Câmara de Botucatu aborda racismo estrutural em audiência pública

Convidados apresentaram suas reflexões e, então, seguiu-se o debate com questões formuladas

Da Redação

Foi intenso e de alto nível o debate sobre racismo estrutural que aconteceu na audiência pública promovida pela Câmara Municipal de Botucatu nesta terça-feira, 23 de novembro, em alusão ao Dia da Consciência Negra, celebrado anualmente em 20 de novembro.

Presidido pelo vereador Lelo Pagani (PSDB), o encontro se dividiu em dois momentos. No primeiro, convidados apresentaram suas reflexões e, então, seguiu-se o debate com questões formuladas por munícipes e vereadores.

Isabel Silva (Promotora Legal Popular, Núcleo de Mulheres Negras) foi a primeira a falar, comentando rapidamente a iniciativa e a importância da audiência. Em seguida, Cida Costa (ativista negra e presidente da associação Avanti Zumbi da região sudoeste do Estado, núcleo Sorocaba) abordou as dificuldades e lutas dos negros para combater o racismo estrutural. “Não é novidade para ninguém o que aconteceu no mundo com a diáspora. Houve uma conquista através dos tempos, ela nos custou e ainda nos custa muito cara. Existe uma estrutura e nós estamos fora. Já caminhamos muito, mas essa estrutura se mantém forte, sólida, e existe por causa de um racismo individual, velado. É só respeito que a gente pede. Nada mais”, ressaltou.

De maneira remota, o advogado Ademir José da Silva (membro consultor da Comissão Nacional da Verdade sobre a Escravidão Negra junto ao Conselho Federal da OAB e diretor secretário jurídico do Congresso Nacional Afro Brasileiro) falou sobre as legislações sobre racismo e injúria racial desde a primeira, em 1951, até os dias atuais e fez questão de destacar falas de mulheres: “Nós não podemos dizer que não somos racistas. Temos que agir e apontar o dedo àqueles que cometem o racismo, principalmente o racismo estrutural… Só sabe o que é sentir o racismo, o preconceito racial, a não aplicação das leis tendo essa pele e sofrendo isso no dia a dia”.

Cleber Bertero (acadêmico em História com extensão em Educação Afroindígena) encerrou as considerações dos convidados com dados de sua tese que apontam indícios da normalização do racismo indígena em Botucatu. “Estamos diante do famoso e inconscientemente racismo indígena estrutural. Eu sei que é difícil perceber, reconhecer, mas é impossível fingir que não existe. Manteremos a cultura do apagamento histórico aqui?”, questionou.

Além dos vereadores Alessandra Lucchesi (PSDB), Marcelo Sleiman (DEM), Sargento Laudo (PSDB), Palhinha (DEM) e Rose Ielo (PDT), acompanharam presencialmente o evento e realizaram perguntas aos convidados representantes de conselhos municipais, entidades, movimentos sociais e população em geral. Munícipes também enviaram questões pelas redes sociais da Câmara.

Encerrado o debate, ao som do Hino à Negritude foram entregues diplomas de participação a modelos e fotógrafa pela campanha “Não parece, mas é racismo”, que pode ser vista em outdoors e no shopping da cidade.

Em razão do grande envolvimento e da intensidade do debate, a audiência durou três horas e, além da troca de informações e de experiências, trouxe um questionamento que agora fica aqui registrado para prolongar a reflexão: “Que cada um se pergunte, todo dia: o que eu fiz hoje para diminuir o racismo que eu encontrei no meu dia?”