Rios Voadores: uma breve história sobre a água doce, líquida e potável do Sudeste Brasileiro

A água doce de superfície, pronta para consumo, estocada em rios e lagos, representa apenas 0,3% dos 2,5% de água doce

Por Jorge Martins*

Apesar de morarmos na Terra, o nosso planeta visto de fora tem a sua superfície, em sua maior parte, coberta por água. “A Terra é Azul” disseram os primeiros cosmonautas, e deve essa cor a cobertura dos oceanos. Essa aparente fartura de água cria uma falsa impressão sobre a real disponibilidade de água doce no planeta. A maior parte da água existente no mundo é salgada, 97,5%. A água doce de superfície, pronta para consumo, estocada em rios e lagos, representa apenas 0,3% dos 2,5% de água doce presente no Planeta. O restante, 2,2%, está nos lençóis freáticos e aquíferos, nas calotas polares, geleiras, neve permanente e outros reservatórios.

Tão importante quanto quanta água doce potável dispomos, são os ciclos hidrológicos que elas obedecem, ou seja, como essa água circula regional e globalmente. Satélites como o Áqua permitiram monitorar a evaporação da água a nível global durante muitos anos mostrando como a água circula. Se olharmos essas imagens de fluxo veremos o enorme papel que as florestas tropicais exercem nesse processo, em que boa parte da água evaporada na porção intertropical chove sobre as áreas de florestas equatoriais.

No caso aqui de Botucatu e do Sudeste, incrivelmente estamos atrelados ao ciclo hidrológico amazônico. Aqui chovem os Rios Voadores, que são massas excedentes de vapor que não chovem na região Norte e se deslocam da região amazônica, se chocam com os Andes a oeste, descem e chovem sobre o Centro Oeste e Sudeste, criando a zona agrícola do Brasil, e fornecendo água para a maior hidroelétrica do país e para as recargas do Sistema Aquífero Guarani. É a famosa Convergência do Atlântico Sul, que ouvimos nas análises meteorológicas dos telejornais, que torna o sudeste habitável e o centro oeste nosso celeiro agrícola. Botucatu, uma cidade situada no topo da Cuesta, praticamente “bebe agua de chuva”, com a bacia do Alto Pardo, que abastece a cidade, tendo sua vazão totalmente dependente dessas chuvas anuais.

Para termos noção de o quanto esse ciclo hidrológico da América do Sul é importante para o Sudeste Brasileiro, temos que entender que a grande maioria das porções de terras do mundo situadas no entorno dos Trópicos de Capricórnio e Câncer, são desertos. Esse fenômeno se deve a convergência climática de massas de ar seca entre a zona temperada e a zona tropical conhecido como células de Hardley. Coloque-se nessa conta o Saara e Oriente Médio, o Kalahari, o grande deserto da Austrália, Patagônia e os desertos do sul dos Estados Unidos. Uma das únicas regiões do mundo onde não há deserto nessa posição é aqui no Centro Oeste e Sudeste Brasileiro, por causa da existência da Amazônia. Ou seja, somente porque existe Amazônia, aqui em Botucatu não é um deserto. Somos totalmente dependentes hidricamente dos rios voadores e consequentemente da adequada cobertura florestal da Amazônia.

Outro aspecto fundamental sobre o tema água é o consumo. Segundo diferentes projeções o consumo atual de água geral está dividido assim: 70% agropecuária, 20% indústria e 10% consumo humano.

Mesmo se levarmos em consideração apenas a água para consumo humano os números são altos. A ONU considera que cada pessoa hoje em média necessita de 154 litros por dia, incluindo consumo, banho e uso sanitário. Se olharmos ao longo de 80 anos isso corresponde a um consumo equivalente a 4,5 milhões de litros por pessoa. Se usarmos a população atual de 7 bilhões de pessoa no planeta chegaremos à cifra inimaginável de 1 trilhão de litros de água para consumo humano por dia. Se isso é apenas 10% do consumo total, imagine os números da agropecuária e indústria.

Existe uma expressão conhecida como Água Virtual, que corresponde a toda a água consumida durante o processo produtivo de um determinado produto. Por exemplo, 1 kg de carne bovina na prateleira do supermercado tem 20 mil litros de água virtual impressos, que incluem desde a água ingerida pelo animal até a água usada para lavar sua carcaça pós abate. Da mesma maneira 1 copo de leite, necessita de 300 litros de água virtual pra ser produzido, 1 calça jeans precisa de 1800 litros e mesmo o seu lap top, gasta cerca de 31 mil litros de água para ser produzido. Se aplicarmos o conceito de água virtual a tudo que um ser humano consome durante o dia chegaremos ao conceito de Pegada Hídrica, que é estimada com o valor médio aproximado de 3784 litros por pessoa/dia.

A Organização das Nações Unidas considera como uma situação de estresse hídrico severo, a disponibilidade do água menor que 500 m3/habitante/ano. Paradoxalmente o Brasil que detém cerca de 20% de toda a água doce liquida do planeta, tem algumas regiões onde estes valores já foram alcançados. Estudos mostraram que em 2006 na Bacia PCJ, em São Paulo, os beneficiários dispunham de somente 400 m3/habitantes/ano no período de estiagem (Comitê PCJ, 2006), o que se configura como stress hídrico severo. Esse histórico e o cenário atual de 2021, de escassez hídrica que o país vem enfrentando, com reservatórios bastante rebaixados no início do período seco, deveria deixar as autoridades em alerta. É preciso fazer mais que somente aumentar o valor das tarifas de energia elétrica. É necessário criar políticas de real preservação dos recursos hídricos e ciclos hidrológicos.

Para agravar oque já é crítico, os cenários de mudanças climáticas mostram que com as tendencias futuras para o Brasil podem ser dramáticas se a Amazônia continuar sendo desmatada. Em 2003 tive a oportunidade de visitar uma parcela do projeto Seca Floresta na FLONA Tapajós, em Santarém, Pará. Esta pesquisa integrava o LBA, que na época foi uma grande pesquisa realizada em conjunto pelo governo brasileiro com a NASA, para estudar os efeitos da estiagem prolongada sobre a floresta amazônica. Naquela época, a 20 anos atrás, os riscos já estavam descritos, e o cenários crítico descrevia que caso a Amazônia perca 20% de sua cobertura florestal ela entrará numa fase de degradação e savanização irreversível que pode atingir 60% do Bioma. Quais as consequências para o clima?

Mudança total de regime de chuva com grandes períodos de estiagem no Sudeste e Centro Oeste, podendo incorrer em quebra de safras e perda da faixa agrícola do país. Pode-se comprometer a produção de energia hidroelétrica de Itaipu e eventualmente, nos cenários mais críticos, ter a vazão da Bacia do Prata, do Rio Paraguai, comprometida.

A pergunta que não quer calar é: Já sabemos disso a 20 anos e ninguém fez nada? Como o governo pode gerar dados estratégicos com pesquisas complexas e caras, e depois não usa os dados a favor da sociedade? Se já sabemos que se perdermos a Amazônia iremos todos para o buraco, porque não se combate o desmatamento com o rigor requerido?

Não se trata de paranoia radical de ecologistas, longe disso, são informações científicas sérias que estão nos dizendo: Ou mudamos e preservamos a Amazônia, ou pereceremos, e deixaremos um país destruído para as futuras gerações. Não é somente sobre desenvolvimento sustentável e avanço econômico, é sobre a nossa sobrevivência, o futuro do nosso país e dos nossos filhos.

Documentário recomendado: Rompendo Barreiras. David Attemborough – NETFLIX

* Jorge Luís Araújo Martins é Médico Veterinário Especialista em Animais Selvagens e PhD em Biotecnologia Animal Especialista em Biologia da Conservação da Vida Silvestre. Acumula experiência de pesquisa em Instituições como Zoológico de Berlin, Museu Paraense Emilio Goeldi, UNESP, Conservação Internacional e WWF. Atua também como Consultor dando suporte a ações de Responsabilidade Socioambiental junto a Empresas.

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