O PIB da desigualdade

Basta uma volta pela cidade para verificar o aumento de vendedores de itens variados nos semáforos

Por Edson Bicalho*

Por conceito, Produto Interno Bruto (PIB) é a soma de todos os bens e serviços produzidos em uma economia durante um certo período. Portanto, o PIB nos ajuda a avaliar se a economia está crescendo e se o padrão de vida da população está melhorando, certo? No Brasil, não exatamente. No Brasil da pandemia sem controle, o crescimento do PIB em 1,2% no primeiro trimestre deste ano, acima do esperado pelo mercado, não representa, de forma alguma, a melhora das condições de vida dos brasileiros e brasileiras. O dado, aparentemente positivo, mascara um problema estrutural do País que se agravou em ritmo acelerado com a pandemia: a desigualdade social.

Edson Dias Bicalho é presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e da Fabricação de Álcool, Etanol, Bioetanol e Biocombustível de Bauru

Se, por um lado, o PIB cresceu, por outro, a pobreza e o desemprego aumentaram em ritmo ainda maior. No mesmo período que as ditas “riquezas” do Brasil subiu 1,2%, a taxa de desocupação alcançou o recorde em 14,7%. São 14,8 milhões de trabalhadores e trabalhadoras sem trabalho e renda! Para complicar, a inflação não dá trégua e encolhe o poder de compra da população mais pobre mês a mês. Em São Paulo, a cesta básica já aumentou 0,78% neste ano, de acordo com o último estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), divulgado agora em junho. Nos últimos 12 meses, subiu 14,39%. O resultado desta equação de desemprego e alimentos mais caros é o Brasil de volta ao mapa da fome.

Basta uma volta pela cidade para verificar o aumento de vendedores de itens variados nos semáforos para tentar matar a fome do dia; de pessoas em situação de rua morando nas praças e viadutos; de famílias pedindo cesta básica a entidades e o tamanho das filas nos restaurantes Bom Prato, que dobram quarteirão. Os “mais sortudos”, que seguem empregados, com aumento dos alimentos, energia e combustível, agora têm de escolher muito bem pelo preço o que colocar no carrinho do mercado. Levantamento do Dieese referente às negociações coletivas apontam que entre janeiro e abril deste ano, 58,7% dos reajustes salariais ficaram abaixo da inflação medida pelo INPC. Carne virou item de luxo. Churrasco no final de semana, uma lembrança no passado.

Com uma realidade destas, que está diante dos nossos olhos, dá para acreditar em crescimento do PIB? A situação no Brasil piorou tanto que podemos dizer que agora existem dois PIBs. O do rico, o do agronegócio, o do sistema financeiro e alguns privilegiados setores da economia. Esses, que historicamente sempre lucraram, estão ficando mais ricos em plena pandemia. O outro PIB é o dos pobres, onde estão os trabalhadores e trabalhadoras, os desalentados, os desempregados e os que passam fome. Esses, que sempre sofreram mais, além de mais expostos à pandemia, estão perdendo o mínimo que tinham conquistado: o direito à vida digna com alimentação e moradia adequadas.

Quando te disserem que, apesar da pandemia, a economia brasileira está em recuperação, pergunte-se para quais brasileiros a situação está boa e para quem o crescimento do PIB reflete em qualidade de vida. Não há nada entrando nos trilhos e melhorando. Este PIB é o da desigualdade. A pandemia já matou mais de 470 mil brasileiros e segue sem controle. São mais de 14 milhões de desempregados. São mais de 19 milhões de pessoas passando fome. Nada está certo, justo. Muita coisa precisa mudar!

*Edson Dias Bicalho é presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas, Farmacêuticas e da Fabricação de Álcool, Etanol, Bioetanol e Biocombustível de Bauru e Região (Sindquimbru) e secretário-geral da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas do Estado de São Paulo (Fequimfar).