Ciência e Inconsciência: quais as consequências?

A nossa frente existe uma lista de desafios épicos liderados pelos impactos que as mudanças climáticas irão impor

Por Jorge Martins*  

Quando vemos o que um vírus fez com o planeta nos damos conta de o quanto somos vulneráveis. Apesar de vivermos uma espécie de ápice tecnológico a humanidade acabou sendo pega desprevenida por uma pandemia, mas não foi por falta de aviso. Desde 2002 pelo menos, que os mercados chineses são tratados como bombas epidemiológicas em potencial, que misturadas a logística aérea contemporânea poderiam desembocar numa pandemia como a que estamos vivendo. Foram emitidos inúmeros avisos e alertas nas duas últimas décadas sem que nem políticos e nem as empresas levassem a ameaça a sério. A capa e a matéria da revista abaixo sobre o risco do coronavírus já estavam das bancas de revista de São Paulo, em março de 2003 e mesmo assim nada foi feito.

Quantas tragédias mais estaremos dispostas a bancar mesmo estando a décadas avisados? Pode parecer absurdo que a ciência esteja avisando a sociedade a décadas e tenha sido tacitamente ignorada, mas continuamos fazendo isso com outros temas e o preço a se pagar pode ser mais alto que o da COVID 19.

Poucas pessoas sabem, mas a tríade saúde ambiental, saúde animal e saúde humana são premissas modernas para se pensar saúde, prevenção e tratamento de muitas doenças, principalmente as zoonoses, doenças transmitidas entre animais e humanos. A saúde humana esta intimamente relacionada a saúde ambiental e animal e vice e versa. Muitas áreas naturais abrigam vetores e reservatórios de doenças que dentro de um ambiente estável e preservado se encontram em equilíbrio e menos propensas a contaminar populações humanas, principalmente em áreas urbanas.

Existem muitos exemplos que mostram essa interface entre saúde ambiental e humana. O Aedes Aegypti por exemplo, é um mosquito que vive em sua ecologia clássica no topo das arvores, principalmente em águas de bromélias. Neste nicho ecológico o mosquito vivia em um equilíbrio dinâmico controlado pela cadeia alimentar a que ele pertence. Com o desmatamento das florestas e destruição de seu habitat natural em muitas regiões, o mosquito foi desafiado a se adaptar num ambiente muito diferente que incluiu caixas d’água de residências humanas. A partir daí para ocupar zonas urbanas foi um pulo. O mosquito fora da sua cadeia trófica, sem predadores naturais, explodiu demograficamente levando inicialmente com ele um vírus que contaminou muita gente, o vírus da Dengue. Após décadas de descontrole o mosquito hoje além de transmitir o Vírus da dengue se habilitou para transmitir mais dois outros vírus muito perigosos, o da Zika e o da Chicungunha. Ou seja, a destruição da floresta liberou um vetor natural no ambiente urbano que hoje é responsável pela transmissão de três doenças extremamente preocupantes que continuam a contaminar milhares de pessoas anualmente.

A COVID 19, da mesma maneira, ocorreu porque os animais de áreas de florestas tropicais são capturados e traficados para criação e/ou consumo humano em regiões de metrópoles. Embora o risco estivesse apontado e o alerta tivesse sido dado a mais de vinte anos, quase ninguém levou a sério, até acontecer o que aconteceu. No caso da Amazônia a situação é extremamente preocupante. Reservatório de muitas doenças naturais, caso continue sendo desmatada de maneira descontrolada poderá ser o berço das pandemias do futuro. Obras do passado na região, como a construção da estrada de ferro Madeira Mamoré levaram milhares de pessoas a morte por doenças tropicais durante a construção da ferrovia. Morreram nessa construção mais pessoas que em qualquer outra obra no mundo. Ficou conhecida como a Ferrovia do Diabo.

Então, ficam as dicas: primeiro; vamos ouvir a ciência com atenção, em épocas de mudanças climáticas ela é uma das únicas bússolas seguras para a sociedade. A ciência já falou e demonstrou nossa imensa dependência da Amazônia, vamos levar isso a sério, desmatar a Amazônia não é uma opção. Aprendamos de uma vez por todas com a lição da COVID-19, pois não temos mais muito tempo de reação.

A nossa frente existe uma lista de desafios épicos liderados pelos impactos que as mudanças climáticas irão impor. Condições muito difíceis estão em curso, principalmente se não fizermos nada. E por último, um apelo: Senhores(as) empresários(as), senhores(as) políticos(as), senhores(as) professores(as) universitários(as), senhores(as) tomadores(as) de decisão, lideranças nas mais diferentes frentes da sociedade, por favor e pela última vez: Reajam! Mudanças climáticas é um tema URGENTE! Preservar a Amazônia é questão de sobrevivência, levem isso muito a sério. Usem sua posição, esforços e liderança para ajudar a construir soluções e a guiar a sociedade brasileira para um futuro mais verde, criativo, solidário e de baixo carbono.

* Jorge Luís Araújo Martins é Médico Veterinário Especialista em Animais Selvagens e PhD em Biotecnologia Animal Especialista em Biologia da Conservação da Vida Silvestre. Acumula experiência de pesquisa em Instituições como Zoológico de Berlin, Museu Paraense Emilio Goeldi, UNESP, Conservação Internacional e WWF. Atua também como Consultor dando suporte a ações de Responsabilidade Socioambiental junto a Empresas.

Este é um conteúdo exclusivo do Notícias! Para obter permissão de cópia, favor contatar a redação pelo n.botucatu@gmail.com