O que você sabe sobre pré-eclâmpsia? Especialistas detalham mais sobre uma das principais causas da mortalidade materna

Nem sempre essa interação entre mãe e feto é biologicamente harmônica

Por Vinícius Nunes Alves* e Caroline Marques Maia**

A gravidez é uma fase da vida de muitas mulheres que merece atenção especial. Como diz o médico pop Drauzio Varella, a gravidez pressupõe o desenvolvimento de um ser geneticamente diferente dentro do útero da mãe e que, apesar disso, não o rejeita. E sem placenta, não tem gravidez. A placenta é o tecido que conecta o feto com a mãe, permitindo trocas gasosas e de nutrientes para o desenvolvimento do bebê. Mas nem sempre essa interação entre mãe e feto é biologicamente harmônica. 

Do ponto de vista imunológico, Drauzio Varella alerta que a liberação de proteínas do filho na circulação materna através da placenta pode provocar um “estranhamento” nas células de defesa do sistema imune da mãe que desencadeia uma resposta imunológica contra os tecidos fetais. Tal resposta pode causar pressão alta na gravidez, que também é conhecida como pré-eclâmpsia. Infelizmente, essa ainda é uma das principais causas da mortalidade materna. Não é à toa que atualmente temos até o Dia Mundial de Conscientização da Pré-Eclâmpsia, comemorado no dia 22 de maio. 

Nesta entrevista dupla e exclusiva para o jornal Notícias Botucatu, conversamos com dois profissionais que estudam pré-eclâmpsia há cerca de duas décadas, para contarem um pouco das curiosidades e dos desafios entorno dessa doença. José Carlos Peraçoli é médico, especialista em Ginecologia e Obstetrícia e pesquisador em hipertensão na gravidez. Ele é professor na Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) da UNESP e presidente da Rede Brasileira de Estudos sobre Hipertensão na Gravidez. Já Maria Terezinha Serrão Peraçoli é bióloga e doutora em Microbiologia e Imunologia. Ela é professora do programa de pós-graduação em Tocoginecologia da Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP.

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) em 2018 alerta que, se a pré-eclâmpsia não for detectada e tratada, ela pode avançar para situações graves tanto para a mãe como para o bebê, como a eclâmpsia. Em palavras simples, como vocês definem esses dois estágios da doença?

Carlos – A pré-eclâmpsia é definida pela ocorrência de aumento da pressão arterial na segunda metade da gravidez (a partir do 5º mês de gestação), em mulheres que não têm história de pressão alta antes da gravidez. Essa doença não tem cura, e só desaparece com o nascimento da criança e a saída da placenta. Mas até que isso aconteça, a doença pode caminhar para situações graves, e uma delas é a manifestação de crise convulsiva, que chamamos de eclâmpsia.   

Terezinha – No início da gravidez normal o organismo da mãe desenvolve um estado de tolerância imunológica, que permite a implantação e desenvolvimento do bebê e da placenta no seu útero. Muitas células e moléculas produzidas tanto pela mãe como pelo feto são importantes para o equilíbrio dessa tolerância. Quando essa adaptação do organismo materno não é adequada, podem ocorrer complicações da gravidez como o aborto e a pré-eclâmpsia. Assim, a pré-eclâmpsia tem início desde os primeiros momentos da gravidez, causando um estado inflamatório silencioso no organismo da grávida. Portanto, a pré-eclâmpsia é considerada um estado de má-adaptação imunológica materna ao desenvolvimento do feto. 

A pressão arterial alta na gravidez é um sintoma comum de pré-eclâmpsia, sendo que formas graves da doença podem causar convulsões e até mesmo coma. Há sintomas mais leves que as gestantes precisam prestar atenção e procurarem por ajuda médica? 

Carlos – Sim. Quando a gestante tem o diagnóstico de pressão alta, ela já deve ter orientação médica. Sintomas como dor de cabeça que persiste mesmo com uso de analgésico, vista estranha (enxerga pontos brilhantes ou a vista fica embaçada) e dor ou queimação na região do estômago já são sinais de uma possível crise convulsiva (eclâmpsia) a qualquer momento e é urgente procurar por um serviço médico.  

     

Quando se fala em pré-eclâmpsia, muito se questiona sobre os impactos para a saúde da gestante, mas o bebê que está dentro do útero pode também ser prejudicado quando a mãe desenvolve pré-eclâmpsia?

Carlos – Sim. Quando a gestante apresenta pressão alta, isso diminui o sangue que chega para o bebê e, assim, acaba chegando menos nutrientes e oxigênio. Dependendo da gravidade da pré-eclâmpsia, o feto pode crescer menos do que deveria, nascendo com baixo peso, e pode também apresentar risco de morte. Muitas vezes é necessário terminar a gravidez, sendo que o bebê acaba nascendo prematuro, ou seja, antes do tempo certo. Portanto, vale a pena reforçar que tanto a gestante como o bebê correm risco quando ocorre a pré-eclâmpsia. 

O tratamento para pré-eclâmpsia varia desde o uso de medicamentos até a realização do parto. Vocês consideram que esses tratamentos são acessíveis para famílias com condições socioeconômicas mais desfavorecidas? 

Carlos – No Brasil esses tratamentos geralmente são acessíveis, uma vez que o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece os medicamentos necessários para os casos leves e graves. Porém, é importante lembrar que o tratamento da pré-eclâmpsia é limitado, pois como citado acima, essa doença não tem cura que não seja terminar a gravidez, o que nem sempre é desejável. Em situações em que o feto é prematuro, por exemplo, realizar o parto coloca em risco a vida da criança. Portanto, o melhor é  evitar (prevenção) que a doença aconteça. Nesse sentido, já se conhece o que chamamos de fatores de risco, isto é, condições que podemos identificar até antes que a mulher engravide ou no início da gravidez. Nesses casos, procuramos, por meio de duas substâncias, tentar impedir que a gestante desenvolva a pré-eclâmpsia.

Carlos e M. Terezinha – Temos apenas duas substâncias que foram comprovadas pelos estudos que podem impedir que a prê-eclâmpsia aconteça: o ácido acetil salicílico (aspirina) e o cálcio (que a gestante deve ingerir em sua dieta ou tomar em forma de comprimidos). As grávidas que tenham um ou mais desses fatores devem começar a tomar a aspirina e o cálcio a partir do terceiro mês de gravidez, sob orientação do médico.

A pré-eclâmpsia é responsável por até 22% das mortes maternas na América Latina, segundo a Organização Mundial de Saúde, e é a principal causa de morte de mulheres grávidas no Brasil, segundo o Ministério da Saúde (2018). Considerando as pesquisas dos últimos anos, quais resultados têm se mostrado mais promissores para o tratamento dessa grave doença?

Terezinha – Nosso laboratório de Imunologia da Reprodução no departamento de Ciências Químicas e Biológicas do Instituto de Biociências de Botucatu, UNESP vem trabalhando há mais de 20 anos no estudo relacionado à resposta imunológica do organismo materno na pré-eclâmpsia. Os resultados mostram que tanto na placenta como no sangue da mãe se detecta uma inflamação intensa associada à hipertensão arterial, responsáveis pelas formas graves da doença. Como não existe tratamento específico para a pré-eclâmpsia, nossos estudos têm se voltado para conhecer os mecanismos envolvidos nessa inflamação e testar moléculas com atividade anti-inflamatória sobre células dessas gestantes, em experimentos de laboratório. Exemplos dessas moléculas são hormônios como vitamina D e progesterona, além de produtos naturais extraídos de plantas como a silibinina. Esses estudos mostraram que essas moléculas podem diminuir a inflamação das células e poderão futuramente ser utilizadas para o tratamento das gestantes com pré-eclâmpsia.

Pesquisas com gestantes que têm pré-eclâmpsia podem ser realizadas com análises de plasma sanguíneo e placenta, por exemplo. Quais cuidados técnicos e éticos são importantes para realizar tais estudos clínicos? 

Terezinha – Nossos projetos de pesquisa envolvendo sangue da mãe e a placenta das gestantes com pré-eclâmpsia são submetidos à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa com seres humanos da Faculdade de Medicina de Botucatu, UNESP. Todas as pacientes são informadas quanto aos objetivos da pesquisa e assinam um termo de consentimento para participação na pesquisa.

De acordo com um estudo recente publicado na revista An International Journal of Obstetrics and Gynaecology, vários problemas de saúde estão associados com a pré-eclâmpsia a longo prazo, como doenças cardiovasculares e diabetes nas mães, além de hiperatividade e déficit de atenção em seus filhos. Como uma gestante que teve pré-eclâmpsia pode se cuidar para evitar ou ao menos atrasar o início dessas doenças futuras? 

Carlos – Essas complicações no futuro de gestantes que tiveram pré-eclâmpsia estão bem estabelecidas pelas pesquisas. Assim, devemos considerar a pré-eclâmpsia como um ‘marcador’ que indica o aparecimento de doenças como as citadas acima no futuro – após 5 ou mais anos. Assim, toda mulher que teve pré-eclâmpsia deve ser orientada a mudar seus hábitos de vida, como deixar de fumar se for fumante, fazer atividade física como caminhadas por 40 a 60 minutos duas a três vezes por semana e ter uma alimentação mais saudável, com verduras e frutas, além de evitar embutidos e excesso de sal.

*Vinícius Nunes Alves é Licenciado e Bacharel em Ciências Biológicas – IBB/UNESP.  Mestre em Ecologia e Conservação de Recursos Naturais – Inbio/UFU. Especialista em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP. É membro colaborador do Blog Natureza Crítica – divulgação científica em meio ambiente. Professor Escolar da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

**Caroline Marques Maia é bióloga, mestre e doutora em Zoologia – IBB/UNESP. Especialista em Jornalismo Científico – Labjor/UNICAMP. Comanda o Blog ConsCIÊNCIA Animal e é colunista do Site AmoMeuPET. Gestora-diretora no Instituto Gilson Volpato de Educação Científica (IGVEC). Membro do FishEtho Group, organização internacional de cientistas que trabalha para o bem estar dos peixes.