Crônicas abismais do confinamento: o olhar dos espelhos

Uma história de estilhaços

Por Chico Vilella*

De um só se viam as vias de si. De outro se viam as vias de si e do outro. Mas havia um terceiro espelho em que se viam todas as vias de si e de todos, e do qual não se falava. Espelhos que luziam de completude, pareciam perfeitos, desvendavam vidas. Mas também deixavam estilhaços, e eram mais terríveis e devastadores. Os espelhos são sempre improváveis e imprevisíveis.

Foi então que os espelhos passaram a partir-se em estilhaços. Cada pedaço desigual e irregular carregava consigo partes das imagens que haviam refletido em suas vidas. Por essa época os espelhos iniciaram a perda do domínio de sua linguagem, que falavam apenas entre si, e foram se reduzindo a cacos mudos de imagens desfeitas. E os cacos se divertiam em ferir pessoas e outros seres ambulantes. Isso tudo aconteceu em tempos em que os espelhos olhavam, talvez antes dos tempos remotos em que imagens e realidade ainda se confundiam.

Os mais velhos advertiam os jovens sobre os perigos do descontrole de suas imagens, os riscos da fusão das imagens com os sonhos tão comuns entre espelhos inexperientes. Os conselhos eram claros: sonhem sonhos simples, com imagens simples que podem ser realidade. Não sonhem quimeras de imagens oníricas. Assim vocês vão poder viver sempre nas asas dos seus sonhos, um agrado à felicidade.

Os jovens desdenhavam e diziam que as imagens eram como as palavras, em que uma letra mudava o sentido da vida. Lembravam das sutilezas da afinação de pianos e da afiação de facas, em que havia em ambas a busca da perfeição, da exatidão, da beleza. E citavam a penca de reis e nobres que apreciavam pianos afinados e morriam na ponta de facas afiadas, em cenas que os espelhos dos palácios eternizavam. Afiafinação na linguagem dos espelhos.

E aos poucos as imagens aos cacos se misturavam como cantos de galos ensandecidos em manhãs sombrias. Apenas um espelho ainda se mantinha intacto com imagens sólidas. Morava numa parede na sala de cerimônias de um terreiro de umbanda e nutria-se da harmonia de cânticos e movimentos e da espiritualidade emanada dos rituais.

Era imenso em sua grandeza e sua profusão de cores, e caravanas de adeptos de todos os rincões do mundo vinham vê-lo e prestar homenagens, como se fosse o último oráculo ainda vivo de uma era incerta em que pessoas fátuas perdiam o senso de perenidade, esqueciam do passado aos pedaços, mostravam-se incapazes de clarear o presente e duvidavam do futuro.

Nesse terreiro ensinava-se que as imagens propagadas nas gotas, nas superfícies de águas mansas, nos olhos de seres vivos não precederam os espelhos: nasceram juntos o olho que vê as imagens e os espelhos e seus reflexos e brilhos.

Os espelhos foram fruto das mesmas forças e energias que moldaram as imagens e a realidade, a tal ponto que pensadores mais argutos se dedicaram à análise da teoria do planejamento dos espelhos. Para muitos, havia movimentos que poderiam alterar os fluxos de imagens fortuitas e desvendar a verdadeira função dos espelhos como organizadores das imagens e de parte das percepções humanas.

Uma das descobertas mais relevantes dessas correntes foi a da lateralidade dos espelhos. Apesar da inversão das imagens que troca de lugar a esquerda e a direita, o conjunto permanece no plano original. A tese da lateralidade resultou da aplicação de técnicas avançadas à observação do plano invertido. Constatou-se que os espelhos expressavam a realidade em muitos planos diferentes, e que o olho humano só podia ver um plano. Outra surpresa foi que as cores dos múltiplos planos dos espelhos assemelhavam-se a cores descritas como ‘psicodélicas’.

Outras correntes de pensadores optaram por tentar decifrar a linguagem dos espelhos. Mas essas correntes não prosperaram pela barafunda de teorias desencontradas, todas contidas pelo muro da ausência de um ponto de partida. A transformação mundial dos espelhos em estilhaços sugeria alguma forma de comunicação em que linguagens teriam de ser empregadas, já que nunca foram encontradas razões científicas para o fato.

Outra fonte de pesquisas e debates entre os especialistas era a relação entre o gênero Homo e os espelhos. Para muitos, a diferença era instigante, dado que os homens se viam nos espelhos mas ignoravam que os espelhos também viam os seres além de se virem, o que colocava os espelhos acima do gênero que julgava que os criara.

E, enquanto se debatiam estes e outros temas e os homens buscavam em desespero alternativas para a essencial visão de suas próprias imagens, o grande espelho do terreiro numa ruidosa explosão se estilhaçou. Era o fim da pretensão humana de se ver, não por intermédio de sua alma, mas apenas pela ilusão da sua imagem.

E o mundo mergulhou em confusão e silêncios. Mas uma gargalhada passou a ecoar durante os rituais sagrados do terreiro.

*Chico Villela é escritor e editor, escreve sobre Geopolítica e Política Internacional. Contato pelo e-mail chicovillela@gmail.com

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