandos são ex-alunos do E.M. e se dedicam grandemente ao curso de férias porque essa foi uma grande oportunidade em suas vidas. Outro ingrediente importante é a linguagem que é utilizada ao longo do curso. Não existem aulas clássicas e todo o conteúdo é aprendido com base no conhecimento que os alunos do E.M. já possuem. Conhecimento esse adquirido na escola, em casa ou no seu cotidiano.

Assim, alunos do E.M. aprendem ciência utilizando como “recursos didáticos”: paródias de músicas, jogos, gincanas, peças de teatro e experimentos no laboratório. Isso torna todo o aprendizado mais divertido e dá mais sentido ao conhecimento. E finalmente creio que o grande sucesso do curso é, que ao final de uma semana intensa de atividades, os alunos do E.M. têm uma grande oportunidade de ensinar tudo o que aprenderam em uma grande feira de ciências. Esse momento de compartilhamento de conhecimento na feira de ciências entre todos os alunos que cursaram as 6 modalidades do curso de férias é uma grande consagração de todas as atividades. Em geral, creio que o grande sucesso desse curso de férias é a descoberta de jovens talentosos do E.M., que muitas vezes, nunca imaginaram suas vidas em uma Universidade ou mesmo em um laboratório de pesquisa. Mostrar para esses alunos do E.M. que a Unesp não é só um Hospital, mas também um espaço que eles podem ocupar e fazer parte dos seus sonhos é indescritível. 

Em janeiro de 2021, teremos a primeira edição do curso de férias totalmente on-line, com menos vagas e com todas as modalidades juntas (Experimentando genética, Reprodução de A a Z, Investigando a vida das plantas, Virando a célula do avesso, Do amarelão às picadas de cobra: um passeio pelas doenças tropicais, e A ciência por trás das jaulas e gaiolas). Quais são suas expectativas em relação a esse formato?

Clelia – A pandemia trouxe várias mudanças e temos que nos adaptar a elas. Temos grandes expectativas ao novo formato do curso de férias com atividades remotas e pretendemos oferecer maior interatividade entre os pós-graduandos e os alunos do E.M. Estamos em preparação para que esse curso de férias aconteça nesse formato sem que a essência dos cursos de férias seja perdida. Será um grande desafio e um grande exercício de adaptação que esperamos superar em 2021. 

Como atual coordenadora da Rede Nacional de Educação e Ciência, como você avalia a força da Unesp de Botucatu dentro da Rede?

Clelia – A Rede Nacional Leopoldo de Meis de Educação e Ciências reconhece o grande envolvimento, dedicação e empenho dos docentes e pós-graduandos da Unesp nessa rede. Neste ano, a Rede completa 35 anos de existência e ela é composta por grupos de pesquisadores de mais de 35 IES (Instituições de Ensino Superior) de ao menos 13 estados brasileiros. Desses grupos que compõem a rede, a Unesp é a instituição que certamente possui o maior número de grupos envolvidos na rede (6 grupos). E tudo começou em 2007 pelas mãos da Profa. Adriane Wasko e Prof. Cesar Martins que implantaram o curso de férias pelo Programa de Pós-Graduação em Genética. Desde então, o número de alunos do E.M. atendidos pelos cursos de férias só tem crescido a cada ano e hoje já temos mais de 2000 alunos que já realizaram os cursos de férias na Unesp. Desses 2000 alunos, mais de uma centena deles ingressaram em Universidades Públicas e Privadas em todo o Brasil. Temos certeza de que não somente os números representam o sucesso que esse programa tem na Unesp, mas todos os anos ouvimos os vários depoimentos de jovens que fizeram os cursos de férias e que tiveram suas vidas literalmente mudadas a partir de então com outras perspectivas de futuro. Nossas esperanças se renovam a cada curso.

Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU. Especializando em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP . 

*Este texto teve colaboração de Adriane Pinto Wasko