Prevenção de Incêndios na Cuesta

Os incêndios fora de controle são potencializados por fogos de origem humana fora do período chuvoso

Por Jorge Martins*

Incêndios também afetam a biodiversidade do solo, comprometendo sua fertilidade. Fotos: Flávio Fogueral/Notícias Botucatu

Mais um ano que estamos assistindo as chamas consumirem nossas paisagens, poluírem nosso ar e alimentar nossas preocupações sobre todos os impactos que os incêndios podem causar à nossa região da Cuesta. Dado que, como já expomos em artigos anteriores, nos situamos numa região de ecótono de convergência entre Mata Atlântica e Cerrado os prejuízos para a biodiversidade sempre são grandes. Sabendo que o fogo faz parte do ciclo sazonal do Cerrado, existe uma dimensão em que os incêndios podem ser considerados como parte do ciclo natural regional, dentro do que poderia ser considerado uma “fisiologia” ecológica natural do Cerrado.

Nestas condições os incêndios ocorrem sempre associados as chuvas, pois têm suas origens em raios, e por isso são autocontroláveis pela própria chuva. No entanto, atualmente, os incêndios fora de controle são potencializados por fogos de origem humana fora do período chuvoso. O inverno de Botucatu entre os meses de julho e setembro, tem duas características que favorecem muito os incêndios: a diminuição drástica da umidade do ar e os ventos intensos característicos dessa região. Além disso vários fatores culturais, de risco e de manejo associado ampliam muito a extensão e a intensidade desses eventos.

Do ponto de vista cultural há inúmeros hábitos que potencializam as queimadas, que vão desde as bitucas acesas lançada de veículos ao longo das estradas, ao despejo de entulhos em estradas vicinais, as fogueiras de acampamentos, até a queima intencional para “renovação” das pastagens realizada por muitos agricultores, que muitas vezes causam incêndios fora de controle.

Fatores de risco que ampliam a susceptibilidade a queimadas incluem principalmente acúmulo de grandes quantidades de matéria orgânica seca potencialmente pirética que quando alcançadas pelas chamas ampliam muito a intensidade e a propagação do fogo. Essa biomassa seca mal manejada pode estar na forma de pastagens, de descarte de podas ou pelo acúmulo de troncos e galhos cortados em locais de risco.

Na questão do manejo, a falta de medidas preventivas associadas aos dois fatores acima, criam cenários de grande risco para a biodiversidade e pessoas que vivem na zona rural. A falta de uma política regular adequada de manutenção de aceiros, de monitoramento de áreas de risco, de falta de manejo de biomassa e de plantios de cercas vivas com espécies corta fogo, deixam vulneráveis espécies e comunidades no período de maior risco de queimadas. A formação, equipagem e treinamento de brigadas de incêndio setoriais no município também é uma ação proativa que pode ajudar a diminuir os riscos de incêndios ampliados.

Estamos assistindo nos noticiários incêndios devastadores e fora de controle na Europa e EUA. No ano passado tivemos diversas queimadas no Brasil que destruíram grandes extensões da região pantaneira e impactaram muito o sul da região Amazônica a ponto de gerarem chuvas “negras” de fuligem na região sudeste. Os impactos dessas queimadas sobre a flora e fauna é muito grave com repercussões preocupante dentro de um cenário de extinção em massa que já está em curso. Os incêndios também afetam a biodiversidade do solo, comprometendo sua fertilidade.

Além disso muitos prejuízos de ordem econômica podem advir de incêndios com a perda de lavouras, plantios perenes e sazonais, perda de casas e equipamentos, sem nos esquecermos dos impactos diretos e indiretos na saúde humana, que podem incluir desde doenças respiratórias até queimaduras e a perda de vidas humanas.

Por isso vale a pena a reflexão. Preservar o mundo natural e proteger a sociedade depende de uma proatividade de todos. Nem os governos e nem os bombeiros conseguirão fazer nada se a sociedade e os cidadãos e cidadãs não estiverem conscientes no seu papel preventivo e proativo no controle e prevenção de queimadas.

O cenário de mudanças climáticas, já em curso, tende a agravar esses riscos, o que exigirá de todos nós um compromisso total para evitar e combater queimadas. Por isso, não jogue bitucas de cigarro acesa nas estradas, não produzam fogo em locais remotos sem tomar todos os cuidados preventivos, não acumule biomassa seca em locais susceptíveis ao fogo; maneje a matéria orgânica de pastagens secas e podas; plante cercas de plantas corta fogo como coroas de cristo, cactos e suculentas; construam e mapeie equipamentos mínimos de combate ao fogo como abafadores e sopradores; faça uma lista de contato de pessoas treinadas que podem ajudar numa situação de incêndio.

Prevenir é sempre melhor que remediar. O impacto de incêndios sobre os ambientes naturais pode ser muito grave, mas ainda piores, são os impactos sobre a qualidade de vida e a segurança social humana.

* Jorge Luís Araújo Martins é Médico Veterinário Especialista em Animais Selvagens e PhD em Biotecnologia Animal Especialista em Biologia da Conservação da Vida Silvestre. Acumula experiência de pesquisa em Instituições como Zoológico de Berlin, Museu Paraense Emilio Goeldi, UNESP, Conservação Internacional e WWF. Atua também como Consultor dando suporte a ações de Responsabilidade Socioambiental junto a Empresas.

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