Paulo Gannam, inventor independente profissional

No imaginário popular, a invenção está sempre associada com algo original, concebida do zero

Vinícius Nunes Alves*

“Invenção” parece fruto de uma ação audaciosa. Assim, ser inventor também leva a crer que se trata de pessoa ousada, de mente aberta e criativa. No imaginário popular, a invenção está sempre associada com algo original, concebida do zero. Mas não é sempre assim. Podemos partir de algo que já existe e modificar, aprimorar, visando sua utilidade e até comercialização. Para Marcos Camolezi – filósofo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP) – basicamente a invenção resulta de um movimento da imaginação, da reestruturação e tem por consequência a amplificação dos potenciais da ação de algo.

Esta postagem é mais uma com o formato de entrevista “ping-pong” e vai introduzir questões como invenção, inovação e patente. Para tanto, vamos conversar um pouco com Paulo Gannam, que atua como autônomo há 11 anos, desenvolvendo inovações para potenciais investidores e criando ou melhorando produtos. Em outras palavras, Paulo é um inventor independente, principal forma como ele se autodenomina profissionalmente. Mas vale citar que, antes disso, Paulo fez bacharel em Comunicação Social (habilitação em Jornalismo) pela Universidade de Taubaté (UNITAU), pós-graduação em Dependência Química pelo Instituto de Psiquiatria da USP e já teve experiências como supervisor do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre outras.

Nesta entrevista exclusiva para o Notícias Botucatu, Paulo compartilha um pouco dos desafios e das conquistas que sua desafiadora vida de inventor já colheu e vem colhendo. 

Somos seres sociais e influenciáveis pelo meio que vivemos. O que motivou você a escolher trabalhar como um inventor independente?

Creio ter sido a minha personalidade irritadiça, inquieta e sensível aos defeitos das coisas, unida ao desejo de fazer com que elas melhorassem. No terceiro ano da faculdade, fiquei bastante irritado com o fato de os guarda-chuvas não serem capazes de proteger a metade da frente de nossos calçados durante as chuvas. Nessas épocas, você é obrigado a ficar trocando as meias e os calçados toda hora, não tem sossego. Veio então à mente a ideia de uma nova roupagem para aquelas antigas galochas de borrachas usadas em sítio que, de modo elegante e discreto, pudessem revestir a metade da frente de nossos calçados. Mas foi, como dizem, “fogo de palha”. Estava muito ocupado com outras atividades e não quis aprofundar o tema. Mas a partir daí a porteira se abriu e não parei mais de ter ideias. Um tempo depois, já com umas 50 armazenadas, me dirigi a um escritório de propriedade intelectual e, paralelamente, comecei a elaborar provas de conceito de algumas dessas ideias. Ou seja, um desenvolvimento simples e incompleto que antecede o protótipo, mas que fornece alguma ideia de como o produto resolve algum problema e permite que o empresário avalie e entenda melhor a sua proposta. 

Quais características e posturas você destaca como caminhos para se tornar um inventor autônomo capaz de gerar certo fluxo de renda?

Antes de tudo, é preciso estudar conceitos de “Startup Enxuta”, “Inovação de Valor” e “Modelo de Negócio”. Depois dessa “injeção de humildade”, antes de ficar gastando com entrada e manutenção de patentes, é fundamental fazer uma análise de mercado e de proposta de valor do produto inventado. São os resultados dessa análise que poderão convencer qualquer investidor. Quem tem ideias precisa se perguntar: Alguém vai querer comprar? Estou oferecendo o que meu público realmente precisa? E como vou ganhar dinheiro com uma proposta dessa? Essas são as três perguntas principais que diferem uma invenção de uma inovação. Inovação é uma invenção com algum valor para alguém. Idealmente, as perguntas precisam ter respostas pela visão do potencial cliente e não somente pela visão do criador.

Sua graduação em Comunicação Social – Jornalismo e sua pós-graduação em Psiquiatria – Dependência Química contribuíram de alguma forma para sua mentalidade como inventor autônomo?

A Comunicação me proporcionou uma visão mais generalista e menos técnica da vida, o que pode ter me ajudado a ter ideias para soluções em diversos campos, e a criar a confiança, ou, pelo menos, a coragem para poder levá-las adiante. A especialização me ajudou a conhecer um pouco mais sobre as limitações da mente humana e os desafios que ela precisa enfrentar para se aproximar mais da sanidade plena. Além disso, conhecer um pouco da mente e do cérebro me inspirou a ter ideias para a área da saúde, como o protetor de unhas para quem rói as unhas, entre outras.

Em seu perfil no Linkedin consta centenas de invenções, quantas delas são patenteadas e comercializadas pelo mercado?

Em meu perfil constam 800 ideias cruas de invenções e 4 que já se encontram em um estágio mais avançado – além de uma simples abstração. Estas 4 já estão patenteadas, duas com carta-patente deferida, e outras duas ainda tramitando dentro do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Elas podem ser encontradas neste link: https://paulogannam.wordpress.com/

À esquerda, lixa para unhas com patente já deferida pelo INPI, é uma lixa que serve para dar brilho, lixar a superfície das unhas e lixar o contorno da unha com diversos graus de aspereza. À direta, protetor de unhas para solucionar o hábito destrutivo de roer as unhas que acomete de 19% a 45% da população, oscilando conforme a faixa etária.

Na mesma rede social profissional, você coleciona mais de 100 recomendações de profissionais brasileiros e estrangeiros para a competência de marketing. Alguém que desenvolve um produto original e de alta qualidade, mas que não sabe fazer o marketing adequado, tende a engavetar o produto e desanimar dessa carreira? 

Não parece justo, mas isso é uma realidade. Um produto ruim, se bem posicionado com um bom marketing, pode se tornar um sucesso de vendas. Já um produto tido como excelente, se carente de uma boa apresentação, pode não ser bem aceito. Muitas vezes, a maneira de apresentar uma ideia e um produto conta mais do que a qualidade da ideia de produto em si.

Segundo o Manual de Oslo, inovação é “a introdução de um bem ou serviço novo ou significativamente melhorado, no que se refere às suas características ou usos previstos, ou ainda, à implementação de métodos ou processos de produção, distribuição, marketing ou organizacionais novos ou significativamente melhorados”. Com base na sua experiência, toda invenção patenteada é uma inovação? Explique brevemente dois produtos ou projetos de sua autoria que você considera inovadores.

Para fins práticos, não me atenho muito a essas tentativas de diferenciação entre “invenção” e “inovação”, porque trata-se de uma linha muito tênue. O que hoje é uma mera ideia, ou uma mera patente, pode, amanhã, tornar-se uma inovação. Não posso dizer que toda invenção patenteada é uma inovação, mas posso dizer que toda invenção patenteada pode ser tornar uma inovação se bem implementada no mercado por quem tenha visão.

O primeiro produto consiste em um sistema de comunicação entre motoristas e motociclistas capaz de enviar mensagens com a velocidade e a segurança necessárias para prevenir acidentes, crimes, comunicar situações nas rodovias e nos veículos, fomentando um clima amistoso e de cooperação no trânsito. Une, preferencialmente, um hardware e um software e se torna uma nova rede social de trânsito com potencial para gerar um volume de dados sem precedentes. Permite integrar toda a comunicação entre veículos e autoridades, sendo uma importante solução tecnológica para o mercado de internet das coisas.

O segundo é para pessoas que “adoram” arrebentar seus pneus, rodas e calotas durante encostamento ou estacionamento (baliza) junto ao meio-fio. Trata-se de um jogo de um ou mais sensores vinculados a um software capazes de oferecer informações de distância em relação ao meio fio e/ou instruções ao motorista durante a manobra por um custo 15 vezes mais baixo do que auxiliares de estacionamento semiautomático e jogos de câmeras atualmente ofertados pelas montadoras. Esse produto abre um novo mercado, sendo um Park Assist de baixo custo e fácil instalação para veículos leves, pesados, utilitários, usados e outros. 

*Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP. Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – UFU . Especialista em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP . Professor Escolar da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.